Omar Artan, um dos árbitros escolhidos pela FIFA para o Mundial, foi impedido de entrar nos EUA. E ainda não há uma explicação
Omar Artan, um dos árbitros escolhidos pela FIFA para o Mundial, foi impedido de entrar nos Estados Unidos pelas autoridades do país
Hector Vivas - FIFA
O Mundial de 2026 ainda não começou, mas continuam a acumular-se os casos à volta da maior competição de futebol do mundo: desta vez foi o árbitro somali, Omar Artan, que viu ser-lhe negada a entrada nos Estados Unidos para apitar. Governo somali exige explicações, mas FIFA rejeita responsabilidades sobre promessas que fez há menos de um ano
“Elogio os esforços, o profissionalismo e a integridade demonstrados pelo árbitro Omar, que se tornou uma inspiração para a nova geração de somalis“, disse Hassan Sheikh Mohamud, presidente somali, em abril, quando Omar Abdulkadir Artan se tornou o primeiro árbitro do país a ser nomeado para arbitrar no Campeonato do Mundo.
Três meses depois, Omar Artan viajou do Aeroporto Internacional de Istambul, na Turquia, para o Aeroporto Internacional de Miami, nos Estados Unidos, para se apresentar ao serviço, mas foi impedido de entrar no país.
A razão para a entrada ter sido negada ao árbitro de 34 anos não é ainda clara, ainda que a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) tenha dito àAgence France-Press (AFP) que “o viajante, árbitro do Mundial, foi considerado inadmissível devido a problemas com a sua verificação de antecedentes e foi-lhe negada a entrada“ após ter sido submetido a uma “triagem adicional“, que garantem ser uma etapa de rotina durante este tipo de procedimento.
Apesar de a Somália ser um dos muitos países cujos cidadãos estão sujeitos à proibição de viajarem para os Estados Unidos imposta pela administração Trump, para “proteção da nação contra terrorismo e outras ameaças à segurança nacional”, Omar Artan, ao ser um dos árbitros ‘convocados‘ para o torneio, acreditava ter o visto de trabalho necessário para contornar tais restrições. Foi isso mesmo que garantiu à AFP esta segunda-feira Ciise Aden Abshir, conselheiro sénior do Ministério da Juventude e Desporto da Somália, sublinhando que Omar Abdulkadir Artan “está entre os árbitros mais respeitados de África”.
O representante para o desporto do governo somali e antigo capitão da seleção somali não tem dúvidas de que “negar-lhe a entrada nos Estados Unidos e impedi-lo de apitar (...) não só o prejudica pessoalmente, como também mina o compromisso do futebol com a justiça, o mérito e o espírito do fair play”. E acrescentou que “a comunidade futebolística deve apoiá-lo neste momento difícil”.
Já esta terça-feira, o ministério de Juventude e Desporto da Somália emitiu um comunicado onde considerou “lamentável“ a proibição de entrada nos Estados Unidos imposta a Omar Abdulkadir Artan. Informa também que está a trabalhar em articulação com o ministério dos Negócios Estrangeiros para, “através da via diplomática“, falar com "as autoridades competentes dos Estados Unidos e da FIFA e obter uma explicação clara sobre o assunto“.
O comunicado vem ainda com declarações do próprio Omar Artan: “Apesar das circunstâncias, mantenho uma atitude positiva e estou centrado nos próximos desafios da minha carreira como árbitro“, afirma. O jovem árbitro desejou deseja “muito sucesso“ a todos os colegas que estarão no Mundial eagradeceu “à família do futebol“ pelas mensagens de apoio recebidas.
FIFA prometeu e não cumpriu
Foi mesmo a FIFA a dar conta do sucedido, ao confirmar, em comunicado, que o árbitro Omar Abdulkadir Artan não poderá treinar ou apitar jogos do Mundial, depois de lhe ser negada a entrada nos Estados Unidos.
A entidade que organiza o Campeonato do Mundo de futebol lembrou que“não interfere nos procedimentos de imigração do país anfitrião, incluindo a concessão de vistos“, e que foi informada pelas autoridades de que a situação de Omar Artan não seria alterada. Tal como em edições anteriores desta e outras competições da FIFA ”o governo do país anfitrião tem a palavra final sobre quem recebe um visto e é admitido no seu território", pode ler-se no comunicado.
Omar Artan apitou o jogo do 3º e 4º lugares do último Mundial de sub-20
Hector Vivas - FIFA
Certo é que a menos de um ano do início da prova, Gianni Infantino, presidente da entidade, afirmou que“adeptos de todo o mundo seriam bem-vindos” nos Estados Unidos para assistir ao Mundial de futebol. Na altura, Infantino garantiu estar a trabalhar com os governos de Estados Unidos, Canadá e México para assegurar que o processo de entrada nos países fosse simplificado. “Temos de trabalhar no assunto, mas é definitivamente um compromisso do Governo dos Estados Unidos garantir que o processo é facilitado para os fãs de todo o mundo“ , acrescentou sobre o principal país anfitrião, onde estão 11 dos 16 estádios onde se vai jogar a competição.
A dias do início da maior competição de futebol do mundo o impedimento de um árbitro do torneio entrar num dos países onde este vai ser jogado não abona a favor daquilo que pode vir acontecer durante a competição. Acumulam-se os casos em relação à gestão do torneio por parte da FIFA, como a polémica com a venda de bilhetes, que já levou os Estados de Nova Iorque e Nova Jérsia a processar o organismo.
Omar Artan, uma ascensão meteórica
Omar Artan nasceu na Somália, há 34 anos, durante a guerra civil no país. Cresceu num meio instável e sem grandes oportunidades para fazer uma vida no desporto. Começou a arbitrar nas ligas somalis e foi incluído na lista de árbitros internacionais da FIFA, em 2018, com apenas 26 anos, segundo reporta o jornal somali Hiiraan Online.
Foi na Taça das Nações Africanas de 2024, na Costa do Marfim, que se destacou ao apitar duas das partidas mais memoráveis da competição, as vitórias de Namibia e Mauritânia frente a Tunísia e Algéria, respetivamente. Em 2025 arbitrou a segunda-mão da final da Liga dos Campeões africana entre o Pyramids FC e o Mamelodi Sundowns e tornou-se o primeiro juiz somali a apitar uma final da competição. No final do último ano recebeu o prémio de Árbitro Africano do Ano, atribuído pela Confederação Africana de Futebol.
Sem uma solução à vista, a história de Omar Artan e o sonho somali de ter um representante em Mundiais devem mesmo ser adiados.
Texto escrito por Maria Beatriz Batalha e editado por Diogo Pombo.