Acabou o desencontro entre o FC Porto e Rodrigo Mora. Ele vai embora à procura do seu espacinho
Rodrigo Mora, de 19 anos, fez 80 jogos em duas épocas na equipa principal do FC Porto
NurPhoto
Olhando factualmente para a saída de Rodrigo Mora, trata-se de um golpe de asa por parte do FC Porto: vender metade do passe de um suplente por €25 milhões, podendo receber mais €25 milhões caso a AS Roma compre a outra metade, é um negócio de elogiar. Mas, depois, há o resto da história de como sai dos dragões um dos maiores talentos já formados no clube porque no molde que o devolveu às vitórias não se querer criar um encaixe para ele
A brevíssima história de Rodrigo Mora na equipa principal do FC Porto pode ser sujeita a um resumo prático, cingido aos factos: aos 19 anos, é um jogador de promessa abundante, dos maiores talentos esculpidos no Olival, que sai por ele, o treinador e o clube saberem não haver o espaço na equipa que o primeiro queria, o segundo não quer dar e o terceiro não se importa que não seja dado. Uma sintonia vinda da não sinfonia.
Não sai emprestado com um possível “v” de volta, como se chegou a noticiar que sim. A letra é de quem vai em definitivo para longe e, com lunetas puramente numéricas, não há como olhar para o negócio sem o gabar: são €25 milhões pagos já ao FC Porto por meio passe de um habitual suplente. Nestes termos a transação é inatacável, também irónica por o jogador ser fatiado em dois. Mora vai embora, mas permanece umbilical, parte dele fica: 50% dos seus direitos desportivos continuam com os dragões e quem comprou uma das suas metades poderá desembolsar mais €25 milhões para ter a outra.
Ficou preto no branco entre FC Porto e AS Roma que se o português for tudo aquilo que é unânime esperar que ele pode vir a ser, porque só assim se esbanja dinheiro, os italianos têm prioridade em adquiri-lo por inteiro nestas negociatas do futebol que tornam pessoas em mercadorias.
Até ver, não mais o FC Porto beneficiará de Rodrigo Mora no campo, a separação desportiva está feita, mas o clube salvaguardou-se para rechear a carteira com ele, queiram ou não os giollorossi esvaziar mais a sua com o português. Está lá escrito: “Caso a AS Roma não venha a adquirir a totalidade dos direitos económicos do atleta, o FC Porto terá a opção de vender a totalidade dos direitos económicos, podendo garantir um encaixe mínimo de €50 milhões, ou, se assim preferir, manter uma percentagem dos direitos económicos a definir, por forma a poder beneficiar de uma futura venda do jogador por um valor eventualmente superior.”
Rodrigo Mora a assinar o contrato com a AS Roma
Fabio Rossi
Indo avante estas premissas, será a terceira venda mais cara da história portista, igualando Luis Díaz e ficando aquém só de Otávio e Nico González, ambos saídos por €60 milhões. Ao contrário de Mora, os três eram titulares absolutos da equipa principal quando acenaram o seu adeus. Nenhum deles, porém, falava com sotaque nortenho ou chegara ao FC Porto com 9 anos, nem cresceu na formação, conhecendo as entranhas do clube, escalão a escalão, enquanto a barba se espreguiçou na cara.
O bramir de uma fação de adeptos pela sua saída vem do encanto de verem um miúdo da casa, ainda por cima um descaradamente talentoso, sair com 19 anos, depois de viver o seu último no clube com um papel secundário por não haver, na forma como o treinador gosta de jogar, uma posição onde encaixe. E a história de Rodrigo Mora e da sua brevidade no FC Porto também assenta nestes desencontros.
Tinha ainda 17, era um adolescente na flor da ingenuidade, quando Martín Anselmi, técnico sem mão na estabilidade, chegado a um clube em estado de ebulição, tentou um resgate com a promessa de Mora. Pequenote de tamanho, vasto em truques, sobressaiu numa equipa instável, de repelões, onde os seus rasgos se notaram como o feixe de luz de um farol a surgir no bréu: marcou golos, deu assistências, sobretudo foi autor de lances geniais, ele sozinho a irromper do marasmo em lances individuais. O FC Porto desiludia, mas da carência aparecia um projeto de jogador brutal.
Curioso se trata que Rodrigo Mora, portuense e portista, raiado para o futebol de graúdos quando o FC Porto moribundo jogava, carente de líderes através do talento, logo permeável a admirar um rapaz irrompido da sua formação, vá para a AS Roma.
Rodrigo Mora já em Roma, a posar com uma fotografia de Francesco Totti, ídolo maior do clube italiano
Fabio Rossi
O guedelhudo perfilado para ser referência nos dragões irá para um clube que se farta de estimar a sua produção própria. Roma é lugar de idolatrias, de pessoas-símbolo. Houve e há veneração a Francesco Totti, que jamais de lá saiu quando jogava, existe um culto a Daniele de Rossi, o capitano futuro de carreira feita por lá à espera da sua vez; até se mantém o carinho por Lorenzo Pellegrini, há anos no vai-não-vai da equipa grená como o coração e amarela como o sol sem despertar os amores dos predecessores, mas nasceu lá, é da casa, romano e romanista. Como Niccolò Pisilli, jovem a quem se gaba o que pode vir a ser.
É a este caldeirão de emoção que chega o português, ciente de tal, à força, quando recebido foi por uma pequena multidão de adeptos à saída do aeroporto e ele, algo encavacado, oscilou entre acenar e juntar as mãos em agradecimento. A loucura de quem vibra com a AS Roma começa logo antes de os seus vestirem a camisola.
Rodrigo Mora vestiu 80 vezes a do FC Porto, 43 como titular, a maior parte delas (27) na sua primeira temporada, na equipa que ainda era um cata-vento, órfã de uma linha-mestra e presa fácil para ser arrebatada por um jogador cuja magia se sobrepusesse ao caos. Quando chegou a organização de Francesco Farioli, transparecida na rigídez da sua maneira de jogar e de ordenar a equipa, extinguiu-se o espaço para alguém existir atrás do avançado ou de um extremo destro partir da esquerda para explorar zonas mais centrais do ataque.
Os urros de quem sentia o coração a doer pelo talento da casa ser preterido amainaram, aos poucos, pelos que respondiam com um dos mantras do futebol: no campo, o FC Porto ganhava. E vencendo, a forma que dá vitórias está acima de qualquer dor por este ou aqueloutro não jogar. Os dragões foram campeões com o método do treinador italiano, imutável da época anterior para esta e com uma direção desportiva que o respalda ao contratar, com pinça e bisturi, futebolistas de silhueta exata para encaixarem no molde de Farioli para cada posição. Chegue o dia em que o treinador se for, sobrarão jogadores à sua imagem.
Rodrigo Mora a festejar um golo pelo FC Porto: o atacante marcou 16 em duas épocas na equipa principal
Diogo Cardoso
Rodrigo Mora não era propriamente um jogador à FC Porto, cuja história e alma são sustentadas por glórias de dentes cerrados, raça nas chuteiras e dar tudo com garras afiadas. Era do Porto e do FC Porto, tinha e continuará a ter ambos entranhados, mas, como qualquer futebolista, queria jogar. E para o fazer, além da pitada de sorte na alergia às lesões, também da fortuna de estar no lugar certo à hora devida, necessita de um treinador que queira mais usufruir das suas qualidades do que fugir dos seus defeitos.
Não quis Farioli adequar um espacinho no seu modelo para assentar o português a titular, a equipa continua a ganhar e se no próximo verão tiver ganhando mais poucos evocarão a ausência de Mora, assim é a vida. Veremos se Gian Piero Gasperini, um dos treinadores mais responsáveis pelo regresso das marcações individuais, pelo ressuscitamento de ordenar um jogador a perseguir o adversário para todo o lado em vez de salvaguardar o espaço em relação à bola, acomodará na equipa alguém que, como Paulo Dybala, craque da AS Roma, é das melhores armas que se pode ter para contrariar esta tendência.
Porque se o jogo continuar a caminhar nessa direção, mais valiosos são os os jogadores técnicos, os criativos, os que florescem no um para um onde enganam com a bola no pé para se livrarem de quem os marque - e não é preciso ser-se grande para enganar, o futebol está careca de provar isso.
Há coisa de dois anos, quando Rodrigo Mora arcava com o FC Porto nos seus pés, disse um treinador que o viu jogar na formação bem antes da sua erupção entre adultos: “Assim que o vi dar dois toques na bola, Jesus.” Depois constatou como ele era “muito criativo, muito ágil, lê muito bem o jogo, sabe gerir os tempos” e defendeu que “tudo o que ele dá ofensivamente compensa o que possa não dar do ponto de vista defensivo“. Aos 19 anos, a sua história nos dragões acabou por não haver, pelos vistos, quem concorde com essa ideia.