Querem ganhar a Champions? Tenham continuidade e seleção criteriosa: a receita intemporal do sucesso
Luis Enrique tenta que o PSG seja apenas a terceira equipa na história (após o Ajax e o Bayern de Munique) a conquistar três edições seguidas da Liga dos Campeões
Aurelien Meunier
Encontramos padrões surpreendentemente semelhantes no PSG, no Arsenal e no Barcelona, talvez as equipas mais fortes da Liga dos Campeões esta temporada. Em todos existe um núcleo de seis a oito jogadores que define a identidade da equipa e constitui a base do onze titular nos jogos decisivos. No fundo, fazem bem as coisas simples, como analisa Philipp Lahm, ao aproveitar para falar de um treinador que tenta fazer o mesmo na segunda divisão alemã: Miroslav Klose
É com os melhores que mais se aprende. O PSG, vencedor da Liga dos Campeões, pode alcançar um histórico hat-trick esta época. Desde que a competição foi criada, em 1992, seria apenas o segundo clube a conseguir tal feito depois do Real Madrid, que conquistou três títulos consecutivos entre 2016 e 2018.
Vejo paralelismos evidentes entre as duas equipas. No Real Madrid, os mesmos nove jogadores foram titulares nas três finais que venceu. Da mesma forma, o PSG conquistou as finais de 2025 e 2026 com onzes praticamente idênticos. A única alteração surgiu na defesa do título, em maio deste ano, em Budapeste, quando Gianluigi Donnarumma já não ocupava a baliza depois de Luis Enrique ter prescindido do guarda-redes italiano, campeão europeu.
Na sua essência, o futebol não mudou. Mesmo nas grandes equipas que dominaram a antecessora da Liga dos Campeões, a Taça dos Clubes Campeões Europeus — o Ajax, entre 1971 e 1973, e o Bayern, entre 1974 e 1976 —, sete jogadores foram titulares nas três finais. Não fossem as lesões, esse número teria sido ainda maior. Continuidade e seleção criteriosa: eis a receita intemporal do sucesso.
Os melhores treinadores da atualidade interiorizaram esta ideia, como demonstram os números. Encontramos padrões surpreendentemente semelhantes no PSG, no Arsenal e no Barcelona. Em todos eles, existe um núcleo de seis a oito jogadores que define a identidade da equipa e constitui a base do onze titular nos jogos decisivos. Num segundo nível, surgem os restantes três a cinco titulares habituais, pressionados por quatro a seis jogadores suplentes, que vão rodando. Assim, a espinha dorsal de um plantel é composta por cerca de dezasseis jogadores, ficando os restantes responsáveis por assegurar soluções adicionais.
O tempo total de jogo — aproximadamente 5000 minutos por época — distribui-se da seguinte forma:
· Jogadores nucleares: entre 70% e 85% dos minutos disponíveis, cada um;
· Restantes titulares habituais: entre 50% e 60%, cada um;
· Jogadores de rotação: entre 40% e 45%, cada um;
· Jogadores menos utilizados: repartem entre si os minutos restantes, até um máximo de 20%.
A análise comparativa também demonstra que não existe alternativa ao sistema de referência: a defesa orientada para a bola. Os treinadores mantêm-se igualmente fiéis aos seus esquemas táticos, geralmente o 4-3-3 ou o 4-2-3-1. As substituições são feitas jogador por jogador, respeitando as mesmas posições, de modo a preservar a estrutura da equipa.
Outra tendência encorajadora é o facto de os três clubes reservarem parte dos lugares destinados aos jogadores menos utilizados para, pelo menos, três jovens talentos, frequentemente formados nas respetivas academias. Para testar o seu potencial ao mais alto nível, são-lhes concedidos minutos de jogo com regularidade. No Arsenal, Myles Lewis-Skelly, de 20 anos, parece estar a afirmar-se de forma permanente.
Estes princípios são aplicados de forma consistente, ao longo de vários anos e em todos os escalões de formação, pelos atuais campeões de França, Inglaterra e Espanha. Esta abordagem também pode ser observada em clubes mais pequenos e, de forma semelhante, em seleções como Marrocos. Representa um modelo universal de sucesso no futebol, fortemente influenciado pela filosofia dos treinadores espanhóis, liderada por Pep Guardiola, Mikel Arteta e Luis Enrique.
É na Alemanha que encontramos os maiores desvios em relação a este modelo. Vejo três sinais de que o futebol alemão está a seguir um caminho próprio: em primeiro lugar, a marcação homem a homem está estranhamente a ressurgir. Em segundo, muitos clubes da Bundesliga oferecem menos oportunidades aos talentos formados internamente, apesar de, paradoxalmente, manterem academias de formação dispendiosas. Em terceiro, há um número muito elevado de treinadores sem experiência como futebolistas profissionais.
Estes treinadores alteram frequentemente os sistemas e os esquemas táticos, tanto antes como durante os jogos. Por vezes, colocam jogadores em posições que não são as suas. O exemplo mais evidente foi Julian Nagelsmann, que, enquanto selecionador nacional, prejudicou o desenvolvimento da equipa com mudanças fundamentais e constantes.
Miroslav Klose é treinador do Nuremberga desde a época 2024/25
Leonhard Simon
Contudo há exceções. Uma delas é Miroslav Klose. Partilhámos o relvado em mais de 80 jogos pela seleção alemã. Foi um companheiro extraordinário, um verdadeiro jogador de equipa, que compreendia perfeitamente o seu valor e o seu papel no coletivo. É campeão do mundo e foi o melhor marcador da história dos Mundiais entre 2014 e o verão passado. Naturalmente, alguém com este percurso possui um profundo conhecimento da importância das hierarquias, da disciplina e da compreensão tática necessária para fazer funcionar uma equipa.
‘Miro’, agora na terceira época ao serviço do Nuremberga, atualmente num lugar de promoção, tem o ADN de um grande treinador. Reconheço no seu trabalho os métodos que conduzem ao sucesso. O que o distingue de muitos outros é o facto de não complicar desnecessariamente as coisas. Não anda constantemente a mexer no sistema de jogo nem no esquema tático de base. Identifica quem corresponde e quem não corresponde às exigências do clube, raramente alterando o onze titular.
Através desta repetição e continuidade, ‘Miro’ encontrou um núcleo de jogadores que garante estabilidade ao Nuremberga na segunda divisão alemã. O avançado Mohamed Zoma, que agora representa a seleção italiana, e o médio ofensivo Julian Justvan, acumulam cerca de 90% dos minutos de jogo, enquanto o médio-centro Finn Ole Becker somava aproximadamente 80% antes de uma lesão recente. O médio defensivo Adam Markhiev, internacional finlandês, está praticamente sempre em campo quando está disponível. ‘Miro’ teve de reconstruir a defesa depois das transferências de verão, mas parece ter encontrado rapidamente o seu quarteto defensivo.
Além disso, dá oportunidades aos jovens, mantendo a confiança nos jogadores formados no clube, como Tim Janisch e Eric Porstner, mesmo depois de cometerem erros. Desde o início do ano, o jovem avançado Piet Scobel tem jogado todas as semanas e não demorou a começar a marcar golos. A compreensão que Miro tem da identidade do clube também ficou evidente na decisão de nomear capitão o guarda-redes Jan Reichert, natural da região.
Finalmente, o Nuremberga tem no comando técnico alguém capaz de criar condições para construir um projeto sólido e duradouro. Graças a ‘Miro‘, o clube, que permanece na segunda divisão desde 2014, com exceção de uma única temporada, está novamente a tirar partido do potencial da região onde se insere. O Nuremberga tem uma história grandiosa: apenas o Bayern conquistou mais títulos de campeão alemão. A lenda do clube, Max Morlock, marcou o primeiro golo da Alemanha numa final de um Campeonato do Mundo, em 1954.
O clube possui também um enorme potencial. Beneficia de uma vasta área de influência, praticamente sem concorrência local. A grande região metropolitana de Nuremberga, cidade com 550 mil habitantes, tem uma economia robusta, e o clube dispõe de um estádio com capacidade para 50 mil espetadores, estando já prevista a sua modernização.
Acima de tudo, o clube está profundamente enraizado na comunidade, apoiado por inúmeros adeptos de uma lealdade inabalável. Continua a ser um clube histórico, que pertence aos seus associados. Para os locais, o “Der Club”, como é conhecido, com artigo definido, significa verdadeiramente tudo.