Portugal cansou-se dessa coisa chata de não fazer história e, pela primeira vez, bateu a Dinamarca, a melhor equipa de andebol do mundo
Sebastian Elias Uth
A vitória por 31-29 frente à Dinamarca tem efeitos práticos imediatos: Portugal segue para a main round do Europeu de andebol. E efeitos históricos, porque nunca a seleção nacional tinha batido a grande potência da modalidade, a equipa que é tetracampeã mundial e campeã olímpica em título. Porque Portugal também é uma potência e, agora sim, isto pode ser dito, pode ganhar a qualquer um
Ver a Dinamarca, tetracampeã mundial, campeã olímpica em título, a marcar individualmente Francisco e Martim Costa nos últimos minutos de jogo poderá contar uma parte relevante, simbolicamente falando, do feito absolutamente histórico que a seleção nacional de andebol arrancou esta noite nas barbas dos adeptos adversários, em casa da, convencionou-se dizer - e por alguma razão foi -, melhor equipa do mundo.
Não valeu muito. Nesse momento de tensão, em que a primeira vitória de Portugal frente à Dinamarca estava à distância de sete cabeças frias, a equipa de Paulo Jorge Pereira não só as teve como ainda lhe juntou a inteligência para dirigir a bola para outras linhas, outros protagonistas que não os manos Costa. Uma equipa também é isto.
António Areia, naquela ponta, esquecido pela estratégia dinamarquesa, foi então decisivo, mas, esta terça-feira, em Herning, todos foram. Agressivo na defesa, paciente no ataque, não perdendo nunca a mão na narrativa, nem quando a Dinamarca acelerou no início da 2ª parte, Portugal fez-se grande, tão grande quanto os maiores, aqueles que praticamente inventaram o jogo, pelo menos como o conhecemos hoje. Os rostos fechados após o inesperado empate com a Macedónia do Norte de há dois dias transformaram-se em combustível contra uma equipa que não perdia um jogo há dois anos.
Bo Amstrup
A vitória, que ficará numa qualquer prateleira dourada do desporto português, tem efeitos práticos para o futuro próximo: ao contrário do que qualquer casa de apostas mais convencional se atreveria a prever, Portugal passa à main round do Europeu com 2 pontos, e não com os zero, bola, que tanta gente já dava como certos. No decorrer do encontro, afastaram-se as contas que pareciam, no início, e historiacamente, mais avisadas. O “por quantos podem perder para passar?” tornou-se o “por quantos podem eles ganhar?”. Depois do 4º lugar no Mundial de há um ano, 12 meses depois de perder por 13 golos frente a este mesmo adversário nas meias-finais mundialistas, a seleção nacional de andebol cansou-se dessa coisa chata de não estar sempre no topo.
Num jogo nem sempre escorreito, por vezes até a namoriscar o caos, sem nunca lá colocar o pé, Portugal pareceu, em certos momentos, provocar pequenos ataques de nervos aos quase sempre impassíveis dinamarqueses. Fisicamente no ponto, a equipa de Paulo Jorge Pereira nunca titubeou neste particular, como havia acontecido noutras ocasiões contra a Dinamarca, quando a resistência, invariavelmente, quebrava. Mathias Gidsel e Simon Pytlick, as mais cintilantes das estrelas nórdicas, foram sendo sempre bem manietadas e poucas vezes conseguiram ligar coletivamente. Por conta própria, tiveram jogos interessantes, principalmente Gidsel, um mago com a bola na mão e nas suas mudanças de trajetória, mas o jogo habitualmente fluído da equipa, tão veloz quanto límpido, foi quase sempre atrapalhado pela agressividade defensiva de Portugal. Só assim, permanentemente de faca entre os dentes, era possível bater tão poderoso rival e Portugal obrigou a Dinamarca a jogar para as suas estrelas e não para a sua equipa.
Os campeões mundiais foram assim somando incaracterísticos erros técnicos, muitos deles forçados, que a seleção nacional aproveitou para transformar em pequenas vantagens, que parecem sempre gigantes quando do outro lado está a maior potência do andebol. Ao intervalo, Portugal vencia por 12-11, pela primeira vez terminava uma parte em vantagem contra a Dinamarca. A história começava a ser feita, mas os jogadores portugueses não ficariam por aí.
Sebastian Elias Uth
Foi essencial aguentar o ímpeto reformador de jogo com que a Dinamarca regressou dos balneários, mais acutilante no ataque, a conseguir uma primeira vantagem de dois golos logo nos primeiros minutos. Pedro Tonicher, jovem guarda-redes chamado a este Europeu depois da lesão de Diogo Rêma, fechou então o ferrolho da baliza portuguesa, atirando-se com coragem a remates aparentemente indefensáveis de Gidsel. Os azulejos das camisolas não estavam ali para serem rachados. Do outro lado, Portugal recuperava, serenamente. A meio da 2ª parte, a seleção nacional voltou para a frente do marcador. Martim Costa, poupado na 1ª parte, apareceria como garante da tranquilidade no ataque, de braços bem abertos para desafiar a altura das torres dinamarquesas. Foi tremendamente eficaz a cada cavalgada em direção à baliza de Nielsen. Terminaria com 9 golos. Os mesmos que o mais novo dos Costa, Francisco.
Os últimos minutos foram o derradeiro desafio emocional para a seleção nacional, que o ultrapassou com distinção. Ao aproximar da Dinamarca, Portugal respondeu sempre com frieza na frente, com desenhos bem gizados para atrapalhar a defesa adversária. E a mão quente dos Costa. A sete minutos do fim, a vantagem era de três golos, ainda chegou a ser de apenas um, mas o descontrolo nunca foi uma opção. Comportantando-se como aquilo que é, uma das melhores equipas de andebol do planeta, Portugal manteve o adversário sempre a uma conveniente distância de segurança, com a energia e os dentes cerrados de quem sabia que podia fazer algo inédito. Em sete jogos oficiais, nunca Portugal tinha batido a Dinamarca. Os livros terão agora de ser atualizados.
Antes de partir para a Dinamarca, numa reunião a que a Tribuna Expresso pôde assistir, Paulo Jorge Pereira disse a este extraordinário grupo de jogadores a frase mágica: “Algum dia eles vão ter de perder”. Chegou o dia.