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“O Islão não permite que sejam expostas”. Talibãs confirmam: mulheres não vão poder praticar desporto no Afeganistão

Kimia Yousofi competiu pelo Afeganistão nos Jogos Olímpicos do Japão, na prova dos 100 metros
Kimia Yousofi competiu pelo Afeganistão nos Jogos Olímpicos do Japão, na prova dos 100 metros
JEWEL SAMAD/Getty

Ahmadullah Wasiq é membro da comissão da cultura do recém-nomeado novo governo dos talibãs do Afeganistão e disse que "o Islão e o Emirado Islâmico não autorizam as mulheres a praticar qualquer tipo de desporto em que o seu corpo seja exposto"

A queda do Afeganistão para as mãos dos talibãs, há mais de duas semanas, estalou a urgência de retirar do país as mulheres atletas, as mulheres que vivem em terra onde quererem praticar desporto é ousadia e não naturalidade. Perante a iminente sombra das restrições do fundamentalismo islâmico advogado pelos talibãs, sucederam-se os relatos de sobrevivência, sobretudo, de mulheres futebolistas.

Foram dezenas a terem de abandonar as suas residências, a esconderem-se em casas de familiares ou amigos, a enclausurarem-se longe das ruas e a enviarem pedidos de socorro por WhatsApp a afegãs que já se encontravam fora do país. Aos poucos, foi-se noticiando a fuga de muitas delas.

A 24 de agosto, Khalida Popal, fundadora da seleção de futebol feminino do Afeganistão que vive na Dinamarca, confirmou à Tribuna Expresso que 77 mulheres "e as respetivas famílias" tinham conseguido sair do país. "Algumas das nossas jogadoras foram agredidas pelos talibãs durante o seu percurso", lamentou, numa troca de mensagens. Na primeira semana de setembro, soube-se que várias jogadoras adolescentes também conseguiram chegar à Austrália.

Um dos motivos que as terão empurrado para a fuga foi confirmado na terça-feira.

Os talibãs revelaram a composição do governo interino do Afeganistão. Nenhuma mulher foi incluída e, para o cargo de ministro do Interior, escolheram Sirajuddin Haqqani, líder de uma rede de nome homónimo que tem relações com a Al-Qaeda e que o FBI americano lista como organização terrorista. Outro dos elementos deste novo executivo talibã é Ahmadullah Wasiq.

O nomeado como vice-presidente da comissão de cultura falou à "SBS", uma cadeia de televisão australiana. O assunto era um jogo entre as seleções masculinas de críquete de ambos os países, agendado para o final de novembro, mas Ahmadullah Wasiq acabou por se pronunciar sobre o desporto feminino no Afeganistão.

Ou a sua inexistência daqui para a frente.

O novo membro do governo talibã, referindo-se ao exemplo do críquete, defendeu que as mulheres "não serão autorizadas a jogar porque não é necessário que joguem críquete". Disse-o apenas assim. "Podem lidar com uma situação em que a sua cara ou corpo não vão estar cobertos. O Islão não autoriza a que as mulheres sejam vistas assim", explicou, à televisão australiana.

Ahmadullah Wasiq esclareceu que o Emirado Islâmico — denominação que os talibãs conferiram ao Afeganistão — "não autoriza as mulheres a jogarem críquete ou qualquer tipo de desporto no qual sejam expostas". O membro da comissão cultural argumentou que hoje se vive "a era dos media", na qual haverá "fotos e vídeos e pessoas a assistirem", usando-a como uma das razões para considerar como "óbvio" que as mulheres "não seguirão o dress code, e que o Islão não o permite".

Há cerca de uma semana, a "BBC" já dera conta de que várias jogadoras da seleção de críquete do Afeganistão também estavam a viver escondidas em Cabul, capital do país, desde a tomada dos talibãs. Vindas estas declarações de um elemento do novo executivo afegão, a reclusão das mulheres desportistas do país poderá apenas estar a começar.

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