As imagens da destruição causada pela tempestade Kristin no Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, onde o União adiou o próximo jogo
Estádio Municipal de Leiria
Nuno Fox
O rasto de destruição deixado pela depressão Kristin durante a madrugada desta quarta-feira varreu o distrito de Leiria e um dos lugares que o sentiu foi o Estádio Dr. Magalhães Pessoa, recinto gerido pela autarquia e utilizado pelo União de Leiria. O clube da II Liga do futebol nacional cancelou os treinos, pediu o adiamento do jogo que ia ter domingo, em casa, e reforçou que a prioridade é a segurança de todos
Parece que ainda ontem foi que o quadricular de cores que cobre o exterior do Estádio Dr. Magalhães Pessoa se aperaltou para receber a final four da Taça da Liga, na segunda semana de janeiro. As bancadas encheram-se, o recinto foi decorado a preceito, houve a bonança de um evento para rechear o lugar. Depois veio o ciclone.
De seu nome Kristin e sucessor das depressões Ingrid e Joseph, nomes das maiores intémperies registadas este ano, o temporal que assolou com mais força os distritos de Aveiro e Leiria causou danos em várias infraestruturas, uma delas o estádio construído para o Euro 2004: parte da estrutura que fica atrás de uma das balizas ruiu e as chapas da cobertura foram arrancadas pelo vento.
Na designação cientifíca, a passagem da “ciclogénese explosiva” fez Leiria acordar com “um rasto de destruição sem precedentes, ao qual não escapou o estádio, o centro de treinos da Bidoeira e a nossa academia”, lamentou o União de Leiria, em comunicado, a meio da tarde de quarta-feira. “Todos os treinos estão cancelados”, informou o clube: “Apelamos a todos os atletas, equipas técnicas, staff, unionistas e leirienses que se mantenham em casa, em segurança.”
Estádio Municipal de Leiria
Nuno Fox
Estádio Municipal de Leiria
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A Tribuna Expresso questionou o clube e a autarquia acerca da dimensão dos danos identificados no recinto, mas não obteve resposta até ao momento - o ténue estado das redes de comunicação na região, onde têm sido relatadas falhas constantes no serviço das operadoras, por certo não ajudam.
A depressão Kristin causou quatro mortes em Portugal. Até às 14 horas do dia vindo da madrugada que varreu o país com rajadas de vento a roçarem os 180 km/h (a mais forte foi detetada na Base Aérea de Monte Real) tinham sido registadas mais de quatro mil ocorrências pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. Houve árvores arrancadas pela raíz e a caírem sobre carros e linhas de comboio, veículos virados de rodas para o ar, cartazes tombados sobre passeios.
Além do Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, ali perto, na Marinha Grande, desabaram o teto e as paredes do pavilhão do Marinhense, que tem a sua equipa de basquetebol masculina na terceira divisão nacional. Em Lisboa, também o estádio do Oriental, cuja equipa compete na Série D do Campeonato de Portugal (quarto escalão do futebol português) sofreu danos.
Entre o trauma e as dívidas
Incluindo as obras envolventes para o estacionamento e os acessos, o projeto de remodelação do Estádio Dr. Magalhães Pessoa para o Campeonato de Europa de há 22 anos custou cerca de €83 milhões. O investimento deixou os leirienses “traumatizados” com as “consequências geracionais nos investimentos do município”, defendeu, em 2024, Gonçalo Lopes, o presidente socialista da Câmara Municipal local entretanto reeleito o ano passado. Em entrevista à Lusa, indicou que faltavam €10 milhões por pagar até 2028, além dos custos de manutenção “na ordem dos 300 mil euros” anuais suportados pela autarquia.
A proprietária do recinto aluga hoje o recinto ao União de Leiria, atual sexto classificado da II Liga que foi necessariamente afetado pelas sequelas do ciclone Ingrid: o próximo jogo do clube, agendado para domingo, 1 de fevereiro, tinha o Dr. Magalhães Pessoa como palco para o encontro frente ao Paços de Ferreira e foi adiado. O clube agradeceu ao adversário “pela compreensão e a solidariedade demonstradas”. É provável que tenha de procurar outro abrigo, este provisório, não em definitivo como também tem ideia de fazer.
Nélio Lucas, líder da SAD do União de Leiria - que controla a equipa de futebol profissional -, revelou, em novembro último, ter “um plano arrojado” para a construção de um novo estádio com lotação para entre 12 e 15 mil espetadores, menos do que os 23.888 de capacidade oficial do recinto municipal. Tal é uma “dimensão desadequada para a realidade do clube e da cidade”, concluiu o dirigente em declarações ao Canal 11 nas quais cortejou o conceito do projeto leiriense ter potencial para ser o “quarto grande” em Portugal.
Também garantiu que o novo estádio, a avançar, terá investimento próprio e sem dinheiros camarários. Um passo para o União de Leiria cortar a ligação à autarquia, faltará ainda um outro: em junho, a Câmara Municipal aprovou um novo plano para a SAD pagar uma dívida de quase 236 mil euros, ligada à utilização do Dr. Magalhães Pessoa agora desfigurado pelo temporal.