Bailados à chuva

No terródromo de Fronteira há corridas à chuva, como a deste ano. E corridas secas no meio do pó. Contas feitas, tão difíceis são umas como as outras

No terródromo de Fronteira há corridas à chuva, como a deste ano. E corridas secas no meio do pó. Contas feitas, tão difíceis são umas como as outras
Jornalista
Ao longo de 27 edições das BP Ultimate 24 Horas Vila de Fronteira já houve todo o tipo de condições meteorológicas: chuva e frio, frio e nevoeiro, tempo seco e pó. Cada uma tem prós e contras porque, quanto mais seco fica o piso, mais demolidor se pode tornar. Se chover um bocadinho, amacia a pista. Porém, se for demais, transforma o circuito num lamaçal quase contínuo, pontuado por zonas secas crivadas de buracos. Foi assim há dois anos (2023) e esta edição talvez vá pelo mesmo caminho se a chuva, não muito intensa, mas persistente, continuar.
Houve anos de dilúvios verdadeiramente históricos. Em 2002 choveu bastante, mas como estávamos de UMM Troféu nunca ficámos em lamaçal nenhum. 2016 foi outro ano de muita chuva e ainda mais lama. O caso extremo ocorreu em 2006. Choveu tanto que as quatro ribeiras ficaram intransponíveis. Utilizavam-se estreitas pontes de betão construídas meses antes pela Câmara de Fronteira. Contudo, já a altas horas da noite, as saídas das pontes começaram a ficar de tal forma lavradas que os concorrentes atascavam. Arranjaram-se alternativas que não duravam muito até ficarem impraticáveis. E, por fim, decidiu-se que mais valia afrontar a força da corrente e passar a vau. Aquilo que normalmente é uma zona rápida a subir depois da segunda linha de água (o chamado Burrinho) transformou-se numa duna de lama trilhada por fundos regos longitudinais. Umas vezes passava-se, outras era preciso ser puxado por uma escavadora. Foi TT a sério…
Em 2014 o problema não foi a chuva, mas o nevoeiro. Alta noite, não se via rigorosamente nada, por muitas luzes que houvesse no carro. O pior ponto era a travessia do Porto do Cego, onde a pista cruza a Ribeira Grande de Fronteira e se situa a principal zona espectáculo. Durante algumas voltas, a única forma de ali passar era fazer como os marinheiros na aproximação aos portos: havia um jipe da organização em cada extremo do vau (afastados cerca de 150 m) com os rotativos acesos e apontava-se a direito de um para o outro, navegando com alguma estimativa e muita fé pelo meio das águas gélidas…
O extremo oposto foi em 2013. Não só não choveu, como toda a corrida foi disputada debaixo de uma poeirada infernal. As primeiras voltas foram demolidoras porque não se via rigorosamente nada. Acabei por dar um toque num adversário que tinha parado na pista por não ver o caminho. Saí do percalço apenas com um farolim partido. Lá mais para a frente houve uma verdadeira hecatombe na cabeça da corrida: meia dúzia de carros embrulhados uns nos outros, obrigando a um desvio a baixa velocidade junto à zona do acidente durante várias voltas e a longas horas de bricolage nas boxes para endireitar as latas amolgadas.
Nas primeiras edições (1998 e 1989) não havia pontes sobre as ribeiras (para usar em casos extremos como em 2006) e o piso degradava-se muito com o passar das horas. Com o passar dos anos e sucessivos investimentos da Câmara de Fronteira, o circuito foi ficando mais resistente às intempéries. Ainda assim, os pilotos mais antigos sabem, graças a “um saber de experiências feito”, como diria Camões, os locais onde, com o passar das horas começam a nascer pedregulhos no piso (o fenómeno jocosamente designado como zona das pedras parideiras) ou se abrem regos dignos das trincheiras da Grande Guerra.
A noite continua a ser dura, ainda que menos tenebrosa devido ao advento das barras de luzes led. Abençoado seja o engenheiro japonês Isamu Akasaki, Nobel da Física em 2014, que desenvolveu a tecnologia dos díodos emissores de luz, conhecidos pela sigla led (de light emitting diode). Gastam menos corrente, puxam menos pelo alternador e pela bateria e iluminam mil vezes mais que os projectores tradicionais. Ainda assim, que grande alegria é a nossa quando, ao terceiro cantar do galo, as trevas se começam a dissipar e, ao volante, começamos a ver melhor o serviço.
Tudo isto que aqui partilho com o estimado leitor são recordações de 26 corridas em Fronteira que me foram passando pela cabeça, enquanto, com a frieza de um ninja num filme de série B, aguardo na grelha de partida que a bendita bandeira verde desça e mais uma aventura comece. Mas disso vos falarei na próxima crónica.
Na edição de há dois anos o meu fiel Nissan Patrol GR com que fiz tantas provas entregou a alma ao criador depois de, uma vez mais, ter cortado a meta. Como os guerreiros lendários, ganhou um lugar no Valhalla dos carros de corrida, ao lado dos imaginários Vaillante do Michel Vaillant ou dos mais palpáveis Vanwall de Stirling Moss ou dos UMM do Dakar de José Megre, Pedro Vilas Boas ou Pedro Cortez.
Como os antigos cônsules que a república romana ia buscar à reforma quando os bárbaros se tornavam ameaçadores, acabei recrutado para a equipa dos irmãos Azevedo (Manuel e Fernando), Luis Alemão e Mário Alves, tudo gente com muito TT nas pernas e um amor partilhado pelos antigos UMM. E é justamente num protótipo inspirado no UMM Alter que corremos o ano passado e voltamos às lides este ano. É mais potente, mais cómodo e infinitamente mais rápido, pelo menos pelos meus padrões. E cortesia do Luis Alemão nos treinos, que voou baixo, ficámos com o 36ª lugar da grelha de partida (em 76). Vou largar da 12ª fila da grelha, ou seja bastante mais à frente que o habitual. A ver vamos…
Nos cinco primeiros da grelha há duas equipas portuguesas, uma luso-francesa (o clã Andrade) e duas francesas. A volta mais rápida (10’ 15’’) foi para o SSV Can-Am de Luis Cidade, João Monteiro, Mário Franco e Pedro Santinho Mendes. No top ten há cinco “aranhiços”. Será desta que, depois das vitórias em provas em linha, um SSV ganha em Fronteira?
A resposta será dada domingo às 15 horas, quando a bandeira de xadrez descer.
Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: rcardoso.expresso@gmail.com
