Automobilismo

Largada de sonho, volta de pesadelo

O UMM renovado nº 69, quando as mudanças ainda entravam
O UMM renovado nº 69, quando as mudanças ainda entravam
Paulo Maria/ACP

Corrida sem percalços não é corrida, é uma sensaboria. O que torna esta prova de resistência única são as mil e uma formas de superar a adversidade, tanto na pista como nas boxes

Largada de sonho, volta de pesadelo

Rui Cardoso

Jornalista

Nunca tinha largado tão à frente na grelha de partida. Foi uma emoção e acabou por não correr nada mal. O pior é que o azar bateu à porta e, antes do final da primeira volta, a caixa de velocidades foi acometida de jipite aguda e as mudanças deixaram de entrar. E lá veio o UMM Amarelinho que se estava a portar tão bem de reboque para a box.

Depois, aconteceu o que só pode acontecer em Fronteira. Duas horas depois, o carro já estava a rodar. Um milagre da nossa equipa de assistência, feito enquanto o diabo – inimigo confesso das artes milagrosas – esfrega um olho. Algo só ao alcance da família Alves, o pai Vitor e os filhos Tiago e Xavier, reforçados por um mago da mecânica, o meu querido Armando Coelho que, de fato de macaco ou capacete e luvas me acompanhou nestas 27 edições da BP Ultimate 24 Horas de Fronteira.

O espectáculo da largada: uma corrida de automóveis com o ambiente de um jogo de futebol…
Paulo Maria/ACP

Mistérios da mecânica! Alguém entendido nestas coisas me explique como uma caixa de velocidades de competição, totalmente refeita para a prova, não aguenta meia-dúzia de voltas nos treinos mais a largada. O remédio foi montar uma caixa de origem e passar a andar mais devagar para o excesso de binário e de cavalos não dar cabo dela.

Regresso ao passado

E foi assim que, envolto na escuridão das seis da tarde, voltei à pista. Adeus ribeiras feitas de terceira a fundo e subidas devoradas num ápice. Retomei os meus reflexos de condução do Nissan Patrol GR e eis-me de regresso ao passado, muito embora com uma diferença importante: a suspensão é um sonho e absorve buracos, chapa ondulada e regueiras. As luzes também cumprem com brilhantismo, passe o pleonasmo. E assim iniciámos uma cavalgada heróica que não se via desde que John Ford filmava cowboyadas.

De zero voltas cumpridas até às seis da tarde para seis às oito da noite, quando passei o volante ao Fernando Azevedo. E às 22h30, hora a que escrevo esta crónica já tínhamos 19, mais de metade das 34 voltas do primeiro classificado, ou seja se a corrida acabasse agora, estaríamos classificados, ainda que numa posição modesta (66ª posição em 81 concorrentes).

Portugueses em evidência: o Can-Am nº 58 da South Racing dominando a corrida
Paulo Maria/ACP

Na cabeça da corrida, supremacia portuguesa. A equipa 58 da South Racing Can-Am (Luis Cidade, João Monteiro, Mário Franco e Pedro Santinho Mendes) consolidando a liderança com duas voltas de avanço sobre os luso-franceses de Mário Andrade (equipa 22 com Mário Andrade, Cedric Duple, Yan Morize e Nicolas Cassiede). Mas um despiste às 22h15 obrigou o nº 22 a vir a reboque para a box onde, provavelmente, os esperam longos minutos de bricolage.

Ainda falta toda a noite mas, até ver, cumpre-se o vaticínio. Um SSV a dominar a corrida, levando a melhor sobre os protótipos do campeonato francês de resistência e os 4x4 tradicionais. No domingo, ao raiar da bela aurora vos darei mais novidades dm próxima crónica.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: rcardoso.expresso@gmail.com