Automobilismo

Rali de Portugal: Luta a sério desde o primeiro quilómetro

Elfyn Evans e o seu Toyota a acelerarem para uma curva no primeiro dia do Rali de Portugal
Elfyn Evans e o seu Toyota a acelerarem para uma curva no primeiro dia do Rali de Portugal
NurPhoto

Duas classificativas e uma super especial sugerem que este ano a luta entre Hyundai e Toyota vai ser mais renhida que nas anteriores etapas do Mundial

Rali de Portugal: Luta a sério desde o primeiro quilómetro

Rui Cardoso

Jornalista

Nos últimos anos o primeiro dia do Rali de Portugal era pouco mais que protocolar: uma partida cerimonial, geralmente em Coimbra, e uma super especial de dois quilómetros, nesta cidade ou na Figueira da Foz. Este ano o figurino mudou: foram acrescentados dois troços a sério: Águeda/Sever do Vouga e Sever/Albergaria. Estas duas classificativas permitiram antecipar o que pode vir a ser esta edição da prova portuguesa (a contar para o Mundial de Ralis e para o campeonato nacional): A Hyundai completamente ao ataque, tentando quebrar a até agora inatacável hegemonia da Toyota.

O carro japonês tem continuado a evoluir, ao contrário do seu rival coreano e, sobretudo nos troços de asfalto, os especialistas estimam que o GR Yaris tenda a ganhar qualquer coisa como um segundo por quilómetro ao I20 N. No primeiro rali deste ano a ser disputado em terra, o de Portugal, esta vantagem talvez se dilua e foi nisso que apostaram os pilotos da Hyundai. A dupla Adrien Fourmaux e Alexandre Coria ousou vencer o primeiro troço, dominando ainda que pela margem mínima (uma décima de segundo).

Em Sever/Albergaria, classificativa mais longa, os Toyota contra-atacaram e Oliver Solberg/Eliott Edmonson ganharam o troço e passaram para a frente da classificação, relegando Fourmaux para o segundo lugar (a 7,2 segundos) e ascendendo, noutro Toyota, o campeão do mundo do ano passado, Sebastien Ogier (e candidato a mais uma vitória em Portugal), à terceira posição.

A super especial da Figueira, mais uma zona espetáculo que outra coisa, nada alterou, deixando os espetadores mais conhecedores dos meandros da condução deliciados com a precisão da condução de Ogier na zona dos peões: uma verdadeira lição de geometria, confirmando o velho adágio que o diabo sabe muito não por ser diabo, mas por ser velho…

Do lado português a confirmação que o açoriano Rúben Rodrigues (Toyota) não lidera o nacional de ralis por caprichos da sorte, batendo a jovem promessa Gonçalo Henriques (Hyundai) por 5,9 segundos e o adversário com o palmarés mais preenchido, Armindo Araújo (Skoda), por dez segundos.

Ogier à procura de mais uma vitória em Portugal
ACP Motorsport

Portugueses injustamente marginalizados

Mas uma reflexão se impõe: com o atual figurino, dividindo o pelotão entre os híper dispendiosos carros de Rally 1 (só acessíveis a equipas de fábrica) e os Rally 2 (onde entram também os portugueses), é preciso ver passar mais de 40 concorrentes para finalmente aparecer o primeiro piloto nacional (na circunstância Armindo Araújo). Noutros tempos não era assim e basta lembrarmo-nos de que um Carlos Bica, com o seu Lancia Integrale podia ser o décimo ou o décimo primeiro a passar, o que sempre era outra coisa: para o público, para os patrocinadores e para o interesse desportivo da prova.

É que, como explicou o ex-campeão nacional de ralis, Ricardo Teodósio, ao fazer a antevisão da prova, os pilotos portugueses já encontram o piso muito degradado, sujeitando máquinas e pilotos a um esforço extra e tirando-lhes as poucas hipóteses que porventura ainda tivessem de se chegarem um pouco mais à frente na classificação.

Pode ser que com as mudanças de regulamentos anunciadas para os próximos dois anos as coisas se alterem com os Rally 1 a perderem tecnologia e cavalos e a tornarem-se, consequentemente, um pouco menos caros (um milhão de euros atualmente) e porventura acessíveis a pilotos privados e não apenas a equipas de fábrica. Paralelamente, o atual fosso entre Rally 1 e Rally 2 poderá esbater-se um pouco. A ver vamos…

Certo é que sexta-feira será um dia em cheio com passagem pelos troços lendários do rali: Lousã (ainda que com outro traçado devido aos estragos provocados pelos incêndios do verão passado), Góis e Arganil. Não é que hoje tenha sido a brincar, mas amanhã será mesmo a sério.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: rcardoso.expresso@gmail.com