O povo esteve presente (e em força) no Rali de Portugal, a chuva é que não
A prova esteve nalguns dos seus locais mais lendários e a luta pelo primeiro lugar continua presa por pouco mais de três segundos
A prova esteve nalguns dos seus locais mais lendários e a luta pelo primeiro lugar continua presa por pouco mais de três segundos
Jornalista
Os espetadores acorreram em massa ao troço de Arganil do Rali de Portugal, fazendo com que às oito da manhã (a primeira passagem seria às 8h50) já não houvesse acessos à serra, muto menos estacionamento. Mesmo nas zonas reservadas aos jornalistas havia não profissionais (seriam simpatizantes?) por todo o lado e assim conseguir chegar ao gancho de Pai das Donas revelou-se uma missão quase impossível.
Apesar da grande moldura humana, a opinião dominante era que, com a classificativa feita ao contrário do habitual (das proximidades de Alqueve para a famosa Casa do PPD), o dito gancho era bastante menos espetacular. A esta hora matinal ainda as coisas corriam bem a Adrien Fourmaux, o francês da Hyundai que voltava a liderar a classificação geral.
Mas, como diziam os circunspetos romanos, sic transit gloria mundi (assim passa a glória no mundo) e o momento de fama do combativo piloto francês não duraria muito. Com toda a gente a rezar pela chuva, os pilotos para amaciar a pista e os espetadores para não levarem com o pó, a dita resumiu-se a alguns pingos esparsos por volta do meio-dia.
A partir daqui não faltaram surpresas. A segunda passagem por Arganil teve de tudo: um reboque a entrar na pista num momento proibido quando Elphin Evans, o galês da Toyota, estava quase a acabar o troço e apanhou o susto da vida dele. E, pouco depois, o seu companheiro de equipa Oliver Solberg deparava com uma viatura da GNR também dentro da classificativa. Coisas que só acontecem à Toyota?
Nem por isso, como adiante se verá. O troço foi neutralizado e todos os participantes a partir do 12º receberam o mesmo tempo. Todos menos Evans, que foi ao equivalente do vídeo-arbitro e conseguiu ser um pouco menos penalizado em tempo.
Faltava Góis, este ano com uma única passagem e também feita ao contrário do habitual, ou seja subindo de Sobral para os marcos geodésicos e torres de vigia, e descendo para Góis. Aí o autor destas linhas teve a sua pequena vingança relativamente aos engarrafamentos matinais: usou uma pista muito inclinada e trilhada, apenas acessível a viaturas 4x4 para chegar a uma verdadeira varanda do Açor, permitindo ver para norte a subida dos carros vindos de Sobral, a passagem acrobática destes junto ao marco geodésico e para sul o começa da descida para o Pai do Vento. Um maná para quem gosta do desporto motorizado.
Solberg e Fourmaux continuaram a protagonizar uma luta ao décimo de segundo, fazendo passagens de cortar a respiração. E ambos levaram longe demais o esforço, pois exatamente no mesmo local, quase na tomada de tempo de Góis, despistaram-se, com Solberg a fazer acrobacias em duas rodas sem consequências de maior (alem da perda de tempo) e Fourmaux a furar dois pneus.
Quem beneficiou de tudo isto? A velha raposa que já ganhou sete vezes este rali, ou seja Sebastien Ogier, que levou o seu Toyota Yaris à vitória nesta primeira etapa a sério. Mas a luta com a Hyundai continua e o belga Thierry Neuville só está a 3,5 segundos. Adivinha-se um sábado em cheio, com a disputa das classificativas mais longas e que já por mais de uma vez decidiram esta prova: Cabeceiras de Basto e, sobretudo, Amarante.
Do lado português confirmou-se o bom momento de forma do madeirense Rúben Rodrigues que, tal como tinha feito no recente Rali Terras da Aboboreira, levou o seu Toyota Yaris à vitória. Um caso sério este piloto, mas atenção ao desempenho de um jovem promissor, Gonçalo Henriques em Hyundai i20, que foi o segundo melhor português. Azares mecânicos e/ou eléctricos e penalizações afastaram para longe dos lugares cimeiros alguns dos pilotos portugueses com mais palmarés: Armindo Araújo ou José Pedro Fontes.
Mas volto a insistir na tese da crónica de sexta-feira: os portugueses são prejudicados pela atual regulamentação, condenados a serem os quadragésimos ou ainda pior a percorrer a pista. Até quando?
Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: rcardoso.expresso@gmail.com
