Até ao lavar dos cestos houve vindima no Rali de Portugal (e luta pela vitória também)

A temida Justiça de Fafe ditou a sentença. Houve reviravolta no penúltimo troço do Rali de Portugal e Thierry Neuville roubou a vitória a Sébastien Ogier

A temida Justiça de Fafe ditou a sentença. Houve reviravolta no penúltimo troço do Rali de Portugal e Thierry Neuville roubou a vitória a Sébastien Ogier
Jornalista
Quando comecei a escrever esta crónica tinha dois começos possíveis. Um era aplicar a Sébastien Ogier, sete vezes vencedor em Portugal, aquela velha piada sobre o futebol e os alemães: são 11 contra 11, mas no fim ganham sempre os mesmos. A outra era lembrar que o jogo só acaba quando o árbitro apita e que até ao último segundo tudo pode acontecer.
O histórico da prova portuguesa inclui algumas reviravoltas no lendário troço de Fafe: em 2019, Greensmith parte o carro no salto da Pedra Sentada, Loeb bate de traseira e Meeke arranca uma roda à vista da tomada de tempo, caindo com estrondo três candidatos, se não à vitória, pelo menos ao pódio. Em 2022, mas em Rally 2, Suninen, que liderava, despistou-se e entregou a vitória a Rossel (este ano Suninem redimiu-se e ganhou o Rally 2).
Em contrapartida, Sébastien Loeb, campeão do mundo em título, sempre foi o rei da gestão, defendendo no último dia da prova, em Fafe e restantes etapas, os segundos amealhados nos dias anteriores. Assim foi em 2017 (quando igualou o recorde de vitórias em Portugal de Markku Alén), em 2024 (passou a ter mais uma vitória que o finlandês) e em 2025, quando resistiu a um Ott Tänak (Hyundai) de faca nos dentes e chegou à sétima vitória entre nós.
Este ano não foi assim. No penúltimo troço a dupla Sébastien Ogier/Vincent Landais teve o seu momento Bryan Ruiz (o avançado do Sporting que em maio de 2016, com a baliza do Benfica aberta, atirou muito por cima, entregando o titulo aos encarnados). Depois de, na véspera, ter dominado à chuva e se ter dado ao luxo de ganhar segundos a Neuville até na super especial de Lousada, totalmente enlameada, um furo em Vieira do Minho 2 fê-los cair da primeira para a sexta posição, entregando de bandeja a vitória à dupla Thierry Neuville/Martijn Widaeghe.
Nesta guerra assimétrica entre Toyota, a grande favorita e possuidora do melhor carro, e a Hyundai, com um carro que nos ralis anteriores perdia um segundo por quilómetro, a sorte sorriu ao mais fraco, provando, se tal fosse necessário, que no meio das serras ou das florestas a guerrilha pode ser bem-sucedida contra inimigos teoricamente mais poderosos.
De facto, o belga nunca baixou os braços, acreditou até ao fim e colheu o merecido prémio, ganhando pela segunda vez em terras portuguesas. E um dos outros Hyundai 20N, o de Fourmaux que foi dando um ar da sua graça chegando a passar episodicamente pela liderança, acabou por ganhar a segunda passagem pela especial de Fafe e arrecadar o bónus correspondente (Power Stage).
À Toyota resta a consolação de manter o comando do mundial com quatro carros nos cinco primeiros lugares (Elfyn Evans lidera). Quem gosta de ralis foi brindado com uma edição emocionante face às sucessivas mudanças de liderança e a alternância atmosférica total: da poeirada e do (relativo) calor de Góis/Arganil, ao regresso em força da chuva e do frio, sobretudo sexta-feira à tarde, culminando num traçado de Lousada que mais parecia uma prova do europeu de ralicross.
É a despedida do mundial de ralis no atual formato. Para o ano, e sobretudo para 2028, anunciam-se grandes alterações com um maior nivelamento dos carros de Rally 1 e Rally 2 e, sobretudo, a possibilidade de os carros de tipo passaram a ser menos inacessíveis aos privados, abrindo leque dos candidatos à vitória e dando uma hipótese à quantidade de pilotos talentosos que por aí anda de poder lutar com armas iguais.
E, quem sabe, voltarmos a ter portugueses a serem os dez ou 15 primeiros a passar no troço e não quase quinquagésimos: Armindo Araújo, José Pedro Fontes ou Ricardo Teodósio que o digam, bem como a revelação deste amo Ruben Rodrigues, em Toyota GR Yaris. E o centro logístico do rali deverá sair da Exponor, quase certamente a caninho de Viseu.
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