Automobilismo

Rali de Portugal: para cá do Marão, uns ganham e outros não

Joshua McErlean/Eoin Treacy, da Ford: os azarados do dia com um despiste no lamaçal de Lousada
Joshua McErlean/Eoin Treacy, da Ford: os azarados do dia com um despiste no lamaçal de Lousada

A ronda do Minho e do Marão foi animada no sábado, mas Sébastien Ogier, com o seu Toyota, resistiu a tudo. Até à chuva que caiu durante a tarde

Rali de Portugal: para cá do Marão, uns ganham e outros não

Rui Cardoso

Jornalista

Depois do trauma da véspera com a enchente de público no troço de Arganil, o autor destas linhas tirou-se dos seus cuidados e ainda o galo não tinha acabado de cantar já ia a caminho da aldeia de Fridão onde se situa o famoso gancho homónimo, grande atração do troço de Amarante.

Pouco passava das oito da manhã (a passagem era às 9h30) e já lá estava o efetivo de um batalhão, umas boas 600 pessoas, algumas, ou tendo dormido lá, ou assentado arraiais ao raiar da bela aurora. As notícias que me tinham chegado sobre a devastação dos incêndios estivais no parque florestal do Fridão eram manifestamente exageradas: a zona espetáculo continuava verde e frondosa. Assim estivesse o resto do Marão…

Música à beira do troço

Com tanto tempo de espera houve oportunidade para apreciar a moda deste ano no rali. Há quatro anos eram as geleiras com rodas. Há dois eram as cadeiras dobráveis em lona. Agora, pelos vistos, são as colunas de som emparelháveis com os telemóveis. Ao meu lado, um grupo de locais revivia o espírito das ancestrais romarias minhotas, modernizadas graças à mais recente tecnologia: era cantar, dançar e saltar como se não houvesse amanhã.

A certa altura um passo de dança mais enérgico fez despencar a coluna e a música (mais pimba que rock) calou-se, registando-se o seguinte diálogo:

- Já f**** a coluna toda!

- A coluna é que não vale um c*****!

É assim o Minho. Onde os citadinos petulantes vêem palavrões, trata-se na verdade de inocentes pausas para respirar.

Por fim, já com o carro zero à vista (um carro de ralis guiado a um ritmo próximo do de corrida, passando dez minutos antes do primeiro concorrente), a coluna lá voltou a funcionar, brindando os circunstantes, na altura já com o efectivo de uma brigada ou duas, com um vira alusivo à milenar questão da fidelidade em matéria de afectos.

“Isso de corno/já dizia um qualquer/só não é corno/quem não gosta de mulher”.

Do mais fino recorte literário, como se vê.

O belga Thierry Neuville a acelerar com o seu Hyundai no Rali de Portugal
Diogo Cardoso

Gancho para todos os gostos

Entretanto a solidariedade luso-espanhola imperava: um grupo de moços da Cantabria, conterrâneos de Dani Sordo da Hyundai (e que lamentavam os azares sofridos na véspera pelo seu ídolo), trocava copos de cidra caseira, servidos de alto, como manda a tradição, por latas de Super Bock saídas das geleiras portuguesas.

Uma confraternização interrompida pela chegada de uma longa coluna de abastecimento a pé que tentava com dificuldade abrir caminho por entre cadeiras, mantas, fogareiros e geleiras. “Viésseis mais cedo”, dizia um dos pândegos, emborcando mais uma cerveja. A fechar a marcha, um jovem barbudo e bem constituído, transportando uma volumosa e bem cheirosa panela. Logo se alterou o curso das apostas. Se até aí se apostava quem passaria melhor no gancho, se Ogier, se Neuville, a dúvida passou a ser se estávamos em presença de cozido, cabrito ou rojões.

Até que começou o festival, anunciado como sempre pelo bailado dos helicópteros. Tratando-se uma nova etapa os pilotos da frente puderam escolher a ordem de passagem e assim quem abriu a pista foram os dois Ford, seguidos do Toyota dos finlandeses Sami Pajari/Marko Salminen. Aqui uma palavras para descrever o gancho: os pilotos vêem de uma reta a fundo e têm que curvar à esquerda, descrevendo um arco de 180º mas com árvores dos dois lados, e desnível. É obra! E nem todos o abordam da mesma forma, uns alargando a curva e atravessando completamente o carro, outros colocando-se na trajetória ideal.

Pela amostra do gancho do Fridão, dava ideia de que o troço, o mais longo do rali (20 km), predominantemente a descer, se decidiria entre Ogier (Toyota) e Fourmaux (Hyundai), que ganhara o troço anterior (Cabeceiras 1), mas na verdade foi a dupla Oliver Solberg/Elliot Edmonson (Toyota GR Yaris) a averbar o melhor tempo.

Daqui em diante foi uma montanha russa de emoções: Solberg não só também ganharia Paredes 1 como passaria para frente de Ogier no comando da prova. Mas Ogier contra-atacou em Felgueiras 2 e sobretudo em Amarante 2, regressando à liderança. Pelo meio Fourmaux mostrou que ainda não tinha atirado a toalha ao chão, repetindo o triunfo da manhã na segunda passagem por Cabeceiras. E, para que não se diga que a Ford anda só a apanhar bonés, a dupla Martin Sesks/Renars Francis venceu Paredes 2 e disputou com Solberg a vitória na super especial de Lousada, debaixo de uma chuva copiosa que se anunciava há dois dias.

Nove troços, cinco vencedores diferentes e, contas feitas, Ogier a perder e recuperar a liderança. É obra!

Afinal o carro fantasma não era da GNR

A terminar esta crónica, uma necessária correcção referente ao tão falado episódio do reboque que sexta-feira entrou indevidamente no troço Arganil 2, levando à neutralização do mesmo.

Houve, de facto, uma viatura ligeira a entrar também na classificativa, aumentando desta forma a confusão, porém contrariamente à informação que circulava no sábado à tarde e da qual me fiz eco, não se tratou de um carro da GNR, mas dos serviços técnicos da empresa de reboques que tentou dar apoio ao colega em apuros. A retificação aqui fica, sendo certo que o ACP Motorsport está ainda a investigar as circunstâncias em que este inesperado episódio ocorreu.

Este domingo há missa solene na catedral do rali com duas passagens no lendário troço de Fafe.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: rcardoso.expresso@gmail.com