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Nikola Jokić: o melhor basquetebolista do mundo não vive para o trabalho

Nikola Jokić: o melhor basquetebolista do mundo não vive para o trabalho
FIBA

O melhor jogador de basquetebol do momento não é norte-americano, nem atlético. O sérvio Jokić chegou à NBA há 10 anos, envolto em desconfiança pelo peso a mais e pela personalidade fleumática. Hoje, o gigante de 2,11 metros (que Portugal defronta esta sexta-feira, às 19h15, no EuroBasket) é três vezes MVP e em 2023 levou os Denver Nuggets ao seu primeiro título. Não corre e mal salta, mas chamam-lhe “sobredotado” e as soluções “fora da caixa” fazem dele um espécime original na mais forte liga de basquetebol do mundo

A green room do draft da NBA é um lugar de esperanças e expectativas. É ali, em frente ao palco onde, um a um, ao longo de dois dias, serão chamados os nomes dos 60 basquetebolistas escolhidos pelas 30 equipas da liga, que se sentam as duas dezenas de jogadores com maiores perspetivas de sucesso no exigente campeonato norte-americano de basquetebol. Dentro de farpelas que seguem os mais extravagantes ditames da moda, sentados junto da família e dos agentes, os mais promissores atletas daquela safra, convidados por isso mesmo para ali estarem, esperam até ouvirem o seu nome (o mais cedo possível, de preferência) e entrar naquela máquina oleada de showbiz, com honras de transmissão televisiva nacional. Chamados pelo comissário, sobem ao palco, vestem a cabeça com o boné da equipa que os escolheu, oferecem os primeiros sorrisos para as câmaras e falam dos seus hopes and dreams naquele primeiro dia do resto das suas vidas. Em breve, vários deles serão estrelas internacionais.

Esta fanfarra não está aberta a todos e o interesse da noite de draft começa a amainar, e muito, no final da primeira de duas rondas de escolhas. Em 2014, Nikola Jokić não foi um dos jogadores convidados para a green room, pouso para a elite da elite daquele ano. A 2ª ronda do draft, onde raramente se encontram pepitas de ouro, seguia já em velocidade cruzeiro, suspirando-se pelo fim de festa, quando a ESPN seguiu para intervalo. E enquanto a transmissão cumpria os seus compromissos comerciais, os Denver Nuggets escolheram, no anónimo lugar 41, um desconhecido poste sérvio pouco atlético e com uns bons quilos a mais.

Todos estes anos depois, ainda é motivo de risota generalizada que o melhor jogador de basquetebol do mundo tenha sido escolhido no draft durante um spot publicitário a uma conhecida cadeia de fast food, a Taco Bell, e não com o fausto destinado aos grandes. No momento em que o seu nome surgiu no oráculo, acompanhado de um suculento burrito, Nikola Jokić não estava no Barclays Center, em Nova Iorque, envergando o seu mais excêntrico fato, roendo as unhas à espera de ouvir o seu nome e subir ao palco onde começam os sonhos. Estava a milhares de quilómetros dali, em casa, na Sérvia, a dormir.

De certa maneira, aos 30 anos e três títulos de melhor jogador da NBA depois, Nikola Jokić continua a ser esse rapaz de ar bonacheirão e despreocupado que nem se deu ao trabalho de estar acordado para ouvir o seu nome no draft. Numa liga onde jorram milhões de dólares a cada contrato, pejada de luxos e excentricidades dos seus milionários membros, Jokić é o epítome da antiestrela, um autodepreciativo e discreto miúdo de Sombor, cidadezinha no norte da Sérvia, perto da fronteira da Hungria, para onde volta no primeiro avião mal acaba a época nos Estados Unidos.

Tom Weller/VOIGT

É lá que estão os pais, os seus pratos favoritos, o seu estábulo (Dream Catcher, de seu nome) e os seus cavalos, pelos quais parece bem mais apaixonado do que pela bola laranja. Fica longe das redes sociais, até porque não as tem. “É uma perda de tempo”, atirou laconicamente há um par de anos, quando o questionaram sobre essa tão pouco comum opção num palco de ostentação como é a NBA. Não menos lacónica, mas muito representativa de quem é Nikola Jokić, foi a resposta que deu, ainda num inglês incipiente, a um jornalista norte-americano, meses antes do draft, sobre a sua forma de ver o jogo: “Quando estou livre, marco. Quando não estou, passo.”

Agora, o gigante poste de 2,11 metros, que redefiniu os moldes e os estereótipos da sua posição, que guiou com suas extraordinárias mãos e genial cérebro os Denver Nuggets até ao primeiro título da NBA da sua história, em 2023, terá outro desafio, este mais emocional: levar a Sérvia ao ouro no EuroBasket, algo que o país não consegue desde 2001, ainda como Jugoslávia. Portugal, de regresso à prova após 14 anos, é um dos adversários no Grupo A da fase de grupos, onde estão ainda Estónia, Letónia, Turquia e Chéquia.

O DESAFIAR DAS CONVENÇÕES

Aquela noite em que Jokić optou por dormir em vez de conhecer, em primeira mão, o seu destino, podia nem sequer ter acontecido. Alguns dias antes da cerimónia, o seu agente chegou a anunciar que Jokić ia retirar o nome do draft e voltar ao Mega, clube de Belgrado que tem formado alguns dos mais interessantes talentos balcânicos dos últimos anos. Poucas equipas tinham mostrado entusiasmo por um jogador de inequívoca inteligência, um poste na tradição europeia, com boa visão e capacidade de passe, sagaz a ler o jogo, mas com um físico que fazia muito boa gente torcer o nariz. Uma figura enorme, mantida à base de três litros diários de Coca-Cola e bureks, pastéis folhados que são a comida de rua por excelência dos países da região. Aos 17 anos, quando assinou pelo Mega, Jokić pesava quase 140 quilos e não conseguia fazer sequer uma flexão.

Jokić é uma antiestrela: um autodepreciativo miúdo de Sombor, cidadezinha na Sérvia, para onde volta mal acaba a época nos EUA

A direção dos Nuggets convenceu Jokić a manter-se no draft e escolheria o jovem no lugar 41. O risco era mínimo, porque mínimas são as expectativas para quem cai na 2ª ronda do draft, onde habitam genéricos basquetebolistas de rotação ou tantos outros que nem um minuto de NBA jogarão sequer, mas nunca quem vai a caminho de se tornar no melhor do mundo.

Nikola Jokić foi muito além de qualquer previsão. O físico, afinal, não é tudo. Num desporto com posições e funções tão definidas, tão agarrado a uma ideia de atleticismo, o poste sérvio desafia diariamente as convenções apontadas aos jogadores da sua altura: não é apenas homem de estar debaixo do cesto, a ganhar ressaltos ou a afundar bolas fáceis no garrafão, como um qualquer gigante. Consegue driblar, comandar um ataque, definindo os tempos do jogo. Desenha uma jogada com a mesma facilidade com que lança de todos os pontos do court, como um extremo. E oferece assistências com a naturalidade de um base, graças à sua prodigiosa inteligência e visão periférica, que encontra colegas sem marcação nos mais inesperados cantos do campo. Isto não sendo rápido, atlético, praticamente sem conseguir saltar. Há poucos basquetebolistas tão originais quanto Nikola Jokić.

Em 2021 tornou-se no basquetebolista de draft mais modesto de sempre a receber o prémio de jogador mais valioso da liga. Repetiu o feito no ano seguinte e em 2024, colocando-se no mesmo patamar de Larry Bird, Magic Johnson e Moses Malone, todos eles com três prémios de MVP. Kobe Bryant, por exemplo, só ganhou um. Pelo meio, em 2023, liderou os Nuggets no caminho até ao título e foi considerado o melhor jogador da final. Isto sem ter, ao seu lado, qualquer outro jogador com distinções individuais como nomeações para All-Star ou presença nas equipas do ano da NBA. A conclusão não é que Jokić ganhou sozinho: é que Jokić ajudou jogadores comuns a brilharem.

Precisão e imprevisibilidade

Nikola Jokić só aterrou em Denver um ano depois do draft de 2014. Optou por continuar a jogar na Sérvia nessa temporada (foi o MVP da Liga Adriática) e o plano traçado era ficar pelo menos mais uma época na Europa. O Barcelona estava interessado, mas voltou atrás, desconfiado da qualidade de Jokić depois de observar alguns jogos. A chegada a Denver foi, assim, antecipada. E dificilmente alguém imaginaria o que viria por aí.

Ali estava um miúdo sem um músculo definido, um poste que não conseguia pular. O primeiro trabalho foi torná-lo fisicamente mais preparado para a NBA. Acabaram-se as Coca-Colas (a última bebeu-a no avião na viagem para os Estados Unidos), substituídas pelo ginásio. Perdeu 15 quilos antes da estreia na liga, mesmo que o cérebro continue a ser a arma mais letal do poste. Adam Mares, analista, comentador e criador do projeto multimédia DNVR, que se dedica ao dia a dia dos Denver Nuggets, conta que, apesar de se considerar entre os primeiros a acreditar no potencial do sérvio, só “um ano ou dois depois” de o ver a primeira vez é que percebeu o quão “especial” era aquele jogador.

“O Jokić apanhou toda a gente de surpresa. Mal jogou no início do seu ano de rookie e mesmo quando começou a mostrar algum brilho as expectativas para ele mantiveram-se modestas”, explica Mares, que se tornou num dos melhores intérpretes das idiossincrasias do jogador balcânico, tão afastadas dos moldes mais excessivos das estrelas da NBA. “Não havia grande entusiasmo por um jogador de 2ª ronda de draft discretamente a fazer números muito eficientes, mesmo com minutos de jogo limitados”, continua o analista, sublinhando que só quando o sérvio foi escolhido pela primeira vez para o All-Star Game, em 2019, os “Nuggets e a cidade” entenderam finalmente que aquele rapaz rechonchudo “não era apenas um bom jogador, era um jogador fantástico”. Hoje, em Denver, ainda se festeja o chamado “Jokmas” a cada dia 15 de dezembro. Foi nesse dia, em 2016, na segunda época do sérvio, que o treinador Michael Malone decidiu que o tal número 41 do draft era bom demais para não ser titular. O Natal chegou a Denver — e a história do franchise começou a mudar ali.

Mas como é que um jogador cujo físico parece estar a léguas das exigências da NBA se tornou no basquetebolista mais importante do planeta? Ricardo Brito Reis passou longas madrugadas a comentar jogos de Jokić na Sport TV. Acredita que o que distingue o sérvio é “a sua capacidade de passe”, lançando até uma opinião que é cada vez menos de nicho: “Eu acho que ele não só é o melhor poste passador de sempre, como podemos começar a questionar se não entra na discussão para o melhor passador de sempre. Ponto final.” Que um poste tão encorpado entre nesta contenda é uma das características que torna Jokić verdadeiramente excecional.

E não só. Jokić, diz, “alia a técnica individual ao QI basquetebolístico”. A altura também o ajuda a “ter à sua disposição ângulos que os jogadores mais baixos não têm”, descobrindo linhas de passe aparentemente impossíveis, “antecipando tudo duas ou três jogadas antes de todos os outros nove jogadores que estão em campo”. O poste balcânico tornou-se numa espécie de “hub ofensivo”, o cérebro em torno de quem todos os outros jogadores gravitam. Adam Mares olha mesmo para Jokić um “sobredotado com a bola nas mãos” e alguém que “lê o court como um general lê o campo de batalha: não apenas as peças, mas as possibilidades”, aponta. “Ele coloca passes não para onde os colegas estão, mas sim para onde eles devem estar. E eles estão quase sempre lá”, sublinha.

Aos 17 anos, quando assinou pelo Mega, Jokić pesava quase 140 quilos e não conseguia fazer sequer uma flexão. Mas o físico não é tudo

Já as preocupações com o peso e a aparente falta de atleticismo de Jokić foram ficando esquecidas no tempo. “Ele é tão forte quanto qualquer outro jogador na liga. E se é certo que se continua a julgar erradamente a sua parte física, o seu motor não mente: ele é um dos postes mais bem preparados fisicamente da atualidade, com a resistência mental e tolerância à dor para ir mais longe do que a maioria dos adversários.” Quase poeticamente, Mares fala de alguém com “corpo, mente e espírito em rara harmonia”, um basquetebolista cujo jogo é, ao mesmo tempo, “preciso e imprevisível”.

Com tantas habilidades para desenvolver o ataque, a ideia de que Jokić não é um jogador importante a nível defensivo grassa. Ricardo Brito Reis recusa-a. “Ele não tem grandes atributos defensivos, porque atleticamente não é extraordinário, não salta muito, não tem explosividade. Mas compensa com a sua inteligência”, sublinha. Na última temporada, Nikola Jokić foi o segundo jogador com mais deflexões por jogo, ou seja, interceções da bola, “porque consegue antecipar as jogadas e cortar linhas de passe” aos adversários.

Produto melhorado da escola jugoslava

Em março deste ano, Nikola Jokić tornou-se o primeiro jogador da história da NBA a fazer mais de 30 pontos, 20 ressaltos e 20 assistências num único jogo. É também o único basquetebolista a chegar aos 2000 pontos, 1000 ressaltos e 500 assistências numa única temporada, carregando ainda mais o carácter absolutamente original do seu jogo, capaz de fazer tudo em court. E tudo bem feito. Mas um atleta como Nikola Jokić não surge por geração espontânea. “O estilo de jogo dele, na minha opinião, é fortemente associado com a escola de basquetebol da Jugoslávia, mas ele pensa muito fora da caixa”, conta Miloš Jovanović, jornalista e verdadeira enciclopédia do basquetebol sérvio.

Jovanović lembra que a antiga Jugoslávia já teve, no passado, jogadores semelhantes a Jokić — “não a este nível, naturalmente” —, referindo Vlade Divac, poste com boa qualidade de passe e que foi um dos primeiros jogadores europeus com impacto na NBA, nos anos 90. Mas recua ainda mais para falar de Krešimir Ćosić, jogador croata dos anos 60 e 70, conhecido por ser o primeiro basquetebolista de sempre a jogar nas cinco posições do campo, mas um anónimo para os norte-americanos, por ter recusado jogar na NBA.

O primeiro trabalho foi torná-lo mais preparado para a NBA. Acabaram-se as Coca-Colas, substituídas pelo ginásio. Perdeu 15 quilos antes da estreia na liga

O repórter sérvio sublinha que a facilidade que Jokić tem em dominar todas as facetas do jogo está ligada à forma de trabalhar os mais novos nos Balcãs, uma escola “versátil, polivalente”, onde os treinadores não dividem, inicialmente, os jogadores de acordo com as suas características físicas, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos. “Ninguém diz ‘tu és grande, vais jogar a poste’ ou ‘tu és pequeno, vais ser base’. No início, todos os jogadores aprendem todos os fundamentos”, seja o passe, os ressaltos, o controlo da bola, a defesa, o ataque. Não é por isso estranho que Jokić apresente características de um base ou até de um extremo, mesmo em corpo de poste. Na Sérvia, só a partir “dos 15, 16 anos os jogadores são catalogados segundo as necessidades físicas de cada posição”, explica Miloš Jovanović, que aponta ainda como decisivo para o jogo de Jokić a tradição local do basquetebol de rua: “Três contra três, dois contra dois… é basicamente o passatempo nacional, ir para a rua e jogar basquetebol.”

Foi num desses humildes campos, em Sombor, que Nikola Jokić começou por observar, ainda de chupeta na boca, os irmãos Nemanja e Strahinja, 13 e 11 anos mais velhos, também eles futuros basquetebolistas. Os jogos seguiam para o pequeno apartamento de dois quartos que partilhavam com os pais e a avó e onde foi colocada uma minitabela numa das portas. Dividindo o amor entre o basquetebol e as corridas de cavalos com atrelado, Jokić só se dedicou com mais afinco à bola laranja aos 15 anos. “Quando comecei a jogar era gordo e ainda não era alto, por isso jogava a poste, mas também a base. Driblava pelo court inteiro”, confessou ao The Players Tribune, em 2016, numa fase em que ainda era comum receber jornalistas na sua casa em Denver, para onde os irmãos também se mudaram, tal como a namorada da adolescência, Natalija. Os dois casaram-se em 2020, têm dois filhos. Desde aí que Jokić se limita aos compromissos obrigatórios com a imprensa, resguardando toda a vida pessoal. “Não é que ele tenha alguma coisa contra os jornalistas. É só uma pessoa reservada, não é o tipo que vai querer roubar as atenções pelo que diz”, explica Miloš Jovanović.

Michael Reaves

Jovanović não tem dúvidas que o basquetebol jogado nos pequenos courts de Sombor aguçou as habilidades de Jokić, que “os truques, a técnica de rua, os passes sem olhar, as assistências brilhantes” foram incorporados no seu jogo. Jokić usa-os não exatamente para “adornar o que quer que seja, mas porque pode ser o mais eficaz a fazer naquela situação”, explica Ricardo Brito Reis.

O jogo de rua foi importante também para desenvolver uma sagacidade mais difícil de travar do que a sua enorme figura. “Ele é provavelmente o jogador mais inteligente de sempre”, disse ao “The Ringer” o colega de equipa Christian Braun. Miloš Jovanović lembra que quando Jokić começou a jogar, “tinha peso a mais, era lento” e que “face a jogadores mais rápidos do que ele” percebeu que o que tinha de fazer era “tentar ser mais esperto que eles”. O compatriota de Jokić lembra, no entanto, que nada seria possível sem “a força mental” de um jogador para quem o basquetebol parece, por vezes, apenas um emprego.

Conquistar a Sérvia

São até já do campo do folclórico as imagens de Nikola Jokić durante as suas férias anuais na Sérvia, a torcer pelos cavalos do seu estábulo em corridas de cavalos com atrelado, que chegou a praticar. No seu cacifo em Denver não há parafernália de basquetebol: lá moram orgulhosamente fitas coloridas que marcam as vitórias dos seus equídeos. Este verão, circularam imagens do ataque de choro que o gigante protagonizou quando um dos seus cavalos venceu uma prova, numa manifestação bem mais emocional do que as que teve quando foi campeão da NBA — nesse dia disse que o “trabalho estava feito” e que nem queria participar na habitual parada dos campeões pelas ruas de Denver, só queria voltar para Sombor.

Jovanović lembra que quando Jokić começou a jogar “tinha peso a mais, era lento” e face a jogadores mais rápidos percebeu que tinha de “ser mais esperto”

Mas tal não significa que Jokić não ligue ao desporto no qual é, indubitavelmente, muito bom, para Ricardo Brito Reis já “claramente no top 20 de melhores de todos os tempos”. Miloš Jovanović diz que “o melhor truque que Jokić alguma vez conseguiu” foi precisamente “convencer as pessoas que não se importa” com o basquetebol: “Ele pode parecer um tipo tranquilo e relaxado, mas é um perfeccionista, um vencedor.”

“Eu acho que o Jokić adora basquetebol e tem uma grande vontade de ser o melhor que puder. Mas, ao contrário da maioria dos atletas, essa vontade não consome todas as partes da sua alma.” Em 2022, Adam Mares empreendeu uma viagem até à Sérvia precisamente para tentar conhecer essa alma que habita no corpo de um impassível gigante de 2,11 metros. E acredita que a encontrou. Gravou-a no documentário “A Hundred Invisible Threads” (“Cem Linhas Invisíveis”, em português).

“Há um certo coletivismo inato na cultura sérvia que ancora as pessoas à sua história e que lhes permite sentirem que nunca vão enfrentar sozinhas as incertezas da vida”, conta. Talvez a guerra, da qual Jokić ainda se lembra apesar da tenra idade — tinha quatro anos quando a NATO bombardeou a Sérvia —, tenha algo a ver com isto. “Vejo isso no Jokić porque, no fundo, ele parece identificar-se mais como parte de um grupo do que como indivíduo. E por isso pensa o jogo em termos de soluções alternativas e brechas e parece menos incomodado que outros com as falhas, mesmo tendo uma vontade de vencer tão forte quanto a de qualquer outro jogador”, elucida-nos Mares.

Talvez a guerra, da qual Jokić ainda se lembra, tenha algo a ver com isto. “Parece identificar-se mais como parte de um grupo do que como indivíduo”, diz Mares

É também por esse coletivismo que a Sérvia ainda não elevou Nikola Jokić à categoria de herói nacional. “Há uma característica nossa que é: se queres ser grande na Sérvia, tens de ganhar algo pelo país”, explica Miloš Jovanović. Há argumentos mais do que suficientes para considerar Nikola Jokić o melhor jogador de sempre nascido na Sérvia. “Ninguém está sequer próximo do que ele já conseguiu, mas se perguntarem na rua quem é o maior basquetebolista da história da Sérvia, as pessoas vão dizer Aleksandar Djordjević ou Dejan Bodiroga, muitos outros nomes.” E porquê? “Porque esses jogadores ganharam o EuroBasket, ganharam o Mundial pela Sérvia”. E Jokić (ainda) não.

Dias após conquistar pela primeira vez o prémio MVP da NBA, em 2021, Jokić anunciou que não iria jogar o torneio de qualificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio. Foi chamado traidor e coisas piores no seu país, ficou marcado como alguém que não se interessa pelo sucesso nacional. Jovanović diz que ele se importa, sim, lembra as lágrimas de um juveníssimo Jokić quando em 2016 foi recebido pela sua cidade no edifício do município de Sombor depois de conquistar a prata nos Jogos Olímpicos, e acredita que Jokić está dedicado a ganhar o EuroBasket pela Sérvia, para ser abraçado como um herói na praça do Parlamento Nacional, em Belgrado, palco de receções multitudinárias depois da vitória no Europeu de 1995, o primeiro título depois de vários anos de suspensão por causa da Guerra dos Balcãs, ou após o ouro no Mundial de 2002, o último triunfo em grandes competições.

Só vencendo pelo seu país, Nikola Jokić vai conquistar a Sérvia, depois de já ter conquistado o mundo. Tão paradoxal quanto ter sido ignorado no draft há 11 anos, obrigado a partilhar espaço televisivo com um burrito. Voltando a esse momento sob outra perspetiva, logo a seguir à publicidade da Taco Bell, surgiu uma de um fabricante automóvel protagonizada por um unicórnio. Talvez, afinal, não estivessem enganados de todo.

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