A expansão europeia da NBA está a encontrar resistência e há demasiados atores importantes em contramão
Orlando Magic e Memphis Grizzlies a defrontarem-se em Londres
Anadolu
Ainda há mais dúvidas do que certezas em relação à NBA Europa. Grande parte dos clubes da EuroLiga, onde competem as melhores equipas do continente, seguem comprometidos com o projeto e o Barcelona até acabou de assinar um contrato de 10 anos. A NBA vai tentando persuadir emblemas com peso no futebol: o Paris Saint-Germain parece ter dado ouvidos ao apelo, ao contrário dos rivais de Manchester. Taxas de entrada exorbitantes e possível demora no retorno financeiro retraem entusiasmo
A NBA inaugurou 2026 com uma cimeira na Europa. Tem sido hábito a liga afagar a lealdade dos fãs entregando-lhes a competição à porta de casa. Porém, a vinda dos Orlando Magic e dos Memphis Grizzlies ao Velho Continente, onde disputaram um jogo em Berlim e outro em Londres, não foi inocente.
Adam Silver fez uma viagem de negócios e multiplicou-se em reuniões com potenciais parceiros – clubes, media, investidores – para o projeto que está a semear. O campeonato que é o zénite do basquetebol até se pode ter tornado num terreno fértil para escândalos de apostas e outras falcatruas, mas os muitos jornalistas dos Estados Unidos e de vários cantos da Europa a acompanhar o comissário da NBA interessaram-se maioritariamente por um assunto.
Há sensivelmente um ano, começou a correr o boato de que ia nascer na Europa uma competição filha da NBA. Entusiasmo em recebê-la parece não faltar. Os bilhetes para os confrontos entre Magic e Grizzlies “esgotaram numa questão de minutos”, revelou Silver, poupando as cidades a uma campanha agressiva de publicidade pelas ruas. Tamanho interesse vai começar a ser exploradoa partir de outubro de 2027, quando a NBA Europa arrancar. Até lá, ainda há muito por definir.
Em busca de 16 equipas
A introdução de uma nova competição, tal como se antecipava, está a baralhar o ecossistema do basquetebol europeu. A NBA quer ter como parceiros clubes já existentes –este é o traço mais bem definido da futura competição –, o que coloca em causa planos que esses emblemas pudessem ter em mente. O objetivo é transferir para o basquetebol a dimensão que as marcas adquiriram através do futebol, ficando assim de parte a hipótese de serem criados novos franchises.
Aumento do número de jogadores europeus na NBA fez subir o alcance da liga
Maja Hitij
Clubes como o Real Madrid e o Barcelona têm tradição no basquetebol e são das equipas mais relevantes da EuroLiga, a prova que reúne as potências da modalidade. No entanto, Adam Silver confirmou que o Paris Saint-Germain é um clube com o qual têm sido mantidas conversas. Neste caso, os gauleses não têm equipa de basquetebol, sendo que a capital francesa é representada na elite pelo Paris Basketball, fundado em 2018 e sem ligação ao PSG. Manchester United e Manchester City, igualmente sem histórico na modalidade, também foram contactados e, avança a “BBC”, não mostraram entusiasmo em participarem.
Neste jogo de sedução, a NBA vai tentando compor o elenco de 16 equipas que se propôs a formar, sendo que 12 serão membros permanentes da competição e os restantes serão definidos através de um play-in anual onde participarão aqueles que melhores resultados obtiveram na Liga dos Campeões da FIBA e nos campeonatos nacionais. Reino Unido (Londres e Manchester), França (Paris e Lyon), Espanha (Madrid e Barcelona), Itália (Roma e Milão), Alemanha (Munique e Berlim), Grécia (Atenas) e Turquia (Istambul) foram os mercados inicialmente sugeridos por George Aivazoglou, diretor-geral da NBA Europa, como prioritários. Belgrado e Kaunas, bastiões do basquetebol europeu, não estão incluídos.
Lealdade à EuroLiga
A NBA Europa será organizada em conjunto com a FIBA, a federação internacional que não tem propriamente tudo sob controlo. Desde 2000, as melhores equipas europeias defrontam-se na EuroLiga, uma competição privada. A Liga dos Campeões é a prova mais elevada na hierarquia da FIBA, mas, na prática, é apenas a terceira melhor de um organograma complexo. O passado conflituoso continua a ter repercussões, sendo que a EuroLiga ameaçou a NBA, aliada da FIBA, com ações legais caso o vindouro torneio continue em negociações com os seus clubes.
A EuroLiga tem 13 proprietários: Anadolu Efes, Fenerbahçe, Real Madrid, Barcelona, Baskonia, Olympiacos, Panathinaikos, Zalgiris Kaunas, Maccabi Tel Aviv, Olimpia Milano, Bayern Munique, ASVEL e CSKA Moscovo (suspenso). É neste leque que se encontram muitos dos alvos da NBA. Os membros permanentes usufruem de licenças de longa duração que lhes permitem continuar na EuroLiga independentemente dos resultados obtidos. O surgimento da NBA Europa acontece num período em que estão a terminar os contratos destes tubarões com a prova em que se inserem.
O Barcelona renovou contrato com a EuroLiga para os próximos 10 anos
Rodolfo Molina
Num momento em que todos os outros já se decidiram pela continuidade na EuroLiga, Real Madrid, Barcelona, Fenerbahçe e ASVEL foram os mais titubeantes na decisão. Os catalães anunciaram a assinatura de um novo contrato de 10 anos, embora o “Diario AS” escreva que existe uma cláusula de rescisão de €10 milhões. O Fenerbahçe também deverá permanecer. Real Madrid e ASVEL (detido por Tony Parker, antigo jogador francês dos San Antonio Spurs) estão comprometidos com a NBA Europa. Uma minoria, portanto.
Há em Portugal quem atente à hipótese de abraçar a NBA Europa. A competição foi referida na apresentação do Benfica District, entretanto aprovado. A reformulação da zona do Estádio da Luz prevê a construção de um pavilhão de 10.000 lugares admissível para os padrões da competição. “No entanto, os requisitos financeiros da NBA são muito elevados e não sabemos se o Benfica os conseguirá cumprir no futuro”, descartou José Gandarez, vice-presidente do clube encarnado.
Retorno só a longo prazo
Não sendo conhecido o montante que os clubes europeus achavam razoável que a NBA colocasse no projeto, Adam Silver já fez saber que não vai transferir grandes parcelas da receita de $14,3 mil milhões que, aponta o site especializado “Sportico”, a liga norte-americana espera registar no final de 2025/26.
“O financiamento da NBA Europa viria, inicialmente, dos clubes membros da liga. Tal como em qualquer startup, os participantes seriam os investidores e, com o tempo, iriam obter retorno”, esclareceu Adam Silver em relação ao modelo de negócio a aplicar. “Na NBA, apesar das receitas muito elevadas, gastamos a maior parte desse dinheiro com os jogadores, em infraestrutura e marketing. Se quisermos lançar esta nova liga com sucesso, será preciso algum tempo até que se torne um empreendimento comercial viável. Isto não é para quem tem uma perspetiva a curto prazo.”
Adam Silver a dar explicações aos jornalistas
picture alliance
Sejam quais forem as projeções financeiras que começaram a ser transmitidas aos clubes e a fundos de investimento, ainda ninguém se atirou para os braços da NBA com total convicção. Desde logo, há um obstáculo inicial. As taxas de entrada podem variar entre $500 milhões e mil milhões de dólares, de acordo com o “Sports Business Journal”.
George Aivazoglou estima que o desporto no Velho Continente tenha o valor de $50 mil milhões. O basquetebol representa “menos de 0,5 disso”, tem repetido o diretor-geral da NBA Europa. Paulius Motiejunas, CEO da Euroliga, não espera que NBA venha “ensinar uma fórmula mágica”. “Conhecemos o nosso mercado. A Europa e os Estados Unidos são completamente diferentes. Estamos há 25 anos a desenvolver a competição e criámos o nosso produto. Sabemos como funciona”, disse ao “Diario AS”.