Golden State Valkyries, a equipa para apresentar ao amigo que pensa que o desporto feminino não gera dinheiro
Os adeptos das Valks chamam Ballhalla ao Chase Center
San Francisco Chronicle/Hearst N
As Golden State Valkyries existem há apenas duas épocas e já são a mais rentável equipa feminina do mundo, avaliada em mil milhões de dólares e com receitas de $100 milhões. Investiram na narrativa, criaram uma rede de bares que transmitem os jogos e promoveram-se nos transportes públicos. O pavilhão está sempre esgotado pelos portadores de bilhetes de época e por adeptos que conseguem entradas doadas ou vendidas a preços baixos. O plano é serem campeãs da WNBA, no máximo, em cinco anos
O número de lugares disponíveis no pavilhão é igual ao número de pessoas que o preenche. As almas que saturam a ocupação da cápsula agitam-se. O ambiente frenético aparenta complicar a comunicação entre os ocupantes de cadeiras vizinhas. O êxtase galga os limites do campo e contagia quem nele compete.
Oficialmente, a arena chama-se Chase Center. Tem 18.064 lugares e é em simultâneo a casa dos Golden State Warriors, donos de uma dinastia na NBA com quatro títulos conquistados entre 2014 e 2022. Em dia de jogo das Golden State Valkyries, o recinto muda de identidade: o soalho mostra parcialidade a favor da equipa da casa, os ecrãs pintam-se de lilás e os adeptos manifestam-se. A maquilhagem é tão profunda que os fãs rebatizam o pavilhão.
Diz-se que quem embarca neste poço emocional entra na Ballhalla, mais uma pincelada de mitologia no bilhete de identidade do franchise. No imaginário nórdico, as valquírias escolhem os guerreiros fenecidos para o panteão dos soldados mais nobres, chamado Valhalla. Colocando basquetebol (ball) e deuses numa trituradora nasceu esta alcunha.
Gabby Williams foi All-Star da WNBA em 2025 e 2026
Kavin Mistry
Gabby Williams só atinge o auge performativo nas condições laboratoriais da Ballhalla. “Sinto que tenho superpoderes quando estou aqui.” O frenesim transfigura a internacional francesa nascida no Nevada que em 2026 foi eleita pelo segundo ano consecutivo para o jogo das estrelas da WNBA e tem ajudado as Valks a atingirem o impensável.
A equipa começou apenas a competir há um par de temporadas. O fator casa mais temido da liga norte-americana de basquetebol feminino incentivou uma estreia histórica. Logo em 2025, o conjunto californiano atingiu os play-offs, feito que repetiu esta época. Ainda assim, a maior conquista foi ter posto a Ballhalla nas tendências.
“Uma festa durante duas horas”
Todos os jogos das Valkyries realizados em São Francisco nas últimas duas épocas a contar para a fase regular do campeonato (44) esgotaram. A adesão foi tal que, no ano passado, venderam-se 10.000 bilhetes de época ainda antes do primeiro jogo da história. A parada aumentou em 2026 com 12.000 apoiantes a garantirem o pacote.
Envolvidos na narrativa, os adeptos também quiseram ser personagens da epopeia. Toda a estratégia comercial por trás do lançamento das Valks foi direcionada para a fortificação do sentimento de comunidade. A organização escolheu o nome da equipa de acordo com inquéritos feitos aos fãs e através de opiniões expressas nas redes sociais. Os efeitos foram astronómicos.
As Golden State Valkyries são a primeira equipa feminina avaliada em mil milhões de dólares, fasquia inédita em todas as modalidades segundo a televisão responsável pela projeção, a CNBC. O marco foi acompanhado por receitas recorde no desporto praticado por mulheres a rondar, avança o portal “Sportico”, os $100 milhões.
Para atingir uma valorização tão relevante, foi preciso começar pelo início. Jess Smith tornou-se a funcionária número um da organização. O cargo de presidente foi-lhe entregue na expectativa de que semeasse uma estratégia de crescimento ao nível da desenvolvida enquanto diretora de receitas do Angel City, equipa de futebol feminino norte-americana alavancada por um consórcio de celebridades que cresceu exponencialmente na National Women’s Soccer League.
O raciocínio seguiu o efeito dominó. Enchendo o pavilhão e criando um ambiente hostil para os adversários, as californianas iam ter mais hipóteses de ganhar jogos. Por sua vez, as vitórias iam atrair patrocinadores. A linha lógica atirou o aperfeiçoamento da experiência em dia de jogo para o topo das prioridades. A treinadora Natalie Nakase sente que ocorre “uma festa durante duas horas” quando a equipa está em campo, descreveu há um ano no podcast “A Touch More” conduzido por Megan Rapinoe e Sue Bird.
As Golden State Valkyries foram a primeira equipa a integrar a WNBA desde o início do processo de expansão
San Francisco Chronicle/Hearst N
Ao contrário de outros contextos, o acesso aos jogos está ao alcance de qualquer carteira. Os lugares não ocupados pelos portadores de bilhete de época são doados ou vendidos a preços que podem começar nos $15. “Os bilhetes são só uma pequena parte do nosso negócio. Apenas 1% dos adeptos das mais bem-sucedidas marcas desportivas do mundo vão a um jogo na vida”, radiografou Jess Smith no podcast “Masters of Scale”.
O marketing ajuda a diversificar as fontes de receita. “Quando se vê lilás, as pessoas pensam em nós”, considerou a dirigente. “Temos 40 bares no norte da Califórnia a transmitir todos os jogos. A visibilidade é importante.” Na região, tornou-se inevitável tropeçar nas Golden State Valkyries, tão embrenhada que está a equipa. Durante a votação para o All-Star Game, as estações de comboio tinham QR-codes disponíveis para eleger as heroínas locais cujas camisolas são usadas por Steph Curry e Steve Kerr, membros dos Warriors.
O rácio positivo entre vitórias e derrotas (32-12, em 2026, e 23-21, em 2025) libertou um aroma que atraiu parceiros. O “The Athletic” conta 40 patrocinadores, um deles uma marca de maquilhagem que dá nome ao centro de treinos no qual foram investidos cerca de $1,5 mil milhões.
Tudo para provar
A WNBA encontra-se num processo de expansão. Em 2030, a liga vai contar com 18 equipas, mais seis do que em 2024. As Golden State Valkyries foram o primeiro franchise a integrar a competição na sequência do alargamento. Seguiram-se as Portland Fire e as Toronto Tempo. Os tentáculos chegarão também a Cleveland (2028), Detroit (2029) e Filadélfia (2030).
A popularidade da WNBA disparou desde a chegada de Caitlin Clark. O efeito da base das Indiana Fever nota-se na quantidade de público nos pavilhões, nas receitas e na chegada da prova a mais geografias. A valorização do produto levou à compensação das jogadoras. Foram necessárias longas negociações e uma ameaça de greve, mas assinou-se um novo contrato coletivo de trabalho que fez subir cinco vezes o salário médio (de $120.000 para $600.000) graças à aplicação de um modelo de partilha de receitas.
O potencial financeiro da WNBA encareceu a entrada das Golden State Valkyries. $50 milhões foi o valor que os donos da equipa tiveram que pagar pelo franchise. Joe Lacob, um dos proprietários, é ao mesmo tempo detentor dos Golden State Warriors. O empresário que fez fortuna a investir em pequenos negócios ligados às ciências da vida, tecnologias médicas, internet e energia voltou a apostar no desporto feminino após um falhanço nos anos 90. Nessa ocasião, apoiou a American Basketball League, um campeonato profissional de basquetebol que vacilou. A sorte parece ter virado.
Nakase tornou-se treinadora quando ainda não tinha jogadoras para orientar
Thearon W. Henderson
O objetivo de Joe Lacob é ver as Valkyries sagrarem-se campeãs em cinco anos. A tarefa está na prancheta de Natalie Nakase. A própria treinadora de origem japonesa quebrou barreiras ao tornar-se na primeira ásio-americana a orientar uma equipa da WNBA. Na verdade, quando foi contratada ainda não tinha jogadoras a quem dar ordens.
Enquanto equipa estreante, o plantel nasceu através de um draft de expansão. Todas as equipas da WNBA com plantéis já formados fizeram uma lista de seis jogadoras protegidas, ou seja, metade do plantel. As restantes ficaram à disposição para serem escolhidas pelas Valkyries.
As jogadoras foram recrutadas a partir de um lote de prescindíveis. Podiam não ter estatuto, mas queriam provar ser merecedoras de um lugar entre as melhores do mundo. Poucas eram as basquetebolistas que tinham tido nas equipas anteriores a relevância que lhes passou a ser exigida. O prémio de Most Improved Player, entregue a Veronica Burton em 2025, simboliza um desafio superado. Como reflexo da aposta no mercado internacional, a francesa Janelle Salaün foi considerada a melhor suplente em 2026.
Natalie Nakase, escolhida como melhor treinadora no anterior curso, aproveitou-se do desejo de vingança das jogadoras para construir uma equipa aguerrida que registou o melhor defensive rating da WNBA esta época (99,3) ao mesmo tempo que liderou a competição em triplos tentados por jogo (30,3).
Joe Mazzulla, treinador de Neemias Queta nos Boston Celtics, disse-lhe um dia: “Não tenhas medo de morrer.” Era uma metáfora para testar os limites. O conselho foi aplicado no sentido literal. Após pedir desconto de tempo na primeira ronda dos play-offs, Nakase desmaiou diante dos árbitros. Após se reerguer, ainda foi a tempo de desenhar a jogada que colocou as Valkyries na meia-final, um passo rumo ao anel.