Deixem-me explicar uma coisa, eu não sou o Sr. Samaris, sou o gajo, portanto, é isso que me tens de chamar. Isso, ou Sua Gajestade, ou El Gajodino, se não fores muito dado à brevidade. Samaris não é o gajo que está sentado, uma perna cruzada, as duas meio destapadas por calções, longos cabelos à profeta, um bigode e um pêra na barba, t-shirt larga e vincada, toda uma postura desapegada, excêntrica e hippiesca de quem fumou umas coisas para rir pela manhã.
Não é Jeffrey Lebowski, o ficcionado e auto-proclamado gajo, ali sentado, dentro de um gabinete, a explicar a um advogado engravatado, do lado oposto da mesa, que não é o tipo com o mesmo nome e apelido por quem o confunde. Ele é o gajo, coloquialmente traduzido de dude, emulado no primeiro par de frases, que em tudo é capaz de diferir de Andreas Samaris, menos na qualidade evidente: parecem ser gajos porreiros.
Bruno Lage trata o grego por gajo, têm “boa química”, gaba-lhe a capacidade, elogia-lhe a intensidade e escolhe 10 para o acompanharem contra o Moreirense, deixando-o ao centro de tudo. É Samaris quem mais passes (54) faz e toques (59) dá na bola até ao intervalo, é o médio que dá o primeiro vazão às jogadas, quem tenta ligar com ordem os primeiros 30 metros aos últimos.
Ele recebe, vira-se, toca curto, experimenta o passe longo, em diagonal, da esquerda para a direita, a acabar em alguém que ataque a profundidade com uma corrida de fora para dentro, coisa que sempre e muito tenta e, talvez, seja por aí que o treinador o tenha como o melhor médio a jogar contra uma linha de cinco, que, no caso do Moreirense, às vezes até seis tem. O adversário defende fechado, o bloco é baixo, os jogadores fecham todos atrás da linha da bola.
É o gajo que faz o primeiro remate (11’), à entrada da área, com pontaria pouco acima da barra. Vinícius contorna o guarda-redes e remata para a baliza não guardada por luvas, onde um Rosic corta a bola (23’) quase na linha. Taarabt remata rasteiro, frouxo e manso (25’), amostra que não faz jus à técnica elegante com que arrisca coisas e bate a pressão adversária com passes rasteiros, verticais e pelo meio. Rúben Dias desvia (37’), ao segundo poste, um cruzamento curvado de Rafa. E outro de Grimaldo bate (39’) no poste.
São cinco episódios mais flagrantes, nenhum sintomático de uma equipa a bem saber, bem tentar e bem executar coisas em ataque posicional, assim descrito quando uma equipa tem a bola, com calma, no meio campo dos outros, e tem de desmontar a organização do adversário.
O Benfica, porém, não joga bem com a largura para obrigar o Moreirense a abrir as marcações, na dúvida. Não faz a bola circular rápido, com constância. Não atrai de um lado para atacar o outro. Não cria, tabela ou tenta ao centro, fora as tentativas usuais (portanto, antecipáveis) de Pizzi, ou os passes de Taarabt que, quem os recebe, não decide com poucos toques. Era a sexta vez no campeonato que uma visita não rematava à baliza, mas o Benfica pouco fazia para lá do esperado e previsível.
Como seria, também, expectável, a equipa de Lage arrancou a segunda parte a acelerar mais as jogadas, as trocas de bola mais intensas, a insistir no que é eficaz, mesmo que surpresa para ninguém: um extremo a pedir a bola dentro, o lateral a atacar o espaço por fora, uma troca de passes a atrair atenções por dentro e a corrida desse alguém a receber um passe
Tomás Tavares acelerou-se, duas vezes, pela direita, até ter espaço para cruzar um par de bolas. A primeira bateu no braço de Gabrielzinho, deu penálti e foi rematada por Pizzi (47’), que não acertou na baliza. A outra bateu no corpo desesperado do português, ressaltou atabalhoadamente em Iago e Rafa resgatou-a para a baliza, mas o VAR tudo anulou (52’), devido a um braço de Pizzi na bola.
A emotividade destes momentos, o burburinho das poucas, mas audíveis, gentes na bancada, a urgência em desatar um nulo, tudo terá afunilado para a urgência em ir atrás de uma solução. A pressa terá contribuído para o resto. Saiu Weigl para entrar Dyego Sousa e o Benfica ter um segunda avançado e ficar com uma cabeça a menos que acelerava os passes, pensava em colocá-los tensos e rasteiros e tentava jogar de outra forma.
Da mesma forma, se bem que menos criativa e em zonas menos perigosas, que Taarabt, também tirado de campo para Jota, um extremo, ser mais um cruzador de bolas, e Pizzi, um falso extremo que já assumiu não nutrir carinho por jogar ao centro, ficar como médio.
No meio destas substituições houve um pontapé de baliza, batido longo, a que o Benfica reagiu partido, com os jogadores longe uns dos outros e moles a reagir. Pizzi não foi atrás de Abdu Conté, fugido para receber um passe na linha e cruzar para Fábio Abreu desviar o 0-1 na área. Poucos passes, muita velocidade, coisas simples e rapidamente o Benfica ficou com jogadores a defenderem-se na mó de baixo dos números e a sofrerem com isso. Pouco depois, um contra-ataque deixou Pedro Nuno a desperdiçar uma oportunidade nas barbas solitárias de Vlachodimos.
Sem os passes do alemão, e tirando as ideias do marroquino, o Benfica ficou com as esperadas jogadas entre laterais e extremos, muitos cruzamentos a serem tentados, em qualquer chegada perto da área. Ou seja, a multiplicar a mesma coisa, ou pequenas variações dela, uma e outra e mais uma vez, cada uma a ser mais previsível que a outra - e, por arrasto, mais fácil de defender, porque o Benfica, por costume, também não tem variado muito a sua forma de atacar.
Deu-lhe para Vinícius, rodando e de primeiro, rematar uma bola à malha lateral (71’) e Cervi se antecipar, quando já o pé de Alex Soares ia cortar outro cruzamento. Outro penálti parou para Pizzi, outro exemplo de como não inovar no que sempre se faz pode denunciar a previsibilidade: voltou a avançar para a bola olhando para o guarda-redes, ele não se mexeu, obrigou o batedor a escolher tarde e parou a escolha do capitão. Mas, na recarga, Pizzi conseguiu o 1-1.
O jogo já ia nos 91’.
Durou 100 minutos, sem que o Benfica, a repetir-se na previsibilidade, inventasse forma de ameaçar o Moreirense, acomodado a defender-se sempre do mesmo até lograr um ponto e tirar dois à equipa de Bruno Lage, que perdeu oito em menos de um mês e a 3 de março, portanto, fica com menos um que o FC Porto e sem a liderança do campeonato. Jogando sem rasgo, processos novos e aparentes em nenhures, sem mostrar que está a tratar de corrigir problemas há muito vistos.
Foi o sexto jogo do Benfica pós-derrota no Dragão. Desde então, ganhou apenas em Barcelos. Dores de ressaca ainda as há. São reais e não ficcionadas, como as do dude cinematográfico e bom malandro, porque sentidas são pelo gajo, vistosamente porreiro, aprendiz de um português impecável, a quem coube atirar as primeiras pedras palavreadas, ainda no relvado. “Era uma vantagem de sete pontos, pá… Dependíamos só de nós”, disse Samaris.
O gajo tem razão.