Cumpriu-se o protocolo? Que castigo pode levar Prestianni? Quais os precedentes? As perguntas e as (possíveis) respostas do caso Vinícius
Vinícius a queixar-se ao árbitro sobre o alegado racismo de Prestianni
Angel Martinez
Os regulamentos anti-racismo da UEFA estão mais virados para casos em que as ofensas venham do público, mas, se a denúncia for verdadeira, Prestianni pode apanhar “pelo menos“ 10 jogos de castigo. Em Espanha, vários adeptos de clubes adversários já foram presos por insultos racistas a Vinícius
Logo depois de ter feito o 1-0 com que o Real Madrid derrotou o Benfica, Vinícius Júnior queixou-se a François Letexier, árbitro da partida, quanto a uma alegada ofensa racista. O visado da acusação era Prestianni, o argentino das águias, que, de acordo com a versão do futebolista brasileiro, tapou a boca para dirigir-se ao adversário.
Após o apito final, Mbappé concretizou o conteúdo do alegado insulto. O francês disse ter ouvido Prestianni chamar “macaco“ a Vinícius, fazendo-o por cinco vezes.
O caso promete continuar a marcar a atualidade. Eis o que se sabe, o que dizem as regras e o que nos mostra o passado, particularmente em encontros da La Liga em que o jogador merengue se queixou de racismo, ainda que os precedentes mais fortes sejam de insultos vindos de adeptos, não de outros futebolistas.
Por que razão foi o jogo interrompido?
Feita a denúncia, o árbitro fez uma espécie de “X“ com os braços. Tal sucedeu porque François Letexier estava a ativar o protocolo anti-racista da UEFA.
Assim, de acordo com o anexo C do regulamento de segurança e proteção da UEFA, há três passos a dar quanto exista alegado racismo num desafio das provas europeias. Convém sublinhar, uma vez mais, que o espírito geral - e várias das concretizações normativas - destas regras está mais virado para quando os acusados são adeptos, não jogadores.
O encontro tem, primeiro, de ser interrompido. Deve-se realizar um anúncio, através do sistema sonoro do estádio, em relação às ofensas racistas, ordenando a que estas parem imediatamente. O jogo só pode proseguir na sequência desse apelo. Neste caso, nada saiu dos altifalantes do Estádio da Luz.
Vinicius e Prestianni no momento em que o brasileiro acusa o jogador do Benfica de um insulto racista
De seguida, caso as ofensas do público prossigam, o desafio é suspenso durante “uma quantidade de tempo razoável“, especificado nas normas por algo como “cinco a 10 minutos“. As equipas regressam aos balneários e o anúncio através do sistema sonoro é repetido. A partida é, depois, retomada. Caso o comportamento prossiga, isto é, caso os dois primeiros passos não tenham tido eficácia, dá-se o jogo por terminado.
Repita-se que este protocolo está particularmente direcionado para comportamentos de adeptos, não de futebolistas. Ainda assim, a interrupção que se verificou na Luz correspondeu ao ativar do primeiro passo dos procedimentos.
O que pode acontecer a Prestianni?
“A UEFA adotará uma política de tolerância zero perante o racismo“, lê-se no anexo B do regulamento de segurança e proteção. Escreve-se que serão aplicadas “sanções estritas“ perante “quaisquer formas de racismo durante um jogo“.
Entre diversas indicações perante o que fazer face a insultos com origem no público, o número sete deste anexo contém o quadro sancionatório que poder-se-á aplicar a Prestianni: “Qualquer jogador ou membro de uma equipa que seja culpado de conduta racista será suspendo por, pelo menos, 10 jogos.“
O mesmo documento apela a que os protagonistas do jogo não se calem perante casos de racismo: “Jogadores e treinador têm de ser líderes na luta contra o racismo. Denunciem-no - é parte do vosso dever para com o futebol.“
Vinicius e Prestianni no momento em que o brasileiro acusa o jogador do Benfica de um insulto racista
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Caso a infração venha das bancadas, e não seja algo reincidente, a zona do estádio de onde vieram os insultos será encerrada. Caso seja a segunda vez que um episódio de racismo suceda, haverá um encerramento total do estádio, bem como uma multa. Estabelece-se ainda que os adeptos condenados por racismo devem ficar proibidos de frequentar estádios. Novamente, a maior parte destas previsões normativas dizem respeito a espetadores, não a jogadores.
A UEFA já reagiu?
Já. Em comunicado, a entidade máxima do futebol europeu informa já ter recebido os “relatórios oficiais“ dos quatro encontros da Liga dos Campeões disputados a 17 de fevereiro, os quais estão a ser “analisados“.
Nos casos em que haja denúncias em concreto, diz a UEFA, serão “abertos procedimentos“ os quais, “caso levem à imposição de sanções disciplinares“, serão comunicados a seu tempo. “Não temos mais informação a dar ou comentários a fazer nesta fase“, lê-se.
Já ao final da manhã de quarta-feira, a UEFA referiu-se especificamente a este caso. Um "inspetor ético e disciplinar" foi nomeado para "investigar alegações de comportamento discriminatório" durante o Benfica-Real Madrid. "Mais informações serão dadas no seu devido tempo", indica-se.
Vinícius acusou um adepto do Valencia de ofensas racistas em 2023
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O que sucedeu no passado quando Vinícius fez acusações de racismo?
O mais significativo caso a envolver o brasileiro sucedeu a 21 de maio de 2023, no Mestalla, contra o Valencia. A fechar uma época em que os insultos racistas vindos das bancadas face ao avançado foram especialmente audíveis e reincidentes, o jogador parou o desafio e apontou o dedo para uma zona do estádio, atrás de uma das balizas.
Na sequência do sucedido, foi decretado o encerramento parcial do estádio em três encontros e 27 mil euros de multa para o Valencia. Adicionalmente, uma denúncia da La Liga na justiça, à qual se somaram o jogador, a federação espanhola e o Real Madrid, levou a que, em junho de 2024, três adeptos fossem condenados a oito meses de prisão efetiva, uma sanção inédita no país. Os culpados foram ainda impedidos de entrar num estádio de futebol durante dois anos e tiveram de ler uma carta a pedir desculpa.
Um ano antes, em 2022, adeptos do Valladolid insultaram Vini com gritos de "puto negro". Quatro pessoas viriam, em 2025, a ser condenadas a um ano de prisão, proibição de exercer profissões na área da educação ou do treino desportivo de jovens durante quatro anos e de frequentar estádios de futebol durante três anos.
Na época 2022/23, um adepto do Maiorca dirigiu insultos racistas a Vinícius e, também, ao nigeriano Samuel Chukwueze, então no Villarreal. Os dois clubes e a La Liga uniram-se na denúncia e o culpado foi condenado a 12 meses de prisão, ainda que com pena suspensa por “ter mostrado arrependimento“, além de ficar três anos proibido de ir ao futebol.
A 26 de janeiro de 2023, apareceu numa ponte de Madrid um boneco pendurado, como se tivesse sido enforcado, tendo vestida a camisola de Vinícius Júnior. “Madrid odeia o Real“ era a mensagem que acompanhava o boneco. Quatro pessoas foram condenadas no âmbito do caso, uma com 22 meses de prisão, outras três com sete meses cada.
A 18 de fevereiro de 2023, a La Liga apresentou queixa no âmbito de alegados insultos durante um Osasuna-Real Madrid, mas o caso viria a ser arquivado. A 21 de outubro do mesmo ano, um adepto do Sevilha foi expulso do estádio pelo próprio emblema andaluz, que o entregou às autoridades, devido a alegações de racismo face a Vinícius.
Notícia atualizada ás 12h58 com referência à nomeação de um inspetor por parte da UEFA.