“Se” Prestianni for culpado, a carreira com Mourinho ”acabou”. Mas o treinador lembra a Declaração Universal dos Direitos do Homem
Diogo Cardoso - UEFA
Na antevisão à ida ao terreno do Gil Vicente (segunda-feira, 20h15, Sport TV1), o técnico falou após o silêncio de Madrid. Sobre o caso de alegado racismo contra Vinícius, questionou se a "presunção de inocência é um direito humano ou não" e reiterou que, depois do encontro da Luz, teve "a posição correta". Houve ainda espaço para indiretas à arbitragem, mencionando haver a "classificação real e a virtual"
No acelerado ritmo de 2026, e particularmente no vertiginoso quotidiano do futebol de 2026, com jogos e jogos e mais jogos, estar uns dias sem falar soa quase a voto de silêncio. Particularmente quando o protagonista é José Mourinho, que há duas décadas faz da sala de imprensa um espaço quase tão importante como o relvado.
Castigado perante o Real Madrid, o setubalense não falou nem antes, nem depois da deslocação ao Santiago Bernabéu. Na última partida para a I Liga, diante do AFS, o treinador optou por uma estratégia que vai sendo recorrente, não fazendo conferência de antevisão do desafio — só à BTV — e apenas falou após o simples embate perante o último classificado da tabela.
Desta forma, as declarações de Mou perante os jornalistas na véspera da difícil deslocação ao terreno do Gil Vicente (segunda-feira, 20h15, Sport TV1) tinham quase um aroma a regresso à arena. E foi, efetivamente, uma manhã de frases fortes no Seixal.
De barba de alguns dias a conferir um aspeto mais bélico à sua face, José Mourinho levou um papel para a mesa, baixando o olhar quando pretendia lembrar-se das notas que apontara. A cábula foi particularmente importante quando o assunto Vinícius Júnior-Prestianni foi abordado.
Antes de haver a pergunta direta sobre o caso, o português quis, ele próprio, tomar as rédeas da conversa: "Eu, enquanto cidadão e treinador, repudio qualquer tipo de discriminação, preconceito e ignorância. Ponto final parágrafo", assegurou.
José Mourinho a falar com Vinícius Júnior, no Estádio da Luz, após o jogo ser interrumpido pela denúncia do brasileiro ao árbitro
JOSE SENA GOULAO
Ainda assim, o bicampeão europeu tinha uma sugestão de leitura a fazer: "Aconselho algumas pessoas a perderem cinco minutos a ler a Declaração Universal dos Direitos do Homem". Minutos depois, concretizaria o propósito da consulta. "A presunção de inocência é um direito humano ou não?", questionou.
Sobre os reparos que foram sendo feitas às suas palavras após a primeira mão da eliminatória contra o Real Madrid, Mourinho defendeu-se alegando que tomou "a posição correta" sobre o caso e que "as críticas refletem mais os críticos do que aquele que foi criticado".
Quanto a Prestianni, que ficou de fora do segundo duelo contra os merengues por castigo da UEFA, José Mourinho quis sempre colocar um "se" na eventual culpa do argentino, mas revelou que, caso o jovem seja culpado, não pretende continuar a trabalhar com o jogador.
"Se se provar que o meu jogador não respeitou esses princípios [da tolerância e contra o racismo] que são os meus e os do Benfica, a carreira desse jogador com o treinador José Mourinho e com o Sport Lisboa e Benfica chega a um fim. Não sou um letrado, mas também não sou um ignorante. Coloco a presunção de inocência e meto sempre um se. Infelizmente, a UEFA para afastar o jogador do jogo, preferiu olhar para o artigo 426328 para o retirar do jogo, e foram na direção de não se meter 'ses'. Se o jogador for efetivamente culpado, não vou voltar a olhar para ele da mesma maneira e, comigo, acabou. Mas tenho de pôr muitos 'ses' à frente", explicou.
"Estamos a jogar dois campeonatos"
Ainda da ida do Benfica à capital espanhola ficou a polémica por Sidny Cabral ter pedido a Vinícius para trocar camisola com o brasileiro. Mourinho entende que o gesto do ex-Estrela "não é criticável", mas era "evitável". É uma "prática normal e corrente", classificou o técnico, que é "ainda mais natural com jogadores" que merecem "admiração" por "serem de um nível estratosférico", no entando era "evitável pelo que aconteceu durante a semana.
Uma garrafa atirada por adeptos da bancada no Estádio da Luz que rasou Vinícius Júnior durante o Benfica-Real Madrid, jogo em que Prestianni foi acusado de proferir um insulto racista contra o jogador brasileiro
Para visitar o Gil Vicente, que ocupa um excelente quinto lugar da I Liga, o Benfica não contará com os lesionados Sudakov e Bruma, sendo que Lukebakio, também fisicamente condicionado, não está em condições de ser titular. Mas, quanto à I Liga, Mourinho preferiu falar em enigmas.
Questionado sobre o penálti do FC Porto contra o Arouca, o líder do banco das águias disse não ter visto o lance. Logo a seguir, entrou num clássico jogo de insinuações mourinhistas, falando na "classificação real" e na "virtual" e atirando que o Benfica joga "dois campeonatos": "Quero ficar com um campeonato que seja um único campeonato e não dois. Jogar ao mesmo tempo o campeonato real e o virtual, eu não gosto."
A meio da conferência, Mourinho também soltou uma frase tradicional do seu catálogo — "O Benfica não me paga para eu vos dar explicações" —, aproveitando, também, para usar a campanha na Liga dos Campeões para exemplificar o crescimento do coletivo: "Devemos destacar que esta equipa passou de ser humilhada em casa pelo Qarabag para ser eliminada desta forma pelo Real Madrid."