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José Mourinho: “Custa-me dizer, mas é tão óbvio, sem o Aursnes a nossa música é diferente“

José Mourinho foi expulso durante a segunda parte do Benfica-FC Porto
José Mourinho foi expulso durante a segunda parte do Benfica-FC Porto
Carlos Rodrigues

O treinador do Benfica não apareceu na flash interview após o empate (2-2) no clássico com o FC Porto, onde viu um cartão vermelho. Mourinho foi direto para a conferência de imprensa, onde falou de Lucho González, que lhe chamou traidor, da dupla de meio-campo que não pôde ter, da desorganização da equipa e do “golo absolutamente ridículo" que sofreu

Qual a razão para ter sido expulso?

“O árbitro diz que me expulsou porque rematei uma bola para o banco do FC Porto, o que é completamente falso. Não sei se foram três, quatro ou cinco, mas já fiz muitas vezes na Luz golo nosso, bola para a bancada. Uma maneira de celebrar e dar bola ao sortudo do adepto. Sei que tecnicamente não sou muito bom, mas era para a bancada. Relativamente à expulsão, o elemento do banco do FC Porto que também foi expulso e que no túnel chamou-me 50 vezes traidor. Gostava que ele me explicasse: traidor de quê?

Estive no FC Porto, dei a alma ao FC Porto. Fui para o Chelsea, para o Inter, Real Madrid, Fenerbahçe, dei a volta ao mundo e dei a alma, a vida todos os dias. A isto chama-se profissionalismo. Uma coisa são os insultos dos adeptos. E isso é futebol. São os mesmos adeptos que há anos não podia andar na cidade, que se ajoelhavam aos meus pés. Agora insultam-me. Não há problema. Mas um colega de profissão chamar-me traidor? Traidor de quê? De dar tudo ao Benfica? Se amanhã sair do Benfica e for para o E. Amadora, U. Leiria ou Moreirense, vou dar o mesmo. Traidor de quê? Não gostei. Fui mal expulso. O 4º árbitro fez um trabalho péssimo durante todo o jogo e continuo a fazê-lo quando disse isso ao árbitro.“

Quem lhe chamou traidor?

“O Lucho. Mas não foi uma vez, foram 20 ou 30. Ele quando foi para o Marselha, era traidor? Traidor de quê? Podia ter-me insultado de uma maneira que eu aceitasse melhor, mas acho que foi um ataque ao meu profissionalismo, que é algo que prezo tanto. Onde estamos, vamos com tudo. Fiquei um bocadinho desiludido no sentido em que é um profissional como eu, defendeu diferentes camisolas. Não entendi a do traidor.“

A análise ao jogo (e à superioridade do FC Porto)

Durante grande parte, o FC Porto esteve mais perto de ganhar do que nós. Pode gostar-se muito ou menos, ou detestar-se, mas o FC Porto construiu uma equipa com uma ideia. É aquilo que querem, a maneira como jogam, o perfil é para aquele modelo de jogo. É uma equipa de uma fisicalidade tremenda. É muito difícil jogar contra o FC Porto. Tem quatro alas e qual deles o mais rápido... São muito superiores a nós na intensidade do jogo. O jogo que fizemos melhor contra o FC Porto dos três foi o da Taça. Aursnes e Barreiro no meio-campo e tivemos muita bola. Quando perdes muita bola contra o FC Porto vais correr atrás deles. Mas eles vão de mota e tu de bicicleta. O perigo esteve sempre aí.

Eles fizeram o jogo que queriam fazer. Levam um resultado que acho que é bom para eles. Mas acho que vieram para ganhar, nem sequer acho que vieram para defender. Apanharam-se em vantagem e depois são peritos na gestão do jogo, dos tempos, nas faltas, nos cartões, no protesto... E depois levam o João Pinheiro atrás. Mas acho que fizeram o seu jogo, um grande jogo. Nós fizemos uma péssima 1.ª parte, permitimos que jogassem o jogo que queriam. Senti-me muito limitado porque, apesar de não gostar muito de o fazer, é óbvio que tenho de o fazer. Uma coisa é jogar com Aursnes e Barreiro, outra com Enzo e Ríos. Não digo que uns são melhores do que os outros, mas o perfil é completamente diferente. E para o FC Porto foi muito melhor o Benfica que fomos. Na 2.ª parte, a minha preocupação ao intervalo, estando muito limitado com as substituições, porque o Barreiro não podia fazer mais de 10/15 minutos... Foi ele próprio que definiu os timings. Disse 'mister, 10/15 numa situação limite'. Manu é muito parecido com o Enzo. O Sudakov igual ao Barreiro, muito parecida com o Barreiro. E o Lukebakio a crescer, mas ainda sem condições para o ter metido ao intervalo.

A minha preocupação ao intervalo foi equilibrar a equipa psicologicamente. Não quis que, por estar a perder 2-0 e a fazer um jogo horrível, a equipa pensasse 'vamos rebentar com eles'. Eles é que rebentavam connosco se não fossemos equilibrados. E quando eles tiram dois Ferrari para meterem dois McLaren, o risco estava sempre ali. Ao intervalo dissemos que se fizéssemos o 2-1, o jogo poderia mudar como mudou. E foi coração, foi orgulho, foi desejo de ganhar, foi desejo de 'se não ganhares, não perdes'. Jogamos por nós e por uma classificação, também pelos adeptos e signficado do jogo. Mas diria que, de acordo com o que eles e nós queríamos fazer, eles foram mais fortes.

O golo absolutamente ridículo

O FC Porto conseguiu sem dúvida marcar superioridade, mas também em função do que foi o nosso jogo. Já expliquei que o jogo em que sentimos estar a dominar foi na Taça, dominar verdadeiramente. Praticamente sem nenhuma perda de bola. Bola em nosso poder. Fizemos um grande jogo. E hoje, logo desde o princípio, muita bola perdida. Depois, uma intensidade física. Não se trata de condição física, mas sim de ADN. Vemos o perfil dos jogadores do FC Porto e é completamente diferente do nosso. A velocidade dos alas, o poder dos dois médios. As substituições que fazem. Sai um, entra o Fofana. Saem alas, entram outros. Ainda têm mais dois avançados no departamento médico.

Se não tens um grande controlo do jogo e entras num jogo de parada resposta, vai aqui e vai ali, não tens hipótese absolutamente nenhuma. Fizemos isso na 1.ª parte, o segundo golo que sofremos é absolutamente ridículo. O ala esquerdo do FC Porto aparece num um contra um contra o central esquerdo do Benfica. Onde estavam o ala direito, o central do lado direito, o duplo pivô? Cometemos erros. O FC Porto fez uma ótima 1.ª parte, mas o Benfica cometeu muitos erros e entregou o jogo ao FC Porto. Na 2.ª parte conseguimos inverter as coisas. Mas a sentirmos sempre as mesmas dificuldades na transição.

Estava a ver a flash do Farioli e disse que tiveram quatro ou cinco situações a campo aberto. É verdade. Não foram situações de golo porque não conseguiram ser eficazes com o Pietuszewski. Essas situações a campo aberto não podes ter. Tens de ter controlo, segurança. E eu não gosto nada de o fazer, mas a coisa é tão óbvia que tenho de fazer. Sem Aursnes, a nossa música é diferente.

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