Benfica

Marco Silva, o treinador que não disse que não ao Benfica

Marco Silva treinou o Fulham durante cinco anos e as últimas quatro épocas foram na Premier League
Marco Silva treinou o Fulham durante cinco anos e as últimas quatro épocas foram na Premier League
Jacques Feeney/Offside

Onze anos depois de sair do Sporting com polémica, acusado de não vestir um fato e vagando lugar para um treinador mais badalado, Marco Silva volta a treinar um grande de Portugal, agora graças à saída de outro técnico maior em tarimba. Aos 48 anos, vem de quatro épocas seguidas na Premier League onde mostrou capacidade para se adaptar ao que tinha, qualidade que será útil no clube da Luz

O berbicacho teve calças, uma camisa, casaco e sapatos. Estava Marco Silva no Sporting quando o clube já não queria que ele lá estivesse e escreveu uma nota de culpa, extensa em 400 páginas, nas quais o acusava de falhas várias e, aos seus olhos, justificativas de um despedimento por justa causa. Uma delas eram as quatro peças de roupa obrigatórias do fato oficial do clube que não vestiu num de mais de 50 jogos da época, verdade que Bruno de Carvalho alegava para se livrar de um treinador e contratar outro.

A barafunda do verão de 2015, farta em diz-que-disse, culminou na saída do pecador que não se pôs janota num só jogo, vagando espaço em Alvalade à entrada de um técnico mais tarimbado, bastante cheio de si, dado a vangloriar-se dos seus feitos: despedido Marco Silva de um Sporting em fase sismógrafo, instável nos altos e baixos, entrou Jorge Jesus. Onze anos depois, os papéis meio que se invertem.

De novo envolvido com um grande de Portugal, agora o Benfica, viu-se embrenhado noutro entra-e-sai com um treinador de currículo mais regalado, aficionado de puxar o lustro às próprias conquistas, também grisalho, mas de lógica ao contrário - foi a conturbada saída de José Mourinho, rendido aos encarnados à chegada, comprometido com o Real Madrid à saída enquanto ainda estava tecnicamente na Luz, a abrir espaço à contratação de Marco Silva, confirmado esta terça-feira como novo treinador do Benfica.

Como uma década muda as coisas.

Dito o “não” do treinador que entrou na Luz a perguntar “quem é que diz ‘não’ ao Benfica?”, transformando-se em resposta a ele próprio dando um “sim” literal e público a Florentino Pérez, os encarnados tiveram de procurar alguém que os assentisse. A resposta veio de Londres, onde Marco Silva contou as últimas quatro épocas na Premier League no clube a norte do Tâmisa, colado à margem do rio, único a manter a traça original de estádio antiquado numa das bancadas, com postes a obstruírem a vista para o relvado e coberta por um telhado de duas águas.

Marco Silva sentado numa conferência de imprensa antes de um jogo da Champions, nos tempos de Sporting, em 2014
Alex Grimm

O português estancou o fado de o Fulham ser uma equipa iô-iô, que subia à primeira divisão para descer logo na temporada seguinte: terminou no 11º lugar esta época, igual a 2025, melhor do que o 13º de 2024 e aquém do 10º em 2023, após ser campeão do Championship. “Atingimos muito juntos. O Fulham estará sempre no meu coração”, disse na despedida dos londrinos que o queriam por mais cinco anos, mas a quem disse que não.

A culpa é do Benfica, onde Marco Silva cumpre a profecia em forma de questão de José Mourinho, seduzido pelo contexto muito próprio, deveras microclimático, do Real Madrid para lhe proporcionar um regresso que já pouco se vislumbrava à elite no futebol europeu. Usado como bandeira de campanha por Florentino Pérez sendo ainda treinador do Benfica, houve uma pitada generosa de ironia no salsifré: apareceu vestido à Real Madrid num vídeo de campanha com a mesma camisola que Sidny Lopes Cabral pediu a Vinícius Júnior, no Santiago Bernabéu, na 2ª mão do play-off da Champions e em plena polémica de foi-não-foi-racismo com Gianluca Prestianni.

Mourinho comentou então que a situação “era evitável”. Desta feita, dos bastidores disseram que o seu vídeo trajado à Real Madrid nunca aconteceu - foi uma fabricação de Inteligência Artificial.

A reeleição do presidente merengue, no domingo, era a pendência que faltava para o treinador que se descreveu como especial voltar a Madrid, treze anos volvidos, e quem não se tem como “uma pessoa fácil de lidar por ser muito ambicioso” retornar a Lisboa.

Marco Silva e a adaptação

O “sim” ao Benfica de Marco Silva, lisboeta de gema, um lateral direito nos tempos de jogador acabados abruptamente, no Estoril Praia, para virar diretor-desportivo e treinador num pestanejar, catapulta-o para ser o 22º português a treinar os encarnados. Chega a um clube carente de se recompor após uma época rocambolesca no banco (dois treinadores), desapontante no relvado (sem troféus, 3º lugar no campeonato), mediática no circo (as eleições mais concorridas de sempre) e ladra de tempo à próxima temporada devido à gracinha do Torreense na Taça de Portugal.

Condenado a entrar nas eliminatórias iniciais da Liga Europa, o clube arranca a pré-época a 25 de junho, quando o Mundial ainda nem a meio for, obrigando Marco Silva a espreguiçar os trabalhos sem vários jogadores fulcrais na teoria.

Noticiou-se que houve finca-pé do treinador durante as negociações do seu contrato, assinado para dois anos com mais um opcional, para serem maiúsculas as palavras que tenha a dizer na política desportiva do Benfica e nas contratações. Encerrados cinco anos no Fulham onde nem sempre foi apetrechado nas idas às compras como alguns adversários diretos na abastada Premier League, o treinador terá feito a sua parte para não lhe acontecer semelhante coisa no Benfica. Adaptou-se às circunstâncias em Inglaterra, nunca se mostrando rígido de ideias e intransigente quanto à forma como pretendia jogar.

Eis o ponto no qual Tomás da Cunha centra o seu resumo do encaixe que Marco Silva pode ter no Benfica. “É um treinador com capacidade de otimizar os recursos do plantel e isso pode ser importante para a fase que o clube atravessa”, realça o analista da Tribuna Expresso e comentador semanal na DAZN, há vários anos, dos jogos da Premier League. “A capacidade de jogar em mais do que um sistema e surpreender o adversário nesse sentido - entre o 4-3-3 e um sistema com três centrais, formando um quadrado no meio -, e a forma como se adaptou aos jogadores. Teve médios mais defensivos, quase trincos, ou um mais organizador; na frente, teve Mitrovic, Raúl Jiménez ou Rodrigo Muniz, todos muito diferentes entre si.”

Marco Silva a festejar um golo do Fulham: o treinador português comandou o clube em 229 jogos
Molly Darlington

Algo saltimbanco durante os anos pós-Sporting, indo a Atenas ser campeão grego com o Olympiakos antes de experiências fugazes, com menos de uma época, no Hull City e no Watford, também pouco ficou no Everton antes de assentar arraiais em Londres. À primeira época no Fulham conquistou o Championship, subiu e cimentou o clube na Premier League, camaleónico na forma de jogar.

Na segunda divisão inglesa “era mais dominador”, lembra Tomás da Cunha, "tinha outra capacidade de gerar combinações por fora para servir o Mitrovic", um avançado matulão, de área, nascido para ser servido. “Esse foi logo a primeira dificuldade de adaptação ao cenário da Premier League. Tinha um jogador forte como pivô e, principalmente, como finalizador dentro da área, essa talvez seja o principal destaque na carreira de Marco Silva na Premier League: a forma como foi transformando nos perfis e no sistema.” Largou um pouco o seu 4-3-3 predileto, aos poucos adotou um sistema de três centrais com um quadrado de médios à frente.

Tanto tirou proveitos de um médio com queda para destruir, 6 de martelo e marreta na figura de João Palhinha, como alternou as dinâmicas para aproveitar Sander Berge, norueguês mais de jogo, com qualidade na organização que contratou para suprir a venda do português. Marco Silva foi ainda alquimista de outra proeza, a de resgatar alguns jogadores que estavam no plantel sem grandes oportunidades que viraram peças importantes, lembra o analista, indicando Harry Wilson como o caso flagrante - “um jogador que nunca tiver importância grande como titular até esta temporada.”

Esse olho do treinador calhará bem ao Benfica, acolhedor de alguns casos dessa estirpe, Richard Ríos um exemplo pelas características peculiares, valiosas na pressão e no transporte de bola, mas desafiantes na jiga-joga de um meio-campo se apontar ao domínio, ou Enzo Barrenechea, virado para construir jogo, com calma, mas carente de proteção de quem jogue perto dele para os momentos em que a equipa perde a bola.

Marco Silva disse que sim ao Benfica, por arrasto um sim a todas as concomitâncias de um clube que a cada verão recente tem transmutado as suas prioridades a contratar, sem um fio condutor óbvio. Passados 11 anos, o treinador que se dedicou à prancheta da tática quase sem querer, convidado a deixar o escritório de diretor-desportivo para vestir o fato de treino no banco de suplentes, no Estoril Praia, aceitou o desafio de recolocar o Benfica no trono português. Não foi ele o treinador a dizer que não.

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