Rui Costa falou de Marco Silva para se explicar, e para se confessar: “Mourinho sabia perfeitamente que era o treinador que eu queria“
Rui Costa a responder às perguntas dos jornalistas sobre a saída de José Mourinho e a chegada de Marco Silva
TIAGO PETINGA
Assumiu que esta época foi “muito negativa” e “frustrante”, pediu desculpa aos adeptos e garantiu que, mesmo sem Liga dos Campeões, o clube não vai pôr “todos os jogadores à venda”. Após semanas de incerteza quanto a Mourinho, Rui Costa convocou uma conferência de imprensa para explicar que o Benfica “esteve sempre no controlo da situação” e, apesar de a sua vontade ser continuar com o treinador que preferiu estar em Madrid, “o Marco é o treinador ideal“ para os encarnados
Feita uma ronda de perguntas da parte de todos os jornalistas na sala, Rui Costa varreu-os com o olhar e devolveu a gentileza, questionando se não sobrava alguma dúvida por esclarecer. Disponível perante o microfone, o presidente do Benfica prestou-se a elucidar após um par de semanas rocambolescas, envoltas em neblina constante, não tanto provocados por si ou pelo clube, mas prolongadas pelo homem que o líder encarnado pretendia ainda ter como companhia.
Rui Costa não o escondeu, mesmo já de aperto de mão dado a Marco Silva: queria ter continuado com José Mourinho, o homem que se justificou, à chegada em setembro do ano passado, com a tirada “quem é o treinador que diz que não ao Benfica?”, dormindo nesse mesmo dia no Seixal e despertando com os passarinhos no centro de treinos, partilhando uma foto do nascer do sol. Mas, após o último jogo do campeonato, Florentino Pérez começou a rondar Mourinho, o técnico suscetível foi ao cortejo e o vai-não-vai durou até ao presidente merengue ser reeleito, deixando o Benfica num banho-maria de incerteza.
Mas Rui Costa assegurou que “em nenhuma circunstância“ o clube ficou “nas mãos de ninguém“, dizendo que controlou “sempre a situação“ e “todos os cenários foram previstos e equacionados e analisados“. Em conferência de imprensa que arrancou, com pertinência, a menos de duas horas do jogo inaugural do Mundial, o presidente do Benfica colocou-se ao dispor para falar do turbilhão da última quinzena e, pelo meio, “pedir desculpa aos benfiquistas” pela época que “defraudou todas as nossas expectativas“.
O que se segue é o essencial do dito pelo presidente do Benfica.
Um resumo das últimas semanas
“Como se lembra, após o último jogo do campeonato, com o Estoril, José Mourinho disse na conferência de imprensa que ia decidir o seu futuro naquela semana e a partir do momento em que se meteram eleições no Real Madrid e ele assumiu que ia aceitar a proposta se Florentino Pérez ganhasse, fez com que tivéssemos de ser prudentes, mais pacientes, gerir a situação sob controlo e aguardar pelo desfecho das eleições para poder dar explicações sobre a época e o futuro do Benfica - com ou sem José Mourinho.
Não podíamos ser levianos numa situação dessas. Esta paciência veio dar-nos razão. Lamento só estar a falar agora, mas o processo demorou muito mais do que estávamos à espera. Havia uma cláusula, o Benfica não podia dar o primeiro passo e arriscar cometer algum erro. Acabou por surtir o efeito que vocês conhecem.”
Por que apresentou uma proposta de renovação a Mourinho?
“Fizemo-la na altura que entendemos, fomos conversando sobre isso e Mourinho sabia perfeitamente que era o treinador que eu queria para a próxima época. Tinha contrato e entendíamos que íamos renovar no final da temporada, não o deixamos começar a próxima estando a um ano do fim do contrato. Foi o fizemos, mas a sua escolha foi outra.”
Mas o Real Madrid já tinha aparecido aí?
“Basta lembrar a última conferência de imprensa de José Mourinho onde disse que tinha 99% de hipóteses de ficar no Benfica. Portanto, não fizemos a proposta por haver, ou não, o Real Madrid. A primeira vez que me é perguntado se Mourinho continua no Benfica é a seguir ao jogo do Casa Pia [início de abril] e, nessa semana, assumi que era o meu treinador para o ano seguinte.”
E a famosa cláusula?
“Vamos esclarecer. Quando essa cláusula foi feita, permitia que se eu não ganhasse as eleições, quem chegasse ao Benfica pudesse ter uma mobilidade diferente para continuar, ou não, com José Mourinho. Essa cláusula valia para o Benfica e para José Mourinho - se o clube quisesse despedir, tinha de pagar €7 milhões, o mesmo se Mourinho quisesse sair. Essa cláusula é só para estas duas partes. Em qualquer momento, se algum clube quisesse José Mourinho teria de pagar sempre os €15 milhões.
Ainda não recebemos os €15 milhões, mas estão garantidos e a chegar a qualquer momento, faz parte das burocracias.”
Rui Costa garantiu que o Benfica não vai colocar “todos os jogadores à venda“ por não se ter qualificado para a Liga dos Campeões
TIAGO PETINGA
O Benfica ficou dependente do Real e de Mourinho
“Não ficou absolutamente nas mãos de José Mourinho ou do Real Madrid, apenas teve de aguardar o desfecho do processo eleitoral. Em nenhuma circunstância ficámos nas mãos de ninguém, controlámos sempre a situação, todos os cenários foram previstos e equacionados e analisados. Estávamos prontos para qualquer cenário do lado de lá. O facto de ter estado em silêncio neste período não fez com que o clube estivesse parado - não se pode confundir a espera com o clube ter ficado bloqueado. O Benfica trabalhou para estar pronto para a próxima temporada.
Nada neste processo atrasou o nosso andamento para a pré-temporada: programámos, trabalhámos, vamos entrar nas pré-eliminatórias da Liga Europa com tudo já escalonado e planeado. Nada disto atrasou a nossa preparação.”
Se Florentino não ganhasse, Mourinho era treinador do Benfica?
“Depois de todo este turbilhão à volta das eleições do Real Madrid tivemos que nos fazer ao caminho e, por consequência, Mourinho não seria o treinador na próxima temporada. Havia um acordo de cavalheiros. Tenho de respeitar a decisão do treinador, foi um imprevisto, tenho de seguir e procurar as melhores soluções para o Benfica.”
O vídeo de Mourinho com Inteligência Artificial
“Na primeira situação fiquei incomodado, não o vou esconder, mas recebemos uma justificação clara de como isso tinha sido processado e, internamente, isso ficou resolvido.”
O que espera de Marco Silva?
“Trazer os títulos que tanto ambicionamos. O Marco é o treinador ideal para o Benfica, o que tem feito na sua carreira dá-nos essa esperança. Estou muito ambicioso com esta escolha. O sucesso de Marco Silva será fundamental, é isso que esperamos.”
É o quinto treinador português da era Rui Costa
“Procura, e procurarei sempre, que os nossos treinadores tenham o maior prazo possível no clube. A aposta no treinador português, porque gosto dos treinadores portugueses, é porque considero Marco Silva um grande treinador. A partir do momento em que pude chegar a ele, as outras escolhas que poderia ter ficaram eliminadas.
Não deixa de ser engraçado que eu ainda hoje seja tão criticado por, em março de 2023, renovar com um treinador [Roger Schmidt] que a nove jornadas do fim tinha 10 pontos de avanço no campeonato - e agora ser criticado pelo contrário. Mourinho sempre soube da minha parte que não ia começar a próxima temporada sem contrato. Nunca esteve em causa a continuidade de Mourinho, ele sabe-o perfeitamente. A proposta oficial a Mourinho surge antes da última jornada.”
O que pediu Marco Silva e o lado financeiro
“A imprensa dizia que o Marco Silva exigia isto e aquilo e ainda não tínhamos chegado a acordo em termos financeiros. Mostrou desde o princípio um grande interesse em vir para o Benfica. É evidente que ir buscar um treinador à Premier League nunca é fácil, e houve aqui o respeito de percebermos o valor do Marco Silva e o respeito de Marco Silva perceber que vinha para Portugal e não podia ter valores similares ao que se paga no campeonato mais caro do mundo. Depois, a vantagem de ser português e de ser do Benfica permitiu-lhe ver os jogos ao longo do ano e estar a par do que são as lacunas e as virtudes do plantel. É um treinador exigente, ainda bem para nós.”
O mercado
“Os jogadores não são todos negociáveis, obviamente, não pudemos todos à venda. Claro que não termos Liga dos Campeões vai obrigar-nos a alguns esforços, mas a nossa ideia é manter o grosso do plantel, as pedras principais, e retocá-lo. Desde logo, a olho nu, a saída de Otamendi vai obrigar a reforço nos centrais, mais um ou outro que for necessário. Depois, aquilo que o mercado nos vier a dar é aquilo em que vamos mexer. Estaremos prontos para apetrechar a equipa para poder lutar por todas as competições condignamente.”
Esta foi a sua pior temporada enquanto presidente?
“Essa foi logo a primeira, também não ganhámos nada. Este é um ano frustrante, sem rodeios, deve ser assumido como um ano muito negativo do Benfica e por isso peço desculpa a todos os benfiquistas, defraudou todas as nossas expectativas. O que tenho a fazer agora é corrigir o que não correu bem, que foi muita coisa.”