Em 2025, Simon Yates renasceu para o ciclismo. E a arrancar 2026 anuncia que vai pendurar a bicicleta, com apenas 33 anos
A celebrar a vitória no Giro com a licra rosa
Tim de Waele
É um surpreendente adeus ao desporto do vencedor do Giro de 2025. Depois de um ano de mudança e em que ressurgiu forte e capaz de lutar com os melhores, Simon Yates optou por abandonar o ciclismo, um mês depois de afirmar que queria revalidar a vitória na Volta a Itália deste ano. Sai, pelo menos, pela porta grande
A carta de despedida é longa e nela Simon Yates diz-nos que a sua decisão de abandonar o ciclismo, com apenas 33 anos, talvez possa “surpreender muitos”, mas há “bastante tempo” que pairava na sua cabeça, arrendando ali um espaço de muitos metros quadrados. Mas Yates terá de compreender que, sim, a sua decisão de arrumar a bicicleta a um canto apanhou muito boa gente desprevenida.
No início de dezembro, um dos gémeos Yates deslocou-se propositadamente a Roma para assistir à apresentação do percurso da Volta a Itália de 2026. Por lá, manifestou ao site Cyclingnews a vontade de estar presente no Giro deste ano para defender o título conquistado de forma dramática em 2025, confessando até que tinha passado o inverno com a família a ver os melhores momentos daquela vitória tão especial, acompanhados por um vinho tinto italiano.
Discutiu os planos ainda indefinidos da Visma-Lease a Bike para a nova temporada, as reuniões em Amesterdão com a equipa, a coordenação com as vontades de Jonas Vingegaard, o líder do combinado neerlandês.
Porém, no espaço de um mês, algo terá mudado. Simon Yates, vencedor do Giro de 2025 e da Volta a Espanha em 2018, vai deixar o ciclismo.
“Afasto-me do ciclismo profissional com muito orgulho e um sentimento de paz. Este capítulo deu-me mais do que alguma vez imaginei. Memórias e momentos que vão para sempre ficar comigo”, escreveu num texto publicado na sua página de Instagram.
Simon Yates com o gémeo Adam na pista, onde ambos começaram. Impossível de distiguir? Simon está à direita
Procycling Magazine
Na despedida, não deu uma razão para abandonar a competição menos de um ano depois de, na Volta a Itália, empreender uma lendária recuperação no temível Colle delle Finestre, na penúltima etapa. Terceiro à partida dessa tirada, a quase minuto e meio do topo, o britânico, que começou na pista tal como o gémeo Adam, atacou Isaac del Toro e Richard Carapaz no início da subida, ganhando uma preciosa vantagem que cimentaria na última dificuldade do dia, em Sestriere. Del Toro e Carapaz chegariam à meta a mais de cinco minutos de Yates, que conquistou ali a camisola rosa.
O feito tornou-se ainda mais notável já que o Colle delle Finestre era uma espécie de Adamastor na carreira de Simon Yates, que ali, na edição de 2018, havia perdido mais de meia-hora quando era líder da corsa rosa, desbaratando a oportunidade de conquistar a que seria a sua primeira vitória numa das três grandes voltas. Foi o momento mais baixo de uma carreira que já tivera outro importante percalço: em abril de 2016 foi tornado público um teste anti-doping positivo, mas a equipa de Yates responsabilizou-se por não ter pedido uma exceção terapêutica para o ciclista, que sofria de asma. Foi suspenso por apenas quatro meses.
Renascimento e adeus
A temporada de 2025 foi, então, de renascimento do britânico. Depois de uma vida profissional dedicada à australiana GreenEDGE, nas suas diversas versões e nomes, Simon Yates aceitou um corte no salário para se transferir para a Visma-Lease a Bike, com um contrato de dois anos. Além da vitória no Giro para exorcizar demónios passados, ainda venceu uma etapa de montanha no Tour, onde esteve como escudeiro de Vingegaard.
Simon Yates quis sair em grande. Quando confirmou a vitória no Giro, em Roma, no dia seguinte a agigantar-se na terra batida misturada com neve no Finestre, falou num “momento definidor” de uma carreira. Ninguém pensaria, então, que seria definitivamente definidor. O britânico renunciou ao último ano de contrato, deixando um agradecimento especial à Visma na mensagem de despedida, por ter compreendido a sua opção.
A subir o Colle delle Finestre no Giro de 2025, que lhe daria a vitória na Volta a Itália
Dario Belingheri
“Para a minha equipa, obrigado por terem entendido e apoiado a minha decisão de parar agora. Vocês deram-me a oportunidade de reescrever a minha história e, com confiança e crença, fizemo-lo juntos”, escreveu, agradecendo também à família pelos “sacrifícios partilhados”.
“As ausências e os aniversários em que não estive nunca foram fáceis, mas vocês compreenderam o que este caminho significava para mim e apoiaram-me com todo o coração”, apontou ainda.
Simon Yates diz adeus ao ciclismo com um currículo que poucos ciclistas seus contemporâneos se podem gabar. Uma vitória no Giro (2025), outra na Vuelta (2018), três vitórias em etapas na Volta a França, mais seis na Volta a Itália e duas na Volta a Espanha. Pelo meio venceu ainda o Tirreno-Adriático, em 2020, e foi o melhor ciclista no ranking da UCI em 2018. O seu gémeo, Adam, colega de equipa de João Almeida na UAE-Emirates, passa agora a ser o único representante da família no pelotão. Os dois ainda correramm juntos até 2020 na GreenEDGE, tão iguais que eram obrigados a usar óculos diferentes para serem distinguidos.