Ciclismo

O Classicissimo é Tadej Pogačar, o imperador que juntou a Milão-Sanremo aos seus domínios

Pogačar, punho cerrado, celebra o triunfo
Pogačar, punho cerrado, celebra o triunfo
Tim de Waele

A clássica italiana era um de dois monumentos que faltam na carreira do esloveno. Era, já não é. Pogi triunfou na Via Roma, completando uma exibição lograda apesar de uma queda, deixando Van der Poel para trás e batendo, no sprint, Pidcock. Falta só o Paris-Roubaix para o campeão do mundo vencer as cinco corridas de um dia mais importantes

O Classicissimo é Tadej Pogačar, o imperador que juntou a Milão-Sanremo aos seus domínios

Pedro Barata

Jornalista

Quando falavam a Tadej Pogačar acerca do desafio de ganhar a Milão-Sanremo, o esloveno fazia ar de impressionado, como se o tema em questão fosse particularmente grave, se tratasse de uma epopeia, de uma empresa hercúlea. Poderia pensar que o percurso era pouco duro, que seria necessário um plano perfeitamente executado, que arrecadar Van der Poel da discussão seria a derradeira dificuldade.

Certamente pensaria que cair na antecâmara da Cipressa impediria qualquer tentativa de glória. Pois bem, a Classicissima foi parar às largas mãos do esloveno açambarcador quando o plano ideal se esfumou entre o pitoresco percurso. A pouco mais de 30 quilómetros da Via Roma, o campeão do mundo caiu. Seria o prólogo da glória.

Com a perna esquerda em sangue, o equipamento mal-tratado, a fotografia tornou-se mais épica. Pogačar, o impossível em cima de duas rodas. Pogačar, campeão da Milão-Sanremo.

Atacando na Cipressa, instantes depois de cair, só o seguiram Van der Poel, a epopeia feita ciclista, e Pidcock, um corredor do Renascimento, capaz de ganhar no Alpe d'Huez, ser terceiro na Vuelta, sagrar-se campeão olímpico de BTT ou campeão do mundo de Cyclo-Cross. O trio desfez-se no Poggio, quando o neerlandês ficou para trás.

O grande adversário batido. Com a meta à vista, o triunfo no monumento era para ser discutido a dois. O mais veloz foi Pogačar, num triunfo de suor, de resistência, de mentalidade, de campeão.


Pogačar depois da vitória
Dario Belingheri

Partindo de Pavia, a Classicissima, a clássica muito clássica, vai até à Ligúria, junto ao mar, por paisagens e cenários que nos fazem ter vontade de agarrar numa vespa e ir pousando de pequena aldeia em pequena aldeia, quais exploradores de limoncello dobrando cabos. Os primeiros 200 e muitos quilómetros do percurso são quase uma galeria de arte, a corrida a deleitar-nos com penhascos, estradas que rasgam montanhas, o mar e as bicicletas, uma dolce vita em duas rodas não motorizadas.

Depois começa a emoção, que rumo a Sanremo tem dois nomes que se confundem com a história do ciclismo. Cipressa e Poggio, as subidas que uns usam para atacar e evitar uma chegada ao sprint e outros pretendem quase anular, apagar, exatamente para apostar num final numeroso, em velocidade.

Foi mesmo antes da Cipressa, quando o pico de 5,7 quilómetros de extensão estava ao virar da esquina, que uma queda marcou a corrida. Pogačar foi ao chão, com ele foram Van Aert, Pellizzari, Girmay. Van der Poel também ficou cortado.

A menos de três dezenas de quilómetros da meta, a Milão-Sanremo era uma confusa constelação de grupos, espalhados pela estrada, com os principais favoritos atrasados. Queriam uma Milão-Sanremo diferente, com agitação antes da parelha Cipressa-Poggio? Aí está.

Uma Milão-Sanremo, na 117.ª edição, de protagonistas diversos? Não. Poucos quilómetros depois da queda, já a cabeça da corrida tinha a UAE a trabalhar para Pogi, com Pidcock, Van der Poel e Ganna na roda. O esloveno tinha evidentes marcas no corpo, mas o motor não pareceu afetado.


O cumprimento entre primeiro e segundo depois da corrida
Dario Belingheri

A três quilómetros do alto, Isaac del Toro, o fenómeno mexicano que aqui se faz gregário de luxo, abriu caminho para a ofensiva de Tadej, A 24 quilómetros do fim da Classicissima, Pogačar. Só Van der Poel, vencedor em 2023 e 2025, de Pidcock, o craque britânico, aguentaram o ritmo do campeão do mundo, que pedalava cheio de rasgões e cortes no equipamento.

Desceram os três, subiram o Poggio, só ficaram Pogi e Tom. Subiam a mais de 40 quilómetros por hora, o esloveno de sangue na perna, o britânico sofrendo, sofrendo, sofrendo.

O sprint deixou Tadej com a história à frente. Ele muito trabalhou para estar naquela posição, os homens mais rápidos para trás, a meta diante do seu nariz. A discussão foi como são as acelerações entre homens cansados, marcados por mais de seis horas e meia de prova. Ganhou o campeão do mundo. Van Aert ainda se escapuliu para o último lugar do pódio.

É mais uma dependência para os domínios do imperador, do rei-sol do ciclismo, do Ícaro sem medo do sol. Chegou aos 11 monumentos, igualando Roger De Vlaeminck. Só Eddy Merckx, com 19, tem mais. Contando já duas Voltas a Flandres, três Liège-Bastogne-Liège e cinco Lombardia, "só" lhe falta o Paris-Roubaix.

A 12 de abril, Tadej Pogačar terá a hipótese de, basicamente, completar o ciclismo. Tem 27 anos, recorde-se.

Sim, foi neste estado que Pogačar ganhou
Dario Belingheri

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