O monumental Wout van Aert não deixou que Pogačar ficasse com todos os monumentos na Paris-Roubaix
Wout van Aert eufórico a celebrar a sua vitória na meta, após superar Tadej Pogačar ao sprint
CHRISTOPHE PETIT TESSON
Durante muito tempo pareceu que os impiedosos 258 quilómetros da clássica que liga Paris a Roubaix, cheia de secções empedradas, iam sorrir ao campeão mundial. Numa tirada cheia de furos, acidentes e gente a trocar de bicicletas, houve só um homem a conseguir acompanhar Tadej Pogačar. Foi já no velódromo, a poucos metros da meta, que o belga Wout van Aert finalmente ganhou mais um monumento (o seu segundo), e logo o maior dos dos que existem no ciclismo. E ao esloveno a quem só falta conquistar este resta voltar a tentar em 2027
O sabor deixado na boca pela anterior Paris-Roubaix deixou um apetite a marinar durante um ano. A estreia de Tadej Pogačar na mais impiedosa das clássicas do ciclismo, apetrechada de setores feitos a pedregulhos, a mais inclemente para quem lá pedale, dera-lhe um segundo lugar, impressionante e castigador em medidas mesmas, culpa de um acidente perto do final que o distinguiu do vencedor, Mathieu Van der Poel, imperial nesta corrida pelas três vitórias seguidas. No suplício que é lá competir, o esloveno foi um ‘quase’, aguçando a curiosidade acerca do que poderia ele alcançar após tão auspiciosa primeira vez.
A 120 quilómetros da meta o feitio da empedrado prova fez cara feia às perspetivas de o esloveno ganhar o único Monumento que lhe falta, encrencando-lhe a bicicleta. Teve de desmontar, sentiu na sola o pavé, as suas feições pintadas a desespero enquanto aguardava pela chegada do carro de apoio para lhe dar uma vélo não dele, nem afinada para ele, e o pelotão com os adversários peritos neste tipo de clássicas pavimentadas sem alcatrão a ganharem segundos ao incrível ciclista.
Escassos minutos pedalou Pogačar na bicla desajustada. Alcançado pelo carro da sua equipa, outro instante perderia para a frente da corrida quando trocou de duas rodas, refilando com uma das motos da prova a ser boleia a repórteres de imagem, sedentes por filmar de perto as peripécias do competidor mais falado e atrapalhando a sua pressa. Serenadas estas urgências, Tadej ficava com uma só: com quase três horas feitas de prova estava a cerca de 45 segundos da frente.
António Morgado ainda lá foi prestar auxílio, mas cedo o esloveno se viu sozinho de ajudas da UAE Emirates. Teve o campeão do mundo de puxar pelo grupo de colistas à sua pressa, veio um setor de pavé e o esloveno a encarregar-se da bitola que destroçou aos poucos a companhia. Queria apanhar o pelotão dos favoritos antes do temível Troué d’Arenberg, trilho de pedregulhos espremido por um bosque com fama de definir a Paris-Roubaix.
Lá se furam pneus, cansam-se pernas, findam esperanças e alastra-se ácido lático corrosivo para os músculos. Imaginem pedalar com uma bicicleta de estrada por uma ruela antiga, feita faz décadas e décadas, de uma qualquer aldeia de Trás-os-Montes.
Tadej Pogačar a pedalar no meio do pelotão à passagem pelo temível troço empedrado de Arenberg
Dario Belingheri
Foi esse traçado que infernizou as perspectivas do tricampeão da prova, Mathieu Van der Poel, igual a Pogačar na caça à história - ser o primeiro homem a vencer quatro edições seguidas -, ao furar-lhe uma roda, espatifando um pouco mais a ordem da tirada. Era o Inferno do Norte a fazer das suas, e a dobrar: também um pneu da bicicleta que rápido fizeram chegar ao neerlandês furou, furada acabando a corrida para o principal candidato à vitória igual à estratégia da sua equipa, porque o ajudante foi Jasper Phillipssen, cujos pedais da bicicleta tinha um encaixe moldado aos seus botins, impróprio para os de Van der Poel, secando o outro ciclista forte do conjunto de hipóteses para se fazer à vitória. Ficaram a dois minutos da proa.
A sobra da confusão reclamou-a Tadej Pogačar, por entre malditas alheias saído de Arenberg na dianteira da corrida, as suas antenas a captarem notícia da tragédia do rival e alentando-o a acelerar o andamento. O predador farejara sangue, mas as feridas não se olvidaram dele, em Paris-Roubaix o azar não é esquisito: a 72 quilómetros do fim, o esloveno pediu uma bicicleta nova a 10 segundos de custo. Logo a seguir, Wout van Aert seguiu o exemplo. Incandescentes as labaredas da corrida, poupado ninguém e nenhuma alma com coragem, ou quiçá energia, para aproveitar o percalço de Pogačar.
O que veio de subsequente servirá de apoio para quando às crianças se explicam lugares-comuns da vida, aqueles como o nunca deixarem de crer, de os impossíveis serem disparate, de os limites do nosso corpo serem uma conceção mais do que uma realidade.
Pelos 60 quilómetros, o extraordinário Mathieu Van der Poel já só via a frente da corrida a 30 segundos, fruto das curvas às quais se atirava sem receios, veloz como tudo, levando na sua roda os pretendentes que ousavam acompanhar o destemido belga. Não alcançaria o alvo, era tarefa demasiada, mas o esforço que demonstrou não deixou de ser impressionante enquanto a sua presa se punha, como seu costume, também inumana a puxar na dianteira.
Tadej Pogačar e Wout van Aert partilharam a liderança da corrida durante os últimos 60 quilómetros da Paris-Roubaix
Dario Belingheri
Pogačar apertou o ritmo e livrou-se de Mads Pedersen, não de Wout van Aert, disposto a trocar golpes com o esloveno nos setores empedrados, forma de o lembrar que não era um espetador do seu ataque à glória. A cada troço de pedra, em especial nos mais entortados por curvas, o belga ostentava a sua agilidade neste contexto, leve a deslizar nas trajetórias por contraste com o campeão do mundo, um poço de tudo e mais alguma coisa mas um corpo inato, por muito incrível que seja, para este tipo de labor.
Com 17 quilómetros em falta a roda traseira fugiu a Pogačar à saída de uma curva, a mistela de poeira e pedra a pregarem-lhe um susto e a intrometerem na sua cabeça talvez a lembrança do ano passado, quando caiu a 40 quilómetros do fim. Desta feita o duelo prolongou-se. Zelosos da ameaça do outro, Tadej e Wout mantiveram as tréguas até ao velódromo a céu aberto de Roubaix. O esloveno lá entrou na dianteira, constantemente a virar o pescoço para estudar o adversário na disputa em que Van Aert atacou primeiro, a seu bem.
O campeão da Paris-Roubaix não foi o mundial, mas sim o ciclista com crónica fama de lhe faltar sempre um bocadinho assim, o que desta feita teve e o fez chorar desalmadamente, deitado no chão, após deixar Tadej Pogačar nas lonas pela acertada estratégia de se manter na sua roda até ao sprint final. Ao seu 21º Monumento e após oito pódios entre 17 classificações no top 10, o belga teve a sua vitória na mais simbólica das clássicas (já vencera a Milano-Sanremo, em 2020). Os 258 quilómetros ficaram seus, finalmente.
Merecido prémio para o incrível belga, imitador de Pogačar no esforço para recuperar de um pneu furado para acabar a ser incomparável ao glutão dos recordes, facto visto na forma como atacou com uma força inimitável. Quando o dia parecia feito para o ciclista mais falado desta era ser monumental, a distinção foi para Wout van Aert. Logo atrás, Van der Poel logrou a façanha de recuperar até participar na luta pelo derradeiro lugar do pódio - quase apanhou Jasper Stuyven, o terceiro classificado.
O esloveno terá de regressar ao Inferno do Norte uma terceira vez. Já tem dois segundos lugares, está tão perto de ter algo que vivalma consegue desde 1977.