Ciclismo

O cor-de-rosa ainda é português: Afonso Eulálio segura liderança do Giro d’Itália após contrarrelógio

Afonso Eulálio durante a 10.ª etapa do Giro
Afonso Eulálio durante a 10.ª etapa do Giro
Tim de Waele

O ciclista da Figueira da Foz resistiu à aproximação de Jonas Vingegaard, mantendo o primeiro lugar da Volta a Itália com 27 segundos de vantagem para o duas vezes vencedor do Tour de France. Filippo Ganna foi o vencedor da luta contra o tempo da 10ª etapa da prova

O cor-de-rosa ainda é português: Afonso Eulálio segura liderança do Giro d’Itália após contrarrelógio

Pedro Barata

Jornalista

A improvável história de êxito de Afonso Eulálio na 109ª edição do Giro d'Italia principiou com uma fuga. Entre a chuva e algum caos, o português agarrou a oportunidade, um feito que, a cada dia, vai sendo testado.

As primeiras ameaças à camisola rosa de Eulálio surgiram na montanha. Sofrendo, o ciclista da Bahrain-Victorious resistiu às aproximações da concorrência. O grande teste estava reservado para o contrarrelógio desta 10ª etapa, tirada altamente desfavorável para as características de Afonso.

Havia 2,24 minutos para Jonas Vingegaard, para o ultra favorito a vestir a rosa no final das 21 etapas, para quem já conquistou o Tour duas vezes, a Vuelta uma vez e pretende, dentro de dias, fechar a trilogia. Sozinho contra os ponteiros do cronómetro, Afonso Eulálio voltou a resistir.

O sorriso do natural da Figueira da Foz após a conclusão do esforço individual evidenciava a felicidade pela proeza atingiada. Eulálio cedeu cerca de dois minutos, mantendo 27 segundos para o craque dinamarquês da Visma.

Foi o quinto dia em que o cor-de-rosa vestiu português. Olhando para o percurso das próximas jornadas, é legítimo acreditar que, até ao regresso da alta montanha no sábado, pode continuar a haver liderança portuguesa.

Afonso Eulálio durante o contrarrelógio da 10ª etada do Giro
Dario Belingheri

À 10ª etapa do Giro, algo relativamente incomum no ciclismo atual: um contrarrelógio plano de 42 quilómetros numa grande volta, uma exceção num panorama global em que os esforços contra o tempo nas competições de três semanas são, quase sempre, uma espécie de prólogos alongados. Aqui, entre Viareggio e Massa, junto à costa do Mar de Ligúria, havia muito tempo para rolar, vários minutos para se perder ou ganhar.

As longas retas passando ao lado de praias, assumindo-se como artérias principais de povoações com aroma a verão, eram ideias para que corredores fortes e potentes fizessem valer os seus argumentos. Gente como Filippo Ganna, um comboio de mercadorias feito ciclista, 21 quilos mais pesado do que o leve Eulálio - 83 quilos para o italiano, 62 para o português.

Ganna, duas vezes campeão do mundo na especialidade, chegou com naturalidade à 32ª vitória em contrarrelógios, com uma média brutal de 54,9 quilómetros por hora. Atrás do homem da INEOS, que alcançou o oitavo triunfo em tiradas na corsa rosa, havia uma outra discussão, não pela etapa, mas pela classificação geral.

O melhor dos que desejam o pódio foi Thymen Arensman, o segundo mais rápido, saltando para terceiro à geral, a 1,57 minutos de Eulálio. E, sem colocar objetivos irrealistas para Afonso, vale a pena notar que o português conserva mais de três minutos (3,06) para o sexto classificado, Jai Hindley, e 4,45 minutos para o 11.º, Mathys Rondel. Pensando na classificação da juventude, há 3,36 minutos para Giulio Pellizzari.

Durante o dia de descanso, realizado na segunda-feira, Afonso Eulálio recebeu uma chamada de um número desconhecido. Perante o frenesim de tentatativas de contacto destes dias, acabou por não atender. Esse mesmo número enviar-lhe-ia, depois, uma mensagem. Era António José Seguro, o Presidente da República. O ciclista que nasceu há 24 anos na Figueira da Foz está empenhado em continuar a receber louvores vindos de Belém. E não só.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt