Afonso Eulálio já não é o líder do Giro d’Italia, mas a luta pelo impensável permanece
Eulálio desceu ao segundo lugar do Giro
Dario Belingheri
Sem surpresa, Jonas Vingegaard, grande favorito a vencer a Volta a Itália, ganhou a montanhosa 14.ª etapa e roubou a camisola rosa do português. Eulálio é agora segundo classificado
Era inevitável, tão natural quanto a lei do mais forte. E cumpriu-se, pontualmente.
Jonas Vingegaard ia sempre disparar para a rosa, para a liderança que pretende vestir no final das três semanas. Foi a 4,6 quilómetros do topo da derradeira ascensão da 14.ª etapa do Giro d'Italia, em Pila, nos Alpes, uma montanha de 16,6 quilómetros a 7% de inclinação média, que o dinamarquês arrancou sozinho. Estava ali o triunfo na tirada, a subida ao primeiro lugar, a confirmação de que, se nada de estranho ou infeliz ocorrer, o líder da Visma juntará esta grande volta às outras duas que já leva numa grandiosa sala de troféus.
Se Vingegaard vestiu a rosa, Afonso Eulálio ficou sem ela. Foi seu orgulhoso utilizador durante nove dias, um epopeia. Na meta, o corredor da Figueira da Foz perdeu 2,49 minutos.
O primeiro lugar já não é português, mas subsiste a luta por objetivos que, no início do Giro, estariam longe do horizonte de quem, há ano e meio, corria no modesto pelotão nacional. Quem jamais completou, sequer, uma competição de três semananas.
Eulálio é, agora, segundo, a 2,26 minutos de Jonas Vingegaarad. Mais importante do que isso, tem 24 segundos de margem para Gall, o terceiro, e 37 segundos sobre Arensman, o quarto.
A dura etapa foi andando entre montanhas
Tim de Waele
A mais exigente tirada da corsa rosa até ao momento partiu de Aosta, traçando caminhos pelo vale com o mesmo nome. Foram 133 quilómetros até ao chegada ao alto em Pila, havendo cinco contagens de montanha, duas de primeira categoria, a derradeira coincidente com a meta.
De um lado é França, do outro é a Suíça, aqui no meio é Itália. Com o Monte Branco, imponente, ao fundo, o pelotão andou entre montanhas e vales, vendo picos com neve, desbravando este lado dos Alpes numa tarde de calor de Maio.
O comboio ascedente da Visma abriu o terreno para a ofensiva de Jonas. Campenaerts, Kuss e Piganzoli, com Eulálio a ceder quando o craque dos Estados Unidos assumiu a dianteira. Foi a 8,6 quilómetros do fim que o português ficou para trás, sofrendo, exposto ao sol, lutando contra si mesmo nas inclinadas retas, agradecendo, depois, o auxílio de Caruso, um autêntico irmão mais velho ao longo do Giro. O final seria com Afonso por sua conta, desfrutando das últimas pedaladas de rosa, abrindo espaço para novos objetivos.
Contas feitas, Vingegaard é o incontestado e natural primeiro classificado. Tem 2,26 minutos de margem para Afonso Eulálio, 2,50 minutos para Felix Gall, que foi segundo, confirmando que é quem ascende a um nível mais próximo do grande dinamarquês.
Para o português, a qualidade demonstrada permite fixar a ambição onde não era esperada. Tem mais de quatro minutos de vantagem para se manter no top 10. Continua a ser líder da juventude. É natural que possa haver uma quebra na terceira semana, mas a viagem de descoberta de um voltista, de auto-conhecimento das suas capacidades, pode encontrar novos destinos nos próximos dias.
A próxima etapa, chegando a Milão, não tem montanha. As dificuldades regrassam terça-feira, após o dia de descanso. Faltam sete jornadas de ciclismo.