Há um truque para aguentar em apneia mais tempo. Para melhor resistir ao sufoco, ajuda ir libertando o ar em quantidades mínimas até que ele se esgote. Assim como quem está debaixo de água, ao longo do Giro, Afonso Eulálio foi, pouco a pouco, esvaziando os pulmões nas brutais provas de resistência impostas aos ciclistas ao longo de uma corrida de três semanas.
Os minutos inspirados na mítica etapa em que assumiu a liderança da classificação geral, foram sendo geridos para, com a folga conseguida, chegar ao fim com um resultado satisfatório. Os objetivos do corredor de 24 anos na Volta a Itália foram sendo estabelecidos com o pelotão em andamento, fruto de uma tremenda superação de expectativas.
Calma, Afonso! Já podes respirar.
A titânica prestação garantiu a Eulálio a presença no top-10 da classificação geral – mais concretamente o sexto lugar (+9:39) – e a camisola branca, que distingue o melhor jovem em competição. Dificilmente pode existir melhor objeção ao determinismo, pois qualquer previsão inicial que apontasse nesta direção seria agora merecedora de um prémio milionário.
Apesar do Giro ainda ter uma etapa, a dureza capaz de ajustar os posicionamentos está ultrapassada. A Volta a Itália segue para Roma numa espécie de cortejo dos consagrados. Salvo uma tragédia que o impeça de chegar ao fim, Afonso Eulálio tem a história assegurada.
O ciclista da Bahrain-Victorious teve de ser espartano para segurar as metas que o mesmo tornou alcançáveis. O penúltimo dia exigiu passar duas vezes por um pico apenas atingível por via de uma subida com 14,5 km a uma média de 7,8% de inclinação. A primeira passagem por Piancavallo moeu, a segunda espezinhou a condição física já muito débil do pelotão.
A 10 km do final, Jonas Vingegaard deu seguimento ao trabalho da Visma e movimentou-se para ganhar a quinta etapa nesta edição do Giro, alargando o recorde pessoal de mais triunfos numa só grande volta, e assegurar a conquista da camisola rosa. Felix Gall, o segundo classificado (+5:22), ainda tentou responder, mas ficou aquém.
Na retaguarda, Afonso sofreu e, inclusivamente, descolou de outros elementos bem posicionados na classificação geral. Teve o mérito de saber escolher a sua luta. Davide Piganzoli (oitavo classificado, +10:52), o seu grande adversário na luta pela camisola branca, tentou descartar o figueirense. Em vez disso, rebocou-o. Antes dos derradeiros metros de uma etapa em que foi sétimo, Eulálio distanciou-se mais do italiano.
É importante relembrar que Afonso Eulálio chegou ao topo do ciclismo mundial há menos de dois anos. Não se trata de alguém que estava no sítio certo à hora certa, mas sim de um corredor que pedalou por si próprio para chegar ao nível em que está hoje, talvez até beneficiando de algum menosprezo. Começou o Giro como um anónimo e sai com a camisola que assinala alguém com um futuro promissor. A partir de agora, nunca mais passará despercebido.
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