No primeiro dia do resto da sua vida, Afonso Eulálio concluiu o Giro a sorrir e a acenar
O ciclista de 24 anos foi aclamado em Roma
Dario Belingheri
Começou como anónimo, andou de rosa e acabou de branco. Em Roma, Afonso Eulálio confirmou o top-10 e a conquista da classificação da juventude. Depois de Ruben Guerreiro e João Almeida, tornou-se o terceiro português a ganhar uma camisola numa grande volta. Na última etapa, vencida por Jonathan Milan, teve direito a uma cerimónia de consagração ambulante a posar para a fotografia com Jonas Vingegaard, dinamarquês que se juntou ao clube de ciclistas que venceram o Giro, o Tour e a Vuelta
Já diziam os mais antigos: quem tem pedalada vai a Roma. Quando se trata de um périplo velocipédico, adianta pouco ter lábia para, através de indicações alheias, ficar a conhecer a rota que leva ao destino final. É a superação que permite ultrapassar o percurso ardiloso, não a mera indicação do trajeto.
O Giro terminou junto ao Circo Máximo e, ao longo da última etapa, os corredores percorreram as galerias do museu a céu aberto que é a capital italiana. No miolo da monumentalidade, ergueu-se um bastião da história do ciclismo português.
Queimado o último dos 3467 km da Volta a Itália, Afonso Eulálio confirmou o sexto lugar na classificação geral e a camisola branca. Sem dificuldades que pudessem atrapalhar o díptico feito, a derradeira corrida foi um cortejo de consagração. Com o equipamento angelical, sorriu, acenou e juntou-se à fotografia dos vencedores das várias classificações, Jonas Vingegaard (geral), Paul Magnier (pontos) e Giulio Ciccone (montanha). A cerimónia ambulante decorreu antes dos sprinters se entreterem e de Jonathan Milan se superiorizar entre os velocistas.
O primeiro lugar na classificação da juventude robustece o estatuto de Afonso Eulálio. Entre os vencedores da camisola branca do Giro dos últimos dez anos estão dois vencedores de grandes voltas. São eles Tao Geoghegan Hart e Egan Bernal. Outros, como João Almeida e Isaac del Toro, estiveram lá perto. Por isso, não é uma conquista de somenos.
Enquanto ainda procura a primeira vitória de sempre na geral de uma grande volta, Portugal vai acumulando triunfos em classificações secundárias. Ruben Guerreiro inaugurou a contagem ao ser considerado o melhor trepador no Giro, em 2020. Aliás, a Volta a Itália tem sido o espaço de glória nacional. Também aí, em 2023, João Almeida foi o jovem em maior destaque.
Com o sexto lugar na classificação geral, Afonso Eulálio tornou-se no nono ciclista português a terminar uma grande volta no top-10. Joaquim Agostinho foi quem mais contribuiu para as 27 vezes que a bandeira nacional ficou na primeira dezena de posições de corridas de três semanas. A última vez que tal aconteceu foi o ano passado, quando João Almeida terminou em segundo lugar na Vuelta.
Triplete para Vingegaard
Afonso Eulálio salpicou a Volta a Itália com surpresa. Depois de ter estado em fuga na etapa 5, vestiu-se de rosa durante nove dias. Neste caso, sabia-se que era uma condição temporária. Jonas Vingegaard partia como o grande favorito a vencer o Giro e não desapontou.
Sem João Almeida, desistência de última hora devido a doença, a oposição ao dinamarquês ficou enfraquecida. O líder da Visma deixou o segundo classificado, Felix Gall, a +5:22 e o terceiro, Jai Hindley, a +6:25.
Vingegaard escoltado pela Visma em frente ao Coliseu de Roma
Dario Belingheri
Jonas Vingegaard fez o bingo das grandes voltas. Ganhou o Tour em 2022 e 2023, a Vuelta em 2025 e agora o Giro. Poucos conseguiram este feito. Aliás, o papa-recordes e rival do nórdico, Tadej Pogačar, não faz parte deste clube. Jacques Anquetil, Felice Gimondi, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Alberto Contador, Vincenzo Nibali e Chris Froome foram quem ganhou um novo sócio.
Nunca antes Vingegaard tinha alcançado tão vasto número de triunfos numa só grande volta. Ao todo, foram cinco vitórias. Nada mau para quem está em modo de gestão para o Tour.