Ciclismo

O Alpe d'Huez é uma fábrica de lendas e todas elas fizeram uma vénia a Tadej Pogačar

O líder da UAE tem 7'11'' de vantagem para Evenepoel na classificação geral
O líder da UAE tem 7'11'' de vantagem para Evenepoel na classificação geral
Luc Claessen

No regresso do Tour ao Alpe d'Huez, Tadej Pogačar ganhou pela primeira vez na carreira no local mítico da Volta a França, onde terminou a 19ª etapa da edição de 2026. O esloveno apenas conseguiu descartar os corredores da fuga dentro do último quilómetro, superando o sacrifício surreal de Richard Carapaz. Mesmo depois de tudo o que já conquistou, este não é só mais um triunfo na carreira do campeão do mundo

A inércia empolga-se com a sucessão de curvas. Os ciclistas surgem num cambalear ébrio que nada mais é do que a expressão do sofrimento alucinogénico que surte quando se percorre uma estrada semelhante ao rasto de uma caneta que rasurou uma montanha.

O Alpe d'Huez é o desafio definitivo do Tour. As lendas abrem um corredor para o pelotão passar. Logo no início dos 21 ganchos, todos com nomes de ídolos, os corredores apertam a mão a Fausto Coppi, o primeiro que ali venceu. Passam, quase no final da subida de 13,8 km, pelas curvas de Marco Pantani, aquele que até então mais rápido tinha percorrido a inclinação (36’40’’, em 1995). Por ali, há também um recanto dedicado a Joaquim Agostinho, protagonista do momento mais icónico do ciclismo português quando, em 1979, cruzou a meta em primeiro lugar.

Se há uma fábrica onde os mitos são produzidos, a sede é neste elevador pedalável no meio dos Alpes. Tadej Pogačar é uma lenda viva que ao passar causou a sensação de estar a regressar ao berço, embora nunca tivesse ali vencido. Após a etapa 19 da Volta a França 2026, o seu nome também será forjado naquele topo.

Muita corrida existiu até chegar ao zénite. A camisola amarela parece tatuada ao corpo do esloveno desde a primeira semana, previsibilidade que sorve imprevisibilidade à luta pela classificação geral. Talvez por isso esteja na hora de revermos a valorização que damos às classificações secundárias, cada vez mais potenciadores de espetáculo por serem o prémio que resta a muitas das equipas.

A avantajada fuga foi dinamizada pela EF Education, inglório trabalho em prol de Richard Carapaz aproveitado por Valentin Paret-Peintre, da Soudal Quick-Step. Ainda assim, no final da corrida, seria o sul-americano a assegurar o maillot pintalgado de melhor trepador. A Lidl-Trek também acompanhou os desenvolvimentos para ajudar Mads Pedersen a reforçar a liderança da classificação por pontos (tem agora 57 de vantagem face a Jasper Philipsen).

Após a meta volante, colocada a 39 km do final, a fuga preservava cerca de 4’40’’ de diferença face ao pelotão. Fustigada por um vírus nos últimos dias, a limitada UAE foi competente na gestão dos recursos que lhe sobraram. Felix Großschartner encostou o grupo do camisola amarela a 3’ da frente, altura em que, a cerca de 12 km, Tadej Pogačar atacou.

As estradas tornaram-se um estádio informal erguido clandestinamente por uma multidão que tomou conta do percurso. Muito visionários foram os donos das estâncias de esqui que, em 1952, pagaram para que o Alpe d'Huez fizesse parte do percurso do Tour. O pico viria a tornar-se na montanha com mais chegadas da Volta a França, sendo esta a 34ª. Os piqueniques estenderam-se ao longo do percurso num ambiente gémeo da final da Taça de Portugal, no Jamor.

O camisola a furar a multidão que esperava os corredores
Dario Belingheri

Todo aquele clima de festa rapidamente se tornou num ato de adoração coletiva a Tadej Pogačar. Se o Alpe d'Huez é uma fábrica de lendas, então todas elas fizeram uma vénia à passagem de um dos melhores de sempre.

O campeão do mundo ainda contou com a ajuda de Adam Yates, colega que constava da fuga original. Richard Carapaz, Sepp Kuss e Lenny Martinez não mantinham uma aliança firme e o bicho-papão escondia-se atrás da porta.

Há momentos em que Richard Carapaz parece disposto a dar a vida pelos objetivos quem tem. Muitos são os momentos em que se sacrifica em vão. O equatoriano levou-se ao limite para liderar a resistência ao que parecia óbvio e a meros 800 m foi despejado por Tadej Pogačar, que superou o registo de Pantani ao completar a inclinação em 35'27''. Um desfecho cruel para o corredor da EF Education que terminou na terceira posição, atrás de Lenny Martinez, o sugador de rodas premiado com o salto para a quinta posição por troca com Mattias Skjelmose. Na geral, Pogačar tem agora 7'11'' de vantagem sobre Remco Evenepoel, o segundo colocado.

Se a normalidade prevalecer, Tadej Pogačar vai celebrar a conquista do quinto Tour da carreira, igualando Miguel Induráin, Jacques Anquetil, Bernard Hinault e Eddy Merckx. Entre estes, apenas Hinault também venceu no Alpe d'Huez. O senhor Volta a França, a quem sobram anos para se tornar recordista, não podia passar sem pelo menos uma vez na vida espetar a bandeira na varanda dos imortais.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: fsmartins@expresso.impresa.pt