Na quinta vitória no Tour, Tadej Pogačar ficou imune ao vírus da UAE e rejeitou o snobismo para ganhar por si e pelos outros
2020, 2021, 2024, 2025 e 2026: os amarelos anos de Tadej Pogačar
Dario Belingheri
Tadej Pogačar saltou para o topo da lista de corredores que mais vezes ganharam a Volta a França, liderança que partilha com Miguel Induráin, Jacques Anquetil, Bernard Hinault e Eddy Merckx. O ditador solidário impôs-se cedo no Tour e retirou imprevisibilidade à disputa pela camisola amarela. No entanto, para se entreter até Paris, envolveu-se na luta de Isaac Del Toro pelo pódio e pela liderança da classificação da juventude, reforçando o óbvio: o ciclismo é um desporto de equipa
Imaginemos que uma pessoa com capacidade financeira para isso resolvia construir uma moradia de luxo de modo a viver sozinha num lugar remoto. Às tantas, aplicou-se tanto no projeto arquitetónico que descurou a localização. No encalço, não tem mais do que o vazio. Abastecer a casa e reencher o depósito de companhia obriga a longas viagens de bicicleta até à civilização.
Tadej Pogačar veio de um lugar que só lhe pertence a ele para se intrometer entre os humanos. Até prova em contrário, estamos livres de o considerar uma personagem de X-Men a encobrir os poderes provenientes de uma alteração genética, tal como na saga de ficção científica. A este ponto já é difícil crer que não tenha o cromossoma da genialidade dilatado. Seja como for, a humildade prevalece.
Há apenas cinco ciclistas que se sagraram pentacampeões do Tour e agora o esloveno é um deles. Atingiu esse registo aos 27 anos. Eddy Merckx fê-lo com 29, Jacques Anquetil e Bernard Hinault com 30 e Miguel Induráin com 31. Por agora, Pogačar tem companhia no topo da lista de corredores que mais vezes ganharam a Volta a França. A velocidade a que chegou a esse patamar indicia que, no final da carreira, provavelmente vai liderar sozinho essa classificação.
Pogačar não escapou a inquietações no Tour. No entanto, os entraves estiveram longe de ser causados pelos adversários. Remco Evenepoel, que ultrapassou os traumas para aquele que mais próximo ficou do camisola amarela, terminou a 6’26’’. Uma lenitiva margem que cedo retirou imprevisibilidade à identidade do vencedor.
O abandono de Jonas Vingegaard facilitou (ainda mais) o trabalho de Tadej Pogačar
Dario Belingheri
As dificuldades estiveram sobretudo numa noite de pouco sono, antes da etapa 15, onde prestou contas num teste anti-doping. Após a madrugada agitada, perdeu o rival honorário. Jonas Vingegaard, que também teve o descanso perturbado, caiu no dia seguinte. Era do dinamarquês que se esperava réplica, porém o líder da Visma abandonou a competição a 4’30’’ do camisola amarela e sem dar sinais de conseguir ser uma real oposição.
Ao mesmo tempo, a UAE ia sendo dizimada por um vírus que debilitou o bloco. Brandon McNulty abandonou o Tour, sendo que Tim Wellens e Adam Yates também se mostraram decrépitos devido à doença que se propagou entre a equipa, tendo dificuldade em terminar as corridas devido a problemas de saúde. Mesmo tendo dado seguimento à participação, as debilidades foram notórias. Pogačar ficou imune a consequências visivelmente gravosas.
Quando percebeu que lhe bastava chegar a Paris para o objetivo ficar cumprido, Tadej Pogačar decidiu ganhar pelo outros. Rejeitando qualquer snobismo, colocou Isaac Del Toro debaixo da asa. Decidiu mascarar-se de gregário e acompanhou o mexicano nos momentos decisivos para a defesa da camisola da juventude e para a conquista do terceiro lugar na estreia na mais monstruosa das grandes voltas.
O camisola amarela e o camisola branca terminaram a última etapa de montanha em simultâneo
Luc Claessen
Tadej Pogačar inscreveu o nome em cinco etapas desta edição e atingiu os 26 triunfos no Tour. Encontra-se agora a nove de Mark Cavendish, o corredor que mais vezes levantou os braços na Volta a França. A aproximação ao registo do sprinter britânico podia ter sido ainda mais substancial se tivesse açambarcado todas as oportunidades de vitória, algo que não se verificou.
Um dos momentos marcantes das últimas três semanas foi a chegada a Montjuïc, na etapa 2, ocasião em que Pogačar cedeu a vitória a Del Toro num ato que nos faz pensar se o campeão do mundo não está num processo de povoamento do planeta de que é dono e onde só entram predestinados. Vendo a cumplicidade entre os dois urge a vontade de introduzir Salvador Sobral a Pogačar, começando por pô-lo a ouvir “Amar Pelos Dois”.