Há diferenças milimétricas, ínfimas, quase indistinguíveis. O que serão 0,09 segundos? Um sopro, um nada? Um nada não será, porque foram esses pozinhos de centésimos que permitiram a Tadej Pogačar agarrar-se à camisola vermelha de líder da Vuelta logo à 1ª etapa, um contrarrelógio de 9,4 quilómetros nas estradas do Mónaco que bem conhece, já que mora no principado.
Na procura que nada tem de quimérica dessa ideia de completar o ciclismo, ou pelo menos as três grandes voltas, o esloveno já vence nas margens. Até nisto lhe assenta bem a alcunha de Canibal, roubada a Eddy Merckx: por 0,09 segundos foi buscar mais uma vitória de etapa - a 36ª entre Tour, Giro e Vuelta -, por 0,09 segundos não permitiu que Ethan Hayter conseguisse o seu primeiro triunfo numa das três principais corridas do calendário. E por 0,09 segundos colocou-se na berlinda para tentar algo que não acontece há 32 anos.
Pogačar, diga-se, gosta de um bom desafio, porque não há muitos recordes do ciclismo que não lhe pertençam ou que não estejam prestes a serem seus. E portanto aqui está mais um para ir atrás: o suíço Tony Rominger foi o último ciclista a vestir a camisola de líder da Vuelta da primeira à última etapa. Em 1994 venceu ainda seis tiradas. Nada que não esteja ao alcance do esloveno, para mais numa Volta a Espanha já com alguma montanha na 1ª semana.
Esta foi a 4ª vitória em etapas de Pogačar na Vuelta. As três primeiras aconteceram em 2019, quando Pogi se mostrou ao mundo pela primeira vez, ainda que até tenha começado o ano a ganhar a Volta ao Algarve. Era então um miúdo a fazer a estreia em grandes voltas de três semanas. No ano seguinte chegaria à primeira de cinco vitórias na Volta a França. Nunca mais voltou à Vuelta, até 2026. O apelo dos recordes, do inimaginável, é gigante para este génio de apenas 27 anos.
No pódio da etapa, a 4 segundos de Hayter, ficou Josh Tarling, irmão de Finlay Tarling, tragicamente desaparecido durante a Volta a Portugal. O ciclista da Netcompany Ineos, que perdeu também o avô nos últimos dias, decidiu correr na Vuelta e entrou ao ataque no primeiro contrarrelógio desta edição, na sua especialidade, seguramente levado pela vontade de dedicar a etapa à família. Ficou a 4 segundos, mas não deixou de ser uma vitória para o jovem britânico.
João Almeida, de regresso à competição numa temporada que tem sido provação atrás de provação, foi 18º, a apenas 18 segundos do colega na UAE Emirates e sem perder tempo para outros favoritos. Mostrou estar em forma. À sua frente, em 14º, a 16 segundos de Pogačar, surge outro português, Ivo Oliveira, também da UAE Emirates.
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