Menos é Mas para Enric, o íman de críticas que pode salvar a crise do ciclismo espanhol
Enric Mas lidera a Vuelta à falta de cinco etapas para o fim
Alexander Hassenstein
Líder da Vuelta desde o abandono de Pogačar, o maiorquino está a transformar uma imagem que era de deceção, passando a entusiasmar a afición. Já ganhou uma etapa, quebrando um jejum de quatro anos, está a ser surpreendentemente atacante, desfruta com o calor e pode tornar-se o primeiro espanhol a vencer uma grande volta desde 2015
O problema está, possivelmente, nas comparações, as malvadas comparações. Não existisse esse horror e, vistas isoladamente, as coisas não eram assim tão más.
Os resultados de Enric Mas estão longe de ser um desastre. Só um corredor de alto nível consegue acabar a Volta a Espanha em segundo em três ocasiões, sendo também uma vez terceiro classificado, juntando a este quarteto de pódios um quinto e um sexto lugares no Tour. Mas não era suficiente.
A década anterior à chegada ao primeiro plano de Mas foi a mais gloriosa da história do ciclismo espanhol. É a era de Alberto Contador, dono de sete grandes voltas, de Alejandre Valverde, a lenda das 133 vitórias, de Carlos Sastre, de Joaquín Rodriguez. Os tempos de Roberto Heras, tetracampeão da Vuelta, e Óscar Freire, tricampeão mundial, também não estavam muito distantes.
Perante a comparação com tais ilustres antecessores, a sala de troféus de Mas parecia, efetivamente, magra. Mais ainda se a expetativa inicial já era altíssima, devido à benção recebida diretamente de um dos grandes.
Com passagem pela academia de Alberto Contador, foi o próprio rei do Tour em 2007 e 2009 quem vaticionou, era Mas uma jovem promessa, que estaria ali a futura estrela do ciclismo espanhol, nomeando-o seu sucessor. “Quero ser o primeiro Enric Mas, não o próximo Alberto Contador”, comentou o natural das Ilhas Baleares.
Enric Mas a festejar a vitória na nona etapa da Vuelta
Alexander Hassenstein
Durante muito tempo, Mas foi a fonte das esperanças espanholas, o único corredor minimamente capaz de gerar o sonho de competir pelas mais importantes corridas. E, perante o hábito recente de ganhar e ganhar e ganhar, ser segundo não bastava.
Vieram as críticas. Apontava-se a falta de ambição, traduzida no irritante “salvámos o dia” que Enric comentava no fim de várias tiradas, contente por não ter perdido tempo, sem ousar ganhá-lo. A sua própria equipa, a Movistar, uma instituição do desporto espanhol, comentou, através de Eusebio Unzué, histórico líder do projeto, que Mas “não esteve ao nível esperado” no passado Giro d'Italia, quando foi 32.º. “Enric, una decepción más“, titulava então a imprensa especializada.
A arrancar a presente Volta a Espanha, um assomo de honestidade: “Tenho muitas dificuldades em ganhar”, confessou Mas, de 31 anos. Subitamente, tudo mudou.
O papão caiu. E teve de abandonar. Tadej Pogačar, vencedor da Vuelta antes mesmo de qualquer pedalada ser efetuada, saiu de cena quando tinha a vitória final no bolso. O que não tinha mistério tornou-se uma prova aberta, com a camisola vermelha a cair nos braços de Enric.
“Agora percebo o Tadej: ser líder dá-te asas”, notou Mas. Como primeiro da classificação geral, livre das toneladas de críticas, com menos pressão, deu-se a metamorfose do ciclista. Ganhou a nona etapa, possivelmente com a melhor exibição da sua vida, tem estado arrojado e atacante, engordando a sua vantagem para os perseguidores. À falta de meras cinco etapas, com destaque para o contrarrelógio da 18º tirada e para as chegadas em alto do antepenúltimo e do último dias de corrida, o homem da Movistar vê Felix Gall e Primož Roglič, os maiores adversários, a mais de dois minutos de distância.
Tragam os aquecedores
Em linguagem hiperbólica, pegara-se a Enric Mas a fama de perdedor. Até esta Vuelta, acabara 17 vezes no pódio de etapas de grandes voltas. Quantas vezes ganhou? Zero.
A perceção transformou-se no Alto de Aitana. Mas atacou e, para variar, ergueu os braços em êxtase. Não ganhava no World Tour, a divisão máxima do ciclismo, desde 2019, então ainda pela Quick Step, antes de rumar à Movistar. O último festejo a qualquer nível da modalidade fora há quatro anos, no Giro dell'Emilia.
As prestações de Mas nesta Vuelta estão a decorrer sob a constante canícula, com as elevadíssimas temperaturas a levarem mesmo à redução da etapa prévia ao dia de descanso. Ora, talvez o maiorquino seja o único integrante do pelotão a agradecer o calor.
“Gostava de correr sempre com 40 graus”, atirou durante a Vuelta. Questionado sobre o que os adeptos da casa poderiam fazer para o ajudar na berma das estradas, Mas foi perentório: “Que coloquem lá aquecedores”. A brincadeira pegou e, antes da 13ª etapa, ofereceram um aquecedor ao camisola vermelha.
O trauma das descidas
Outro fator que contribuiu para prejudicar a imagem pública do ciclista foram os problemas a descer. Em 2022, depois de sofrer quedas no Tirreno-Adriático, Volta ao País Basco e Dauphiné, ver Mas a fazer-se montanha abaixo era uma experiência dolorosa. A bicicleta quase parava nas curvas, de nada servia colocar colegas à sua frente para lhe indicarem as trajetórias.
Enric até poderia seguir o ritmo dos melhores a subir, mas, a descer, ou perdia tempo ou perdia o equilíbrio, com múltiplos incidentes.
Enric Mas sofreu bastante com quedas ao longo da carreira
David Ramos
Para solucionar o problema, Mas procurou ajuda. Recorreu a Óscar Saiz, ciclista de BTT, um especalista a descer, e a Jaume Mas, não um familiar seu mas antigo colega de escola que é psicólogo desportivo. Saiz já ajudara outro homens da estrada que tinham dificuldades na mesma área, como Thibaut Pinot.
A técnica foi melhorada, o medo desapareceu. O trauma está enterrado.
Fim da espera?
Muito tempo depois da vaticinada sucessão de Alberto Contador, Mas pode, efetivamente, dar continuidade às proezas douradas do ciclismo espanhol. Nenhum homem do país ganha uma grande volta desde que Contador levou a rosa do Giro em 2015, sendo também o mesmo corredor o derradeiro a triunfar na Vuelta (2014) e no Tour (2009).
Também a Movistar, equipa que se orgulhou, ao longo das décadas, de ser uma espécie de seleção nacional espanhola, pode livrar-se de anos de terror. Os tempos de Miguel Indurain (ganhador do Tour cinco vezes e do Giro em duas ocasiões), Pedro Delgado (campeão da Vuelta 1898), Abraham Olano (ganhou a Vuelta 1998), Alejandro Valverde (Vuelta 2009) ou Nairo Quintana (Vuelta 2016) deram lugar a temporadas em que o centro das bicicletas se moveu para outras geografias, um mal que também chega a Itália, igualmente em crise velocipédica.
Incapaz de competir com o investimento dos atuais colossos — UAE Emirates, Visma, Red Bull... — e sem aceder aos galáticos predadores que devoram tudo por onde passam (Pogačar, Vingegaard, Evenepoel, Van der Poel...), a Movistar viu-se obrigada a lutar por objetivos mais modestos. A descida de divisão, caindo do World Tour, chegou a ser uma hipótese para um conjunto na estrada desde 1980. Enric Mas, o altamente criticado líder, tem nos pedais a chance de recuperar memórias doces.