O ciclismo fala-se em espanhol: Mikel Landa conquista a etapa rainha que coroou Enric Mas como vencedor da Vuelta
A personificação do esforço, Mikel Landa, na primeira vitória desde 2021
Alexander Hassenstein
Com a Movistar exclusivamente preocupada em proteger o camisola vermelha, a etapa 20 da Vuelta foi um mar de imprevisibilidade. Na altura em que os objetivos se decidiram, quase todos quiseram jogar uma última cartada. Vindo da fuga, Mikel Landa voltou a emocionar-nos
O palmarés de Mikel Landa é muito mais reduzido do que pode parecer. Os dados aconselham-nos a não o termos demasiado em conta. As sensações dizem-nos para sofrermos por ele até ao risco branco.
A última vitória do espanhol remete para 2021. Desde que rumou à Soudal Quick-Step, nunca tinha sequer triunfado. Só agora, na etapa 20 da Vuelta, quando até já anunciou que vai rumar à Euskaltel-Euskadi em 2027, é que ganhou com o maillot da atual equipa.
Landa nunca foi irrelevante. O corredor de 36 anos entregou ao imaginário do ciclismo imagens de pura abnegação, sacrifício extremo, resiliência. Há uma tendência para nos apegarmos mais facilmente a quem esfarrapa a alma. Talvez por isso o tenhamos tão presente. Foi personificando o esgotamento que o Landismo, a fé que une quem se identifica com estes valores, voltou a imperar no Collado del Alguacil.
Foi um dia de celebração do ciclismo espanhol. Mikel Landa levou a corrida e Enric Mas assegurou a camisola vermelha. O líder da Movistar ampliou a vantagem para 2’15’’ face a Primož Roglič, diferença que parece impossível de desfazer numa etapa em circuito que até pode vir a ser neutralizada.
Liberdade para o caos
A Movistar é atualmente a 19ª melhor equipa do pelotão internacional. Existem três conjuntos ProTour (Pinarello, Tudor e Cofidis), a segunda divisão do ciclismo mundial, com mais pontos UCI do que os espanhóis. Em 2026, a única vitória WorldTour, o circuito principal, ocorreu já durante a Vuelta, quando Enric Mas conquistou a etapa 9.
A presença da camisola vermelha dentro da equipa foi como dar a um músico um bombo e pedir-lhe que tocasse a Sinfonia n.º 9 de Beethoven. A capacidade modesta diminui as hipóteses de controlar corridas muito além de verificar se Primož Roglič e Félix Gall vão estando na retaguarda de Enric Mas.
A camisola vermelha está definitivamente colada a Enric Mas
Tim de Waele
A ausência de uma força coletiva dominante, papel que UAE e Visma costumam assumir, reforça a imprevisibilidade. A lógica esteve tão ausente que Ivo Oliveira passou cerca de 150 km na frente da etapa rainha. A presença maioritária da Uno-X no grupo dianteiro, com quatro elementos, livrou outros corredores da exposição ao vento durante as subidas do dia. Um dos beneficiados foi o português que sobreviveu relativamente bem a um tipo de terreno que não lhe corre nas veias. Completamente fora do seu ambiente, cedeu durante uma subida de primeira categoria a 38 km do final sem que lhe pudesse ser retirado o mérito de ter aguentado tanto tempo fora de água.
O grupo dos favoritos passou por momentos de apatia em excesso. Entreolhando-se, só faltou colocarem o pé no chão. Richard Carapaz foi o único que não se contentou com o quarto lugar e tentou melhorá-lo. Os esforços foram em vão (+6’54’’).
Por sua vez, Sepp Kuss fez por entrar no top-10. A movimentação do norte-americano contou com a ajuda de Jørgen Nordhagen e levou-o a saltar seis lugares na classificação geral, atingindo o quinto posto (+8’45’’). A jogada tardia da Visma também contou com o empenho de Wout van Aert (62 pontos), que se colou a Santiago Buitrago (78 pontos) na classificação da montanha.
Tentando aproveitar a quebra de Primož Roglič mais do que para expor Enric Mas, Félix Gall também se movimentou. Não roubou o segundo lugar ao esloveno, mas ficou a apenas 29’’.
Tobias Halland Johannessen, Ramses Debruyne e Mikel Landa entraram na subida final a cerca de 3’10’’ dos perseguidores mais próximos. A meio da subida, o corredor da Soudal Quick-Step lançou o derradeiro ataque. Pese embora a tentativa de Halland Johannessen para materializar o plano da Uno-X, a etapa ficou mesmo nos pedais do espanhol.