Ronaldo estará a fazer pirraça no Al-Nassr e terá recusado jogar pelo clube
O Al-Nassr paga a Cristiano Ronaldo o salário mais elevado no futebol atual
Yasser Bakhsh
Ronaldo alegadamente não quis jogar esta segunda-feira pelo Al-Nassr e esta é uma história com vários supostos: o clube terá esvaziado de funções Simão Coutinho e José Semedo, dois amigos de Ronaldo que são diretores no clube, e desinvestido na equipa enquanto o maior rival da liga saudita investe na sua. Mas há uma certeza: a menos de cinco meses do Mundial, o capitão da seleção protagoniza uma polémica que lhe pode custar tempo de jogo
O resumo do imbróglio dispensa muito palavreado: Cristiano Ronaldo está supostamente piurso com o menosprezo do Fundo Soberano Saudita (PIF) para com o seu clube e supostamente descontente com o próprio clube, por este ter supostamente esvaziado de funções Simão Coutinho, o diretor-desportivo do Al-Nassr, e José Semedo, o CEO. Tanto será o desgosto que o capitão da equipa ter-se-á recusado a jogar, esta segunda-feira, contra o Al-Riyadh.
Esta é a história de uma pirraça em andamento, contada pelo jornal ABola e desenvolvida pelo MaisFutebol, que abarca vários supostos e um facto a ajudar à teoria, porque Ronaldo não esteve em campo, nem na convocatória do Al-Nassr, cujo treinador é Jorge Jesus. O resto são pedaços de contexto.
Para gritar ao futebol que era alguém e obrigar a que o nome do país saltitasse entre as notícias, o reinado da Arábia Saudita, via o seu tal PIF, começou a investir balúrdios de dinheiro tais, em jogadores tão conhecidos, que o mundo tinha de prestar atenção. O primeiro desta nova era de esbanjar milhões foi Cristiano Ronaldo, contratado ainda em dezembro de 2022, antes do Mundial, para reforçar o Al-Nassr, um dos quatro clubes detidos em 75% do seu capital pelo fundo soberano saudita.
Recheados pelo dinheiro do reinado que transborda em petróleo, o quarteto foi esbanjando fortunas nos últimos três anos. Depois de Cristiano vieram Neymar (€90 milhões), Karim Benzema e N’Golo Kanté (a custo zero nas transferências, mas com alegados salários de €200 milhões), Fabinho (€46,7 milhões), Riyad Mahrez (€35 milhões), Otávio (€60 milhões) ou Galeno (€50 milhões), entre outros. Mais do que os valores pagos a comprar jogadores, a estes clubes sauditas forçaram a sua atração gravítica através dos contratos exorbitantes que têm capacidade de oferecer.
Além de inflacionar a competitividade da liga saudita, onde só quatro de 18 equipas conseguem brincar assim ao monopólio no futebol, com o tempo também se ouviu Ronaldo a reivindicar a responsabilidade de ter aberto a porta a esta romaria de estrelas.
Em três épocas, Ronaldo já marcou 117 golos em 133 jogos pelo Al-Nassr
Abdullah Ahmed
A lua de mel na Arábia
Capitão do Al-Nassr desde o primeiro dos 133 jogos que já somou, o clube fez-lhe outras vontades no último verão, quando contratou Simão Coutinho e José Semedo, ambos amigos seus. De repente, Cristiano ganhava pessoas de confiança em cargos de relevo no clube que lhe paga (outro suposto) o maior salário do futebol: €209 milhões por ano.
O seu ocaso futebolístico planava sem ventos laterais, ele a marcar golos atrás de golos (117) num campeonato gentil, focado no seu novo objetivo de chegar aos mil na carreira (faltam 39) enquanto intocado manteve, nestas últimas três épocas, o seu peso na seleção nacional - 25 remates certeiros em 29 jogos com Roberto Martínez.
Até o caldo entornar esta semana, supostamente.
O incómodo de Ronaldo, explica o MaisFutebol, vem da decisão do Al-Nassr em congelar os poderes efetivos dos amigos Simão Coutinho e José Semedo, em simultâneo com a quase nula atividade do clube na janela de transferências deste inverno, na qual apenas contratou Haydeer Abdulkareem, um jogador de 21 anos, vindo do Al-Zawra’a do Iraque. E terá aumentado desde que o PIF cedeu a gestão do Al-Hilal, o principal rival e líder do campeonato, a um princípe saudita, de seu nome Alwaleed Bin Talal Alsaud, que não tem evidenciado pudores em investir.
O clube já gastou, neste mercado, mais de €35 milhões em contratações contra o quase nada do Al-Nassr. Desde 2023, quando Cristiano chegou à Arábia Saudita, o seu clube investiu €409 milhões a comprar jogador contra os €624 milhões do Al-Hilal: os outros dois apoiados pelo PIF, o Al-Ahli e o Al-Ittihad (treinado por Sérgio Conceição), gastaram €380 milhões e €334 milhões.
Para ajudar à suposta narrativa que levou ao finca-pé de Ronaldo, o Al-Nassr vendeu Wesley, um dos habituais titulares, à Real Sociedad neste mercado, que na Arábia Saudita é como Portugal e encerra esta segunda-feira, 2 de fevereiro. Sinónimo de pouco tempo restar ao clube de Cristiano para lhe satisfazer quaisquer supostas vontades no que toca a idas às compras.
E a ser verdade, o berbicacho pode inundar até à beira da seleção nacional se apanharmos a boleia do supostamente e aceitarmos o hipoteticamente: caso a disputa de Cristiano Ronaldo com o seu clube continue, o capitão de Portugal, com a frescura dos seus 41 anos, estaria a ameaçar o seu tempo de jogo quando restam menos de cinco meses para o Mundial.