Cristiano Ronaldo

Quem mais perde com o caso Ronaldo? “O valor da marca dele já não está dependente há vários anos da performance como jogador”

Cristiano Ronaldo no banco durante o jogo de futebol da UEFA Nations League com a Noruega, a 27 de setembro de 2026
Cristiano Ronaldo no banco durante o jogo de futebol da UEFA Nations League com a Noruega, a 27 de setembro de 2026
PAULO NOVAIS

Daniel Sá, diretor-executivo do Instituto Português de Administração de Marketing, considera que a Federação Portuguesa de Futebol deve preparar uma transição para manter a visibilidade da seleção.

A decisão de Cristiano Ronaldo de abandonar o estágio da seleção portuguesa tem impacto global, dada a visibilidade do futebolista, considerou, quarta-feira, Daniel Sá, diretor-executivo do Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM).

"Ronaldo é a maior marca que este país alguma vez teve, que deve ser produzida e trabalhada, e devemos todos pensar na forma de fazer esta gestão da transição, porque nós, portugueses, beneficiámos muito, durante muitos anos, da força desta marca", afirmou à Lusa o especialista.

O avançado deixou, na tarde de quarta-feira, o estágio da seleção, na véspera do jogo com a Dinamarca, para a Liga das Nações, depois de mais de 23 anos ao serviço da equipa das "quinas". Ronaldo arrisca uma suspensão entre um e seis meses e uma multa, segundo o regulamento disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol (FPF).

Para Daniel Sá, a saída terá menos impacto na marca pessoal do futebolista do que na imagem da seleção portuguesa. "Para o próprio, acho que já não tem muito impacto, porque Ronaldo e o valor da marca dele já não está muito dependente há vários anos da sua performance como jogador", sublinhou.

"Ele já fez tudo, ou praticamente tudo, quer em termos coletivos, quer individuais, e é difícil de igualar", acrescentou, considerando que a marca Ronaldo está atualmente mais associada às suas atividades como investidor, influenciador e figura pública.

O especialista defende que a FPF terá agora de preparar a transição de uma seleção fortemente associada à imagem do avançado, que representa Portugal há mais de duas décadas.

"A federação tem que tomar uma opção estratégica de como manter a atenção sobre a marca Portugal, perdendo uma estrela desta dimensão magnânime", afirmou.

Daniel Sá considerou ainda que a seleção portuguesa está a atravessar uma "crise" que, aparentemente, "não foi planeada, nem programada", referindo-se à saída de Ronaldo e à aparente divergência com o selecionador Jorge Jesus.

"Há aqui uma zanga aparente entre Jorge Jesus [selecionador luso] e Cristiano Ronaldo, que há cinco ou seis dias estavam juntos numa conferência de imprensa onde parecia tudo bem, mas as crises são assim, acontecem, e o mundo continua", afirmou.

O especialista comparou a repercussão mediática do episódio com a de alguns dos principais acontecimentos internacionais da atualidade, como as eleições no Brasil, a guerra na Ucrânia, as intervenções do Presidente norte-americano, Donald Trump, ou o avanço da extrema-direita na Alemanha.

"Este assunto da zanga entre Ronaldo e Jorge Jesus junta-se rapidamente, não apenas em Portugal, mas no mundo inteiro, a este patamar de tema quente", afirmou, considerando que o episódio demonstra "a importância e a visibilidade que Portugal tem como seleção, mas, sobretudo, de Ronaldo como marca".

Daniel Sá recusou, contudo, pronunciar-se sobre as razões que levaram o futebolista a abandonar o estágio.

"Esta é a prova do alcance deste acontecimento, e não estou a discutir se ele teve razão, se não teve razão, se fez bem sair, se não fez bem sair, desconheço com detalhe as razões", afirmou.

O especialista acredita que a crise será ultrapassada e considera que Jorge Jesus terá agora de concentrar-se no encontro com a Dinamarca.

"Jorge Jesus tem amanhã [quinta-feira] o jogo contra a Dinamarca, não tem Ronaldo, mas tem uma série de gente com muita qualidade, e portanto, como treinador experimentado que é, tem que, entre hoje à noite e amanhã, arranjar uma solução de ter a equipa focada para ter o melhor resultado", assinalou.

Quanto a Ronaldo, Daniel Sá considera que o futebolista deverá preocupar-se com a forma como ficará a sua última imagem enquanto jogador da seleção portuguesa.

"Tem que pensar como é que quer deixar a última imagem como jogador de Portugal", afirmou, defendendo que esta não deve ser "a última imagem com que as pessoas fiquem destes 20 anos como atleta do mais alto nível da seleção portuguesa".

A FPF, por sua vez, deverá preparar uma transição que permita preservar a visibilidade conquistada pela seleção durante os anos em que Ronaldo foi a sua principal figura.

A federação está, segundo Daniel Sá, "ancorada na visibilidade que o Ronaldo deu nestes 20 anos" e deve "encontrar uma forma de ter uma transição positiva com a saída do Ronaldo", concluiu.

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