Simão Coutinho e Tiago Craveiro, as duas pessoas próximas de Ronaldo mas alheias à seleção nacional que reuniram com Jesus
Cristiano Ronaldo fotografado durante um jogo do Mundial de 2026, o sexto em que jogou
Alex Pantling - FIFA
Um é diretor desportivo do Al Nassr, clube onde joga Cristiano. O outro trabalha como consultor da CR7 SA, empresa que gere os negócios do jogador. Simão Coutinho e Tiago Craveiro foram identificados no comunicado de Ronaldo como testemunhas das conversas que o futebolista teve com Jorge Jesus no estágio da seleção nacional, tendo participado nas reuniões com o treinador
O seu nome e apelido surgem cinco vezes nas cinco páginas do comunicado, a primeira com direito a súmula para o descrever: “diretor desportivo do Al Nassr“, lê-se, mas mais, já que Ronaldo quis apresentá-lo como “pessoa a quem reportava o atual selecionador durante toda a época passada“ além de “um dos responsáveis pela sua contratação pelo clube em 2025“. No mesmo parágrafo, Cristiano não só dá conta da presença de alguém alheio à seleção nacional nas reuniões que teve com Jorge Jesus, como situa a sua relevância para o emprego anterior do treinador.
Essa pessoa é Simão Coutinho.
Outrora futebolista, saiu bastante jovem do Vianense da sua terra para terminar a formação no Sporting. Jogou a defesa central, convocado foi para as seleções entre os sub-17 e os sub-19. Como sénior esteve no Gil Vicente sem alguma vez calçar as chuteiras na primeira divisão, despedindo-se das andanças de jogador em 2012, no Boavista, tinha 25 anos. Tornou-se personal trainer e não demorou a virar empresário, entrando na ProEleven, uma das maiores agências de Portugal onde representou vários jogadores.
De lá saiu no verão de 2025, cumpridos mais de 11 anos na empresa, para ser diretor desportivo do Al Nassr, mudando-se para a Arábia Saudita que tem dedicado os seus bolsos largos ao futebol, canalizando-os especialmente para quatro clubes, um deles o de Ronaldo. Mas, em fevereiro, o jogador fez pirraça, noticiou-se até que era uma greve, faltando a treinos por desgostar do suposto abrandamento do Fundo de Investimento Público (PIF) saudita no reforço da equipa e da alegada perda de protagonismo de José Semedo, seu amigo de largos anos e diretor-executivo do Al Nassr, além de Simão Coutinho. No clube ainda estava, também, Jorge Jesus.
Em agosto, sabemo-lo porque escrito ficou no comunicado de Ronaldo, o dirigente esteve no primeiro encontro em pessoa entre Cristiano e o então recém-contratado novo selecionador nacional: ou seja, o diretor do clube onde joga o capitão de Portugal “acompanhou as conversas” entre o capitão e o treinador. Cristiano fez questão de o ter lá, repetindo o ato dois dias após ser suplente em Oslo, aquecer na segunda parte, não entrar no jogo e queixar-se de Jesus “falhar com a sua palavra” — Simão Coutinho esteve “no momento profundo e muito frontal” em que jogador e selecionador travaram-se de razões.
Por duas vezes Ronaldo escreveu que tudo aconteceu “na presença” do dirigente do Al Nassr, reforçando o seu papel de testemunha. E ainda o mencionou como parte de outra reunião, ocorrida depois, sem o jogador, na qual Jorge Jesus privou com duas pessoas externas à seleção nacional com o intuito de resolver o imbróglio instaurado na seleção.
Além de Simão Coutinho, lá estava Tiago Craveiro.
Ao contrário do futebolista tornado empresário e virado dirigente, é uma figura com passado relevante ligado à Federação Portuguesa de Futebol. Serviu como diretor-geral da entidade durante uma década, entre 2012 e 2022, era um esteio da organização aquando da conquista do Europeu de 2016 e, três anos depois, da Liga das Nações, uma competição que lhe diz muito. A prova, criada pela UEFA, germinou da ideia de Tiago Craveiro em “acabar com os jogos amigáveis de seleções” que tinham “lógica nenhuma”, como escreveu na Tribuna Expresso pouco após a vitória na primeira edição.
Para convencer quem de direito fez “um documento em 11 pontos”, menos dois do que os nove que saíram da reunião entre ele, Jorge Jesus e Simão Coutinho, validados por Ronaldo e solicitados pelo selecionador nacional para supostamente afinar a sua intervenção na conferência de imprensa antes do Dinamarca-Portugal. Houve semelhanças no modus operandi: Tiago Craveiro é, desde o final de 2023, consultor estratégico da CR7 SA, empresa de Cristiano que gere os seus negócios extra-futebol.
Entre eles constam os 30% da participação do jogador na Medialivre, grupo de comunicação detentor do Correio da Manhã, jornal e canal de televisão, do NOW e também do desportivo Record — um meio nada estranho a Tiago Craveiro, antigo jornalista do Diário de Notícias; e os 10% que o futebolista comprou da Visabeira, grupo detentor, entre outros, da Vista Alegre, empresa que integrou o consultor de Cristiano no seu conselho de administração com uma função não-executiva. Os negócios de Ronaldo pisam várias outras áreas, desde as artes marciais (WOW FC), a hotelaria (Grupo Pestana) ou os implantes capilares (Insparya).
Tiago Craveiro foi diretor-geral da Federação Portuguesa de Futebol entre 2012 e 2022, durante a presidência de Fernando Gomes
Gualter Fatia
Tiago Craveiro teve apenas uma menção na reação de Cristiano à quezília com Jorge Jesus, ao dar conta de que esteve no tal encontro, por videochamada, ocorrido entre os jogos frente à Noruega, em Oslo, e diante da Dinamarca, em Copenhaga. Terá estado enquanto representante do jogador, não sendo essa, contudo, a sua única ocupação. Desde 2022 que também é consultor da UEFA e do seu presidente Aleksander Čeferin, que o elogiou como um “trunfo essencial para os assuntos estratégicos” da organização.
Hoje convive com quem manda no futebol europeu e com o maior futebolista português da história, antes foi uma das vozes com maior peso na FPF liderada por Fernando Gomes. E, antes ainda, trabalhou como secretário-geral da Liga de Clubes sob três presidentes: Hermínio Loureiro, o mesmo Gomes e Mário Figueiredo. Descreveu-se, em tempos, como tendo “pouca ou nenhuma base de futebol“ onde entrou pela mão de Loureiro, com quem trabalhou na política, ao ser seu chefe de gabinete na secretaria de Estado da Juventude e do Desporto.
O tal “pequeno documento” saído do encontro de Tiago Craveiro e Simão Coutinho com Jorge Jesus, pelo que se entende do comunicado, teve como obreiros os dois homens da confiança de Cristiano, que depois o validou. E eles serão, à falta de mais pessoas identificadas, as duas que validam o que Ronaldo contou na sua versão dos acontecimentos. Está lá escrito, no 53º parágrafo: “como poderá testemunhar quem assistiu a estas conversas.“