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Crónicas de jogos

A vida é mais fácil com Messi

A vida é mais fácil com Messi
Laurence Griffiths

Com golos de Messi e Julián Álvarez, a Argentina bateu a Austrália e já está nos quartos de final do Campeonato do Mundo, onde vai defrontar os Países Baixos, um duelo que nos transporta para 1978, Kempes e a bola no poste de Rensenbrink. Dibu Martínez, o guarda-redes argentino, foi o herói no último suspiro

A vida é mais fácil com Messi

Hugo Tavares da Silva

enviado ao Mundial 2022

Muchachos, ahora nos volvimos a ilusionar /
quiero ganar la tercera, quiero ser campeón mundial /
y al Diego, en el cielo lo podemos ver /
con don Diego y con la Tota, alentándolo a Lionel

As cadeiras vibravam e parecia algo sobrenatural. Talvez alguém tivesse importado um pouco de Bombonera para o Catar. O cântico veste um ritmo lento e, mirando a letra, é bastante emocional, mas esta gente consegue cantá-lo a saltar. E o estádio saltou todo, menos o sol, desfilando o seu manto amarelo vivo, que estava atrás de uma baliza, pertencente aos corajosos australianos. A Argentina conquistou esta noite, em Doha, a passagem aos quartos de final do Campeonato do Mundo e tem de agradecer sobretudo a um senhor: Lionel Messi.

Normalmente os argentinos pedem ‘huevos’, que é um parente do “tomates”, ou seja, ser rijinho e bravo, corajoso. Mas no futebol a coragem está do lado de quem pede a bola e joga, normalmente está do lado dos artistas, que sempre aceitam a bola, que sempre inventam algo, que sempre são generosos ou resolvem um problema. O jogo esteve muito tempo embrulhado. A Austrália ia defendendo num 4-4-2 curtinho, pouco ambicioso e sem grandes ideias na frente. Do outro lado, Enzo Fernández, um dos mais aplaudidos pelos adeptos, esteve entre os centrais para começar muitas jogadas. Os colegas já confiam nele. Os dentes da bota, idem. O pibe está muito confortável.

Ángel di María estava fora, tocado. Para compensar, ouviu muitíssimos elogios de Cesar Menotti, campeão do mundo em 1978. Foi Papu Gómez a entrar para o lugar do canhoto, acompanhando assim Julián Álvarez e Messi. Não estavam muitíssimo finos, e até tinham perdido a bola por alguns minutos (tudo orquestrado por Aaron Mooy), mas depois surgiu o camiseta 10, que aproveitou uma bola que era para Otamendi para assumir os passos do tango e metê-la na baliza de Mathew Ryan. Até aqui, o génio estava a fazer um jogo humilde.

NurPhoto

O golo ligou um pouco os argentinos e meteu giz na vida de Lionel. O outro Lionel, Scaloni, deu outra vida à seleção sul-americana depois do intervalo, quando os australianos estavam a pressionar muito mais em cima e com outra energia. Com a entrada de Lisandro Martínez, a Argentina ficou em 5-3-2 e cresceu. Otamendi mantinha o nível que trazia até aqui na mochila. Emiliano Martínez, que seria o derradeiro herói da noite, meteu-se em apuros com a bola nos pés em dois momentos.

Do outro lado aconteceu o mesmo, mas Rodrigo de Paul (que grandíssima exibição, finalmente) e Álvarez roubaram mesmo a bola a Ryan e o 9 meteu o 2-0, levando o Estádio Ahmed bin Ali ao delírio. Scaloni pedia para continuarem, Marcos Acuña aceitava o desafio. Enzo ia-se exibindo a um nível muito satisfatório, metendo algumas solas na bola, o que comprova a confiança a bater no tecto.

Esta Austrália até teve bons momentos a sair desde trás, mas à frente o jogo era mais rudimentar, menos criativo e pesado. Cristián Romero, Otamendi e Lisandro Martínez iam fechando a porta, mas a fiabilidade defensiva acabaria por conhecer a corrosão e alguns apuros. Messi meteu-se em trabalhos e quase fez uma daquelas suas jogadas de todos os tempos. “Meeeeessi, Meeeeeessi, Meeeeessi”, gania a moldura feita de gargantas. O mago fez então uma parede com Enzo e estava inaugurada uma amizade futeboleira muito séria.

A bola, que sabe uma coisa ou duas sobre esta vida, só queria as botas dos futebolistas argentinos. De Paul teve uma noite muito importante para o seu orgulho. Scaloni não o deixou cair nos primeiros jogos depois de exibições muito pobres, em que estava realmente desconfortável com a bola. Esta noite foi tudo ao contrário. Teve finalmente os huevos que tinha nos tempos da Udinese, jogando bem e mantendo aquela competitividade toda.

Justin Setterfield

Dibu Martínez, o arquero argentino, tentava esfriar a pressão australiana com dois momentos à Vítor Baía, segurando a bola e caindo de joelhos, deitando-se depois, como se estivesse num dia fatigante de praia. Os australianos não gostavam, os sul-americanos celebravam.

Aos 77’, um remate de Aziz Behich, que teria o seu momento maradoniano, desviou em Enzo Fernández e enganou o pobre e agora injustiçado guarda-redes do Aston Villa, 1-2. Os treinadores iam mexendo, o jogo ficava descontrolado e mais incerto, e Messi desatou num acerto impressionante de decisões e acelerações para os colegas, juntando dribles e mudanças de direção divinas. Foi uma meia hora memorável, de película. Os adeptos cantavam mais alto depois de cada momento de aperto. Mark Schwarzer, na tribuna de imprensa, quase mudou de código postal ao saltar após a inesperada jogada de Behich pela esquerda. O corte de Lisandro pertencia aos contos de Cortázar.

Messi tentou então resolver o jogo, rematando ele ou oferecendo, sobretudo a Lautaro Martínez, que não está a dar com a tecla. Para sorte dele, não aconteceu o desfecho da Bélgica, que maltratou o arruinado Lukaku. Nos últimos suspiros e suspiros dos suspiros, Emiliano Martínez encheu a baliza toda quando Garang Kuol teve o destino de uma nação inteira no pé direito. O guarda-redes, de Mar de Plata, salvou a Argentina e alguns colegas mergulharam para a relva para celebrarem com ele. Que fim de jogo.

A energia que se sentiu no estádio foi sufocante, como se o medo tivesse sugado todo o ar disponível para todos. Houve muito medo e também arrojo para tentar um fado diferente, com o qual poucos contavam. Mas a Argentina seguiu em frente e vai agora defrontar os Países Baixos, o que nos leva para a final de 1978, Kempes e a bola no poste de Rensenbrink. Já Messi, caminhante lunático, honrou o deus sujo e pecador, o mais humano dos deuses, por quem cantam os argentinos a cada minuto 10.

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