Crónicas de jogos

Sporting e o compêndio do campeão para fechar o campeonato

Sporting e o compêndio do campeão para fechar o campeonato
PATRICIA DE MELO MOREIRA

Exibição completa da equipa de Rúben Amorim que embelezou a festa do título em frente aos adeptos com uma vitória clara por 3-0 às custas do já despromovido Chaves. Gyökeres marcou mais dois, Paulinho fechou as contas, no dia em que o Sporting confirmou o registo perfeito em casa, deixando o Benfica a 10 pontos

Vamos imaginar que, como naquelas histórias de homens solitários que se escondem durante décadas e décadas em selvas temendo ainda haver guerra fora delas, alguém tivesse aterrado hoje na civilização, não sabendo que o Sporting era campeão nacional. E que era preciso explicar a esse cidadão o que tinha sido esta caminhada até ao título. Este último jogo do campeonato, em casa e em plena festa e comunhão com os adeptos, frente ao Chaves, seria um bom compêndio.

Houve Gyökeres decisivo e terraplanante, a correr durante 90 minutos contra o mundo, houve momentos de organização ofensiva reluzentes, houve uma defesa quase sempre afinada e ligada nos momentos de ataque, mesmo com alterações na sua constituição. Houve um Trincão tecnicamente tremendo e até um Paulinho a mostrar os dentes.

Frente a um Chaves já sem nada a ganhar, a não ser a sua honra - nem sempre bem acondicionada durante esta liga - o Sporting marcou relativamente cedo, como tantas vezes fez ao longo desta época, afastando os delírios de sofrimento aos quais tanto se agarrou em outros tempos. Em 2023/24, aconteceu Sporting, não acontecendo Sporting.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Gyökeres marcou de penálti aos 23’, depois de Inácio já ter enviado uma bola ao poste após livre lateral (também não inédito esta temporada) e de um ror de jogadas coletivas do ataque, aberturas, triangulações, bolas no espaço onde já se sabe que um jogador vai aparecer. Este é o Sporting 2023/24, uma peça de relojoaria.

Numa dessas jogadas, pouco antes dos 40 minutos, Trincão brincou com os adversários pela direita e deu depois a Pote que encontrou a movimentação de Esgaio. O lateral, em terrenos que não são seus (mas que neste Sporting podem muito bem ser seus) encontrou Gyökeres no coração da área, com o sueco a receber de costas e a rodopiar sobre Ygor Nogueira, uma brincadeira quase cruel com semelhanças ao primeiro golo do avançado no campeonato, frente ao Vizela, que acabou também dentro da baliza.

Dos visitantes viram-se laivos de tentativa de estragar a festa no início de cada parte, Jô Batista sempre como protagonista, coadjuvado por João Correia após o intervalo - isto foi um compêndio, mas não se peça ao campeão nacional 90 minutos de total concentração. Um golaço de Paulinho, aos 55’, acabou com tais aspirações. A abertura de Neto para a esquerda, onde encontrou Nuno Santos, é uma homenagem por si só, feita pelo próprio para o próprio e para o Sporting, ao tanto que terá dado àquele balneário. O cruzamento saiu alto e alto foi o pé de Paulinho para o remate acrobático e de primeira, aumentando o culto a um jogador que o vai fomentando. Logo de seguida, Neto saiu para receber o abraço coletivo de um estádio emocionado.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Daí até final, o ritmo baixou, Pote ainda levou a bola aos ferros num livre direto, o guarda-redes Francisco Silva estreou-se para ser também ele campeão e, mais uma para o compêndio sportinguista 2023/24, Gyökeres correu até ao fim, como um desalmado, insistentemente à procura daquele que seria o golo 30 na liga. Quando o árbitro apitou para o final do jogo, protestou. Queria jogar mais.

E talvez esta seja a definitiva imagem do Sporting esta temporada: Gyökeres danado por não marcar mais um no dia em que os leões confirmaram o registo perfeito em casa, só com vitórias, aumentando a vantagem para o 2.º classificado para 10 pontos.


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