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Crónicas de jogos

Na estreia em Old Trafford, Ruben Amorim viu o jogo de cócoras. Já o Manchester United está a começar a erguer-se

Na estreia em Old Trafford, Ruben Amorim viu o jogo de cócoras. Já o Manchester United está a começar a erguer-se
Robbie Jay Barratt - AMA
Ruben Amorim sentiu Old Trafford pela primeira vez com público. Foi com uma exibição inconstante que o Manchester United se estreou a vencer na era onde quem manda é o treinador português. Os red devils bateram o Bodø/Glimt (3-2) na Liga Europa e deram o primeiro passo do novo “sonho impossível”
Na estreia em Old Trafford, Ruben Amorim viu o jogo de cócoras. Já o Manchester United está a começar a erguer-se

Francisco Martins

em Manchester

“Quando vemos na televisão impressiona, mas quando se está aqui… conseguimos senti-lo.”

A magnificência de Old Trafford conquistou Ruben Amorim no primeiro dia em que pisou o relvado como treinador do Manchester United durante os compromissos mediáticos da sua pomposa apresentação. Não é difícil que esta catedral leve toda a resistência emocional de um indivíduo por menos dado às questões do afeto que ele seja.

Foi com o miocárdio que o treinador português pagou a caução de ter aceitado uma tarefa do tamanho da equipa que agora comanda. Na cidade, dizem que é a maior do mundo. Para que nunca se esqueça da dimensão deste imbróglio que é tentar devolver a glória ao Manchester United, sempre que levantar a cabeça no banco de suplentes terá um lembrete. “The impossible dream made possible…”. Junto desta tarja estão representados os troféus que Alex Ferguson venceu quando “o sonho impossível se tornou possível”. Basta olhar em frente, no mesmo sentido para onde quer guiar os red devils.

Ruben Amorim tem uma nova casa onde 75.000 pessoas que já lá moravam o acolheram como se nela o técnico não estivesse a passar a primeira noite, como se fosse um mancunian há muito tempo. Uma tarja a desejar-lhe as boas-vindas e um caloroso aplauso acompanharam-no até chegar à área técnica. Preferiu sair do túnel apenas quando os jogadores de Manchester United e Bodø/Glimt também o fizeram para não correr o risco de uma vénia exclusiva apenas à sua pessoa.

O calor é um bem escasso para os lados de Manchester pelo que o fervor associado à estreia de um novo treinador não era de se desperdiçar. Bem que, na rua, se vendiam cachecóis com o rosto do ribatejano desenhado pelas linhas. Uma oportunidade de negócio? Sim. Uma dica para que, se tanto entusiasmo desse para o torto, o clima natural de Manchester pudesse sobressair? Também.

Martin Rickett - PA Images

Mal o jogo contra os noruegueses começou, Ruben Amorim dispôs o peso total do corpo nas dobradiças das pernas. Desde que rumou a Inglaterra, parece ter recuado um pouco na evolução da postura corporal da espécie humana, tal a frequência com que se apoia nos joelhos. Não foi portanto do ângulo mais natural aquele que viu o golo de Garnacho, ainda antes do primeiro minuto de jogo. Højlund pressionou o guarda-redes Haikin à brava e, quando os dois estavam engalfinhados no chão, o argentino apareceu a arrumar a questão.

De novo, tal como tinha acontecido em Ipswich (1-1), no primeiro jogo que orientou, Amorim via o Manchester United marcar cedo. Tal como tinha acontecido em Ipswich, o Manchester United sofreu pouco depois. E não por uma, mas por duas vezes.

Tyrell Malacia, uma das novidades no onze inicial, foi especialmente exposto às investidas do Bodø/Glimt no corredor esquerdo. Em particular no segundo golo dos nórdicos, quando foi batido em velocidade por Zinckernagel, ficou mal visto. No primeiro, a temporização de Fet, que serviu Evjen, desbaratinou a defesa dos red devils de um modo geral. Ao intervalo, Diogo Dalot entrou para essa posição.

Enquanto o Manchester United perdia por 2-1, alguém atrás da bancada de imprensa gritava: We are losing reds! Por esta boca ou por outras, o aviso chegou a Højlund que, mostrando destreza para responder a cruzamentos, bisou.

Marc Atkins

Ruben Amorim já vinha avisado que o seu 3x4x3 não é estanque. Terá surpreendido o público inglês, que muitas vezes viu o Manchester United defender com uma linha de quatro, com Mazraoui a ajudar no corredor direito para compensar o estratégico descomprometimento de Antony.

Embora frívola para o resultado (ignoremos o golo que nasceu de um erro de Haikin), a pujança de Garnacho foi a ameaça mais constante no ataque do Manchester United e até com bastante variabilidade. Na primeira parte, o sul-americano apareceu a fazer diagonais de dentro para fora. Na segunda, colou-se à linha para Dalot ser incluído entre linhas.

O Bodø/Glimt acabou por perder, depois do intervalo, a capacidade de ser agudo no contra-ataque. Mérito do Manchester United que, desta vez, foi uma equipa à Ruben Amorim durante mais tempo (ainda que longe da perfeição). O 4x3x3 da equipa de Kjetil Knutsen deixara de conseguir aceder ao prodigioso espezinhamento de bola de Jen Petter Hauge e ao raciocínio ágil de Patrick Berg, tanto que os noruegueses quase não chegaram à baliza de André Onana.

O 3-2 não estava agarrado com unhas e dentes pelo Manchester United. Amorim ficou a lamentar que Mason Mount não tivesse acertado na barra, mas sim nas redes da baliza do Bodø/Glimt. Da inclusão do inglês no onze, retirou o técnico de positivo a capacidade deste funcionar como terceiro médio, à frente de Manuel Ugarte e Bruno Fernandes, ex-sportinguistas em dueto no centro do terreno.

Martin Rickett - PA Images

A Inglaterra, o clube que veio do Círculo Polar Ártico trouxe qualquer coisa como 6.700 adeptos (o estádio onde disputa os jogos em casa tem 8.000 lugares). A muralha amarela que animou Old Trafford durante noventa minutos queria atrair o Bodø/Glimt até à baliza que lhes estava mais próxima de modo a que a equipa chegasse ao empate. Um mau atraso de Diogo Dalot para Onana quase estragava a festa de Ruben Amorim. Atack, atack, atack, gritava outro adepto. Então, na resposta, Garnacho teve uma oportunidade flagrante que desperdiçou, fado que outros lances de perigo protagonizados por Marcus Rashford e Amad Diallo também tiveram. Tivesse o livre de Patrick Berg, já na compensação, entrado e os erros teriam custado um preço inflacionado.

Old Trafford tem uma tradição comum a vários estádios ingleses. Quando não está a acontecer nada, não há motivo para fazer barulho. Isso ou o Teatro dos Sonhos estava acanhado com o seu novo morador. De qualquer modo, o estalar das mãos de Ruben Amorim a baterem uma na outra, como se estivesse a picar bonecos de vodu dos seus jogadores, ouviam-se da bancada. É sinónimo que ainda não está tudo bem, mas a vitória, conseguida com uma exibição irregular, foi quanto bastou para saciar alguém que chegou bastante habituado a esse sabor.

O método era pouco relevante. Importava a Amorim quebrar a barreira mental de obter o primeiro triunfo no novo clube. O que está para lá dessa parede só o tempo, esse outro exemplo de bem escasso, dirá se são os sonhos realizados de Amorim.

“Metade do estádio não me conhece. Não fiz nada por este clube ainda, mas senti-me um deles”, disse Ruben Amorim na conferência de imprensa que se dividiu entre o rescaldo ao jogo da Liga Europa e a antevisão ao encontro frente ao Everton. Mal terminou, o técnico dirigiu-se aos camarotes para socializar com as requintadas presenças que lá se encontravam. Treinar o United não é só treinar o United.

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