Os terrores do passado regressaram ao FC Porto pela mão do Vitória SC
JOSE COELHO
Noite para esquecer dos dragões, eliminados (3-1) da Taça da Liga, em casa, pelos vimaranenses. Farioli operou uma revolução no onze, mas os azuis e brancos somaram erros que fizeram lembrar a época passada
O fantasma do Natal passado aterrou no Porto. Bem, o fantasma do Natal, do magusto, da Páscoa, das épocas todas. Os traumas de 2024/25 dançaram pelo estádio, aproveitando as muitas opções para se sentar que havia, tal a quantidade de cadeiras vazias, reflexo de um modelo de competição doente.
Ainda não víramos uma exibição assim do FC Porto de Farioli. Já houve más exibições na Europa, partidas com muito sofrimento na I Liga, mas nada com este nível de erros, com uma sucessão de lapsos quase de apanhados. Nada em níveis de Anselmismo.
O técnico italiano revolucionou o onze, realizando nove mexidas face à receção ao Estoril. À medida que a conclusão do desafio se aproximava, foram entrando nomes de peso (Samu, Mora, Pepê, William Gomes, Alberto Costa), mas a falta de inspiração manteve-se. Villas-Boas, na tribuna presidencial, fechou a noite com olhos de 2024/25, uma mirada que AVB queria que fosse coisa de passado.
O Vitória SC, o Vitória cheio de problemas, o Vitória que partiu para a época com expetativas baixíssimas, teve uma noite de glória num grande palco. 3-1 e presença nas meias-finais da Taça da Liga, contrariando a lógica imposta por quem decide e intrometendo-se entre os crónicos quatro participantes. Discutirá o acesso à partida decisiva diante do Sporting, com Benfica e SC Braga na outra meia-final.
Em dia de cimeira de presidentes, quando se discutiu o presente e o futuro do futebol português, esta noite portuense é daquelas que poderia ajudar à reflexão. Uma prova que, na génese, serviria para dar mais jogos a quem disputa menos, que teria como aliciante dar mais chances de erguer um troféu a quem menos frequentemente os vence, é disputada num formato feito para levar os mais vencedores a ganharem ainda mais vezes. Uma competição que arranca nos quartos de final tem esses quartos de final a começarem a ser disputados em outubro e a terminarem em dezembro.
Nelson Oliveira faz o 1-1 de penálti
JOSE COELHO
O Dragão foi, quase sempre, um recinto frio, por vezes indiferente. Havia pouco público, as claques de ambas as equipas só se fizeram ouvir a partir dos 12', em protesto com o formato desta competição mutante, sempre assumindo novas versões, cada vez parecendo de forma mais evidente um embaraço, um obstáculo a contornar, e não uma cenoura que vale a pena perseguir.
O muito modificado FC Porto chegou logo aos 8’ ao 1-0. Dois dos mais utilizados que ficaram, Rosario e Gabri Veiga, combinaram para o golo, com o utilitário de Farioli a servir na profundidade o espanhol, que picou com classe por cima de Castillo. O lance deixou suspeitas de lesão para o autor do golo, mas Veiga permaneceria em campo até ao descanso. Foi dos poucos momentos de lucidez para os líderes do campeonato.
A perder, o Vitória deu uma boa resposta. A atravessar uma boa fase com Luís Pinto, capaz de competir adaptado a umas finanças carenciadas e um plantel que vai perdendo referências, a equipa de Guimarães chegou ao jogo com o embalo de cinco triunfos nas derradeiras sete partidas, os três últimos consecutivos e sem encaixar golos. Somaria mais um êxito, com direito a remontada.
Com apenas três alterações no onze face ao que apresentou no campeonato, o conjunto visitante foi capaz de explorar da melhor forma um FC Porto que atuou de mapa na mão, procurando perceber para onde eram os caminhos. E, pelo caminho, perdeu-se mesmo, como quem olha demasiado para o Google Maps e acaba por falhar o momento exato para sair da autoestrada.
A primeira parte foi composta por uma maioria de minutos em que, no terreno de jogo, os futebolistas pareciam em protesto com as contradições deste formato. Perdido em protestos, interrupções e quezílias, o fio do encontro estava cheio de intermitências, como se alguém não tivesse pago a mensalidade do canal premium. Fiel a tanto equívoco, Rosario atrapalhou-se, perdeu a bola para Camara e teve de derrubar o adversário. Nelson Oliveira aproveitou o penálti para levar o marcador para o segundo tempo com 1-1.
Samu Silva atira para o 2-1
JOSE COELHO
O recomeço completou a homenagem que o FC Porto fez a tempos menos felizes. Há uns meses, diante deste mesmo adversário, um livre a favor dos azuis e brancos acabou em golo para o Vitória, um lance que virou caricatura, símbolo do desnorte do Anselmismo. Neste serão de fantasmas, houve um aroma a esses tempos.
Após canto para os locais, uma cobrança não muito feliz levou a bola para os pés de Alan Varela, no centro do terreno. O argentino teve de ir ao mapa do jogo, entreteve-se a consultá-lo e, nesse tempo, Samu Silva roubou-lhe a bola. Com frieza, o canhoto deu vantagem aos minhotos.
Na resposta, Samu, em excelente posição, falhou a igualdade. Era noite de trauma e, por isso, tinha de contemplar o rosto de desilusão que Samu faz quando tudo corre bem, a pressa em modificar o resultado, como um homem lutando contra o destino, procurando alterar as leis da física.
Sem dar sinais de abrandar, os de Guimarães ainda colocariam a bola na baliza de Cláudio Ramos duas vezes. Na primeira delas, o golo foi anulado a Samu, por falta prévia de Ndoye sobre Rosario. Na segunda, Saviolo conquistou um penálti que Oumar Camara, 18 anos de talento e personalidade, converteu no 3-1.
Até final, o FC Porto foi-se mantendo perdido, errante, dubitativo. Francesco Farioli terá de dar a volta ao primeiro grande resultado adverso, evitando que os traumas que regressaram se instalem.