Crónica de Jogo

Em Tondela, o FC Porto acabou com o suspense hitchcockiano em dois minutos

Em Tondela, o FC Porto acabou com o suspense hitchcockiano em dois minutos
PAULO NOVAIS

Depois de uma 1.ª parte em que voltou a ter dificuldades em ataque posicional, a equipa de Francesco Farioli matou o jogo numa bola parada e num erro do adversário, controlando a partir daí. A vitória por 2-0 deixa o FC Porto com uma vantagem de 5 pontos para o 2.º classificado, o Sporting

Até aos primeiros minutos da 2.ª parte, o FC Porto vivia, em Tondela, numa espécie de thriller psicológico. Há muito que o processo ofensivo dos dragões anda aos repelões, vivendo nas trevas, sem a intensidade de outras fases do campeonato.

Bernardo Fontes, o impressionante guarda-redes dos beirões, servia de vilão: contavam-se pelos dedos de uma mão as aproximações com perigo do dragão à área do Tondela e quando aconteciam lá estava a imponente figura do brasileiro, quase dois metros de altura. Salvou o Tondela quando os seus próprios colegas, numa carambola na área, quase o enganavam à queima-roupa, logo aos 6’, depois de cruzamento de Moura. Fechou depois o ângulo a Samu, isolado na esquerda por Pepê. E de novo quando William Gomes, de forma surpreendente, não chamou a sua talentosa canhota ao remate mas sim o pé destro, defendendo o brasileiro em conformidade.

Adensava-se a trama. Na transmissão televisiva, bandos de aves pareciam atacar as câmaras, uma passarada sem fim, vibes hitchcockianas caiam tão duras quanto a noite beirã num suspense intenso, uma ansiedade em volume máximo, ajudada pelo golo anulado a Rodrigo Mora pouco depois da meia-hora de jogo, mais um a Medina quando o jogo já chamava pelo intervalo.

PAULO NOVAIS

A equipa de Francesco Farioli sofria com a falta de inspiração, com o fantasma de uma mini-crise. Funcionava, a espaços, no pulmão de Froholdt, na sua guerra pessoal a meio-campo. Mas, bem posicionado, o Tondela não dava a mão ao já tremeliquento ataque posicional dos dragões. A dúvida seguiria para a 2.ª parte.

E aí, o FC Porto jogou com as armas que tem, que tem destrunfado neste momento de menor fulgor. A oportunidade de deixar o Sporting a 5 pontos e o Benfica a 8 não podia transformar-se em ficção. Depois de uma derrota cinzenta na Taça da Liga, mas com atenuantes, perder pontos numa noite húmida em Tondela não faria parte do guião do líder do campeonato.

Aos 48’, na sequência de um canto, Kiwior saltou mais alto que todos e Bernardo Fontes voltou a ser o mau da fita para as intenções portistas, indo rente à relva para salvar um golo feito. Samu estava, no entanto, bem colocado ao 2.º poste para aproveitar os resquícios da jogada. À falta de um processo fluído em ataque continuado, a bola parada aparecia. E, no minuto seguinte, apareceria outra das variáveis, esta bem mais inesperada: um erro de Bernardo Fontes.

Começou com um atraso, uma receção difícil e com os atacantes do FC Porto a cheirar rapidamente o sangue. William apertou o guardião brasileiro, tirou-lhe a bola e teve a baliza à sua mercê para fazer o 2-0. A resistência beirã, até aí tão certa, como um metrónomo bem afinado, sem nunca deixar de tentar também a sua sorte no ataque, desmoronava-se em poucos segundos. Em dois minutos, o suspense hitchcockiano transformava-se em business as usual.

PAULO NOVAIS

Haverá pouco para contar sobre o que se seguiu a esse minuto 49. Há batalhas atrás de batalhas para um Tondela que se quer manter na I Liga e esta já não era uma que pudesse ganhar. Cristiano Bacci, um de dois italianos no jogo mais transalpino nos bancos da história da liga portuguesa, foi tirando um a um os elementos chave que precisa frescos e sem suspensões para os jogos que se seguem, mais do seu campeonato particular. E o FC Porto baixou o ritmo, optando pelo controlo, esquecendo até final as dificuldades em ligar o ataque que, mais tarde ou mais cedo, poderão dar problemas num dia em que bandos de aves não invadam um campo ou um guardião não estrague a pintura.

No final, os números interessarão mais que tudo o resto: mesmo num momento menos esplendoroso, o FC Porto não cessa, não larga, não se desintegra. Marcar ao FC Porto será sempre difícil e já são cinco os pontos para o Sporting recuperar.

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