Crónica de Jogo

O Sporting dedicou meia-hora a engonhar e uma hora a atropelar

Luis Suárez marcou a festejar o primeiro dos dois golos que marcou ao AFS
Luis Suárez marcou a festejar o primeiro dos dois golos que marcou ao AFS
MIGUEL A. LOPES

O AFS, ou AFS, ou Aves, já lhe chamaram tudo, foi a Alvalade para ser goleado, por 6-0, pelo Sporting que demorou a livrar-se de um ritmo lento, previsível e algo passivo com que arrancou o jogo. Luis Suárez, Maxi Araújo e Geny Catamo bisaram, mas, após idas à Luz e a Munique, e apesar do resultado, os leões tiveram uma noite de poupanças

Bendito Francisco Trincão e o seu bigode, o seu penteado com risco ao meio da cabeça para a frondosa cabeleira pender sobre as têmporas, para mais o seu pé esquerdo, delicado se necessário, frenético acaso seja preciso. Ao quarto de hora, ele estava na foz da primeira jogada tricô, com três jogadores envolvidos, Luis Suárez tocou para Vagiannidis galopar área dentro e cruzar rasteiro e atrasado rumo a onde estava o canhoto. O remate falhou a baliza por pouco. Cinco minutos passados, só ele, acelerando e frenando com a bola, a espreitar por aqui e a ver se dá acolá, foi entortando adversários até ver uma nesga e testar as mãos do guarda-redes João Gonçalves.

Louvado o criativo da chuteira rosa que ajeita a melena a preceito, mais os seus dribles apetrechados de simulações, porque os 30 minutos iniciais do Sporting foram pesarosos, lentos de ritmo e pobres em ideias, contra o último classificado. Sem vitórias no campeonato, levado o seu estado sôfrego a Alvalade, a equipa inventada dos escombros de uma desaparecida à qual já se chamou AFS, Aves ou AVS, apresentou-se em bloco baixo, a defender com todos, mas, pouco depois dos remates de Trincão, pôs Rui Silva a voar para evitar um desgosto na plateia caseira.

Os nortenhos tinham aliviado uma bola na direção do corpulento Tomané, o chutão parecia controlado por Gonçalo Inácio até o batido avançado lhe dar um encosto no momento certo, desequilibrando-o para ficar com a posse e lançar o ataque que culminou no remate de Óscar Perea. Foi o culminar de uma meia-hora frouxa do Sporting, incapaz de acelerar no passe, despido de ideias para ter jogadores a combinarem em espaços curtos dentro da muralha retraída dos visitantes. Lento e previsível, o jogo dos leões ia aos solavancos.

Salvara-se, até então, os esporádicos safanões de Trincão num Sporting, como há mais ou menos um ano, a testar a picareta do escultor Rui Borges para limar um coletivo perante várias ausências. Sem Pedro Gonçalves, falido na coxa, nem Geovany Quenda, também lesionado, a equipa perde aptidões para ligar a jogada entre linhas, nas negas e brechas. Sem eles, os leões tinham um acelerador (Mangas) à esquerda e um finalizador de jogada, mais do que estimulador (Catamo) à direita. Contra um AFS de linhas coladas à área, não ajudava à manutenção de um fio condutor no jogo nestas condições.

Os leões pouco ou nada produziram durante os primeiros 30 minutos
Gualter Fatia

Fossem outras, como nas que levaram Gonçalo Inácio a picar um passe longo sobre a linha defensiva, por um momento, mais subida, o penteado mullet de Mangas teria mais vezes feito o que se viu aos 33’: atacou o espaço, recebeu a bola, deu logo em Luis Suárez para o encaracolado de melena inventar espaço, rematar e marcar. O Sporting furava a resistência. Mais do que isso, desbloqueava-a. Maxi Araújo faria o 2-0 ainda os adeptos se devolviam aos assentos, a desviar um cruzamento de Vagiannidis após o grego fintar Kikin Afonso. Logo depois, na ressaca de um canto, Catamo disparou o 3-0 à entrada da área. Em cinco minutos se esqueciam os 30 anteriores.

Era um despertador com três toques para o Sporting acelerar até ao intervalo, os passes a saírem com outra rotação, a bola a visitar vários pés com pressa, os adversários a terem ajustar mais vezes os posicionamentos. Algo Rui Borges terá dito no balneário contra a passividade para reforçar a necessária mudança de postura na equipa que ida à Luz, e vinda de Munique, parecia olvidar-se dos ritmos que lá tivera.

Se houve, ou não, uma intervenção, terá resultado. Na primeira aproximação à baliza do AFS após o descanso, o Sporting conectou uma jogada de forma simples, a terminar na direita, onde Vagiannidis passou rasteiro para o lado oposto da área, onde Maxi Araújo marcou outra vez (47’), como se o jogo, desde a génese, sempre tivesse os leões mascarados de faca a cortar uma manteiga de verão que era a equipa vinda da Vila das Aves.

É verdade que o Sporting melhorou, as suas posses prolongaram-se, o conforto da partida sorriu-lhe para ficar a ver qualquer urgência ou pressa bem ao longe. Mal Luis Suárez, escondido perto do segundo poste, emendou (53’) o desvio de cabeça de Matheus Reis para festejar o 5-0 e o seu 14º golo da temporada, Rui Borges aproveitou dar descanso aos esqueletos com conta-quilómetros mais pesados. O colombiano saiu, imitando Maxi e Morita, antes também Inácio, aos poucos a noite em Alvalade virou uma poupança (Hjulmand nem saiu do banco).

Geny Catamo a festejar um dos seus dois golos contra o AFS
Gualter Fatia

A qualidade do jogo foi decaindo, sobretudo nos leões a quem pertencia a iniciativa. Houve um remate com certo espetáculo de Kochorashvili, intermitente nas ações, incapaz de domar os ritmos no miolo. Alisson Santos também pontapeou a bola à bruta, ambas as tentativas conheceram as luvas de João Gonçalves, o guardião que se destacou no AFS magro de recursos, sem alcance para aproveitar os buracos de espaço que o Sporting concedeu quando perdia a bola. Fora uns tímidos remates de Pedro Lima e Tomané, os visitantes não conseguiram tirar partido da passiva reação à perda dos anfitriões.

A obesa quantidade de golos que Geny Catamo abasteceu, já nos descontos, a castigar um lançamento lateral frouxo do AFS onde não custou aos leões serem ladrões, foi a maior nota de aceleração na segunda parte. Mostrou o moçambicano o quão acelerador é quando a jogada pede que seja ele a terminá-la. Ele e Ousmane Diomande estiveram na meia-hora de engonhar e na hora a atropelar, ligaram as duas fases do Sporting no jogo, para ambos era um até já por irem agora ausentar-se a jogar a Taça das Nações Africanas.

A vitória por seis golos é inatacável, igual ao volume atacante do Sporting contra o débil dono da lanterna vermelha do campeonato que esta época, em 16 jogos, só ganhou na Taça de Portugal ao Fornos de Algodres, da primeira divisão das distritais da Guarda. Vindos de viagens duras, contra adversários do mais desafiante que teve, os leões tiraram bastante o pé do pedal contra o AFS, ou AVS, que regressará à Vila das Aves com bagagem pesada. Pôde o Sporting ser o que foi durante a primeira meia-hora, mas nem sempre terá um pálido adversário que lhe permita despertar tarde e, ainda assim, conseguir atropelar.

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