Crónica de Jogo

Com Froholdt, o FC Porto encontrou a nova dinamite dinamarquesa

Com Froholdt, o FC Porto encontrou a nova dinamite dinamarquesa
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O médio nórdico foi o garante de energia, um gerador sempre em funcionamento, num encontro em que nem sempre o FC Porto esteve ligado, apesar dos números da vitória por 4-1 frente ao Famalicão, na Taça de Portugal. Um triunfo que coloca dragões e Benfica em rota de colisão na próxima fase da prova

O FC Porto-Famalicão soou, aqui e ali, àquele meme que mostra um calendário de dezembro com as diversas fases de apatia/desespero/espera deste mês em que depois, já se sabe, mete-se o Natal.

Segundo esse meme, já estivemos na fase “fazer de conta que estamos a tentar”, mas neste momento já evoluímos para o “nem fazer de conta que estamos a tentar”. Nem FC Porto ou Famalicão terão culpa, atenção. Os dragões apresentaram-se, esta quinta-feira, para o seu terceiro jogo em sete dias, terceira estratégia em sete dias, terceiro estudo de um adversário numa semana. É difícil pedir ficha sempre ligada e nem litros de bebidas isotónicas ou horas de crioterapia formam corpos indestrutíveis. O Famalicão não estará muito mais folgado: em cinco dias joga em casa de FC Porto e Benfica.

Esta lógica não servirá, no entanto, a todos. Foi vê-lo loiro, aparentemente esguio, mas com aquele ar impassível de quem não liga a ambivalências emocionais pós-modernas das festividades. Em dezembro corre-se com o mesmo vigor de setembro, pressiona-se como se fosse o primeiro dia da época, cheira-se um roubo de bola num jogo de Taça de Portugal com a mesma vontade de uma final da Champions.

Se a “Danish Dynamite” dos anos 80 era um festim de futebol ofensivo, Victor Froholdt é outro tipo de TNT. É a explosividade de quem não olha a adversários, momentos, estados de espírito coletivos. Se a bola está ali, a bola é para ser conquistada. Pragmatismo bombástico.

Nos momentos mais indolentes e passivos deste jogo dos oitavos de final, jogado em plena época alta de jantares de natal, convívios de firmas e outras tradições, foi Froholdt a manter o foco, a clareza mental. O golo do FC Porto que abre a contagem, aos 7’, nasce da vontade indómita do dinamarquês em recuperar a bola, pressionando numa zona alta, com tal ímpeto que Mathias de Amorim se atrapalhou com a visão. A bola perdida à entrada da área chegou depois a William Gomes, com todas as facilidades para marcar.

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O empate de Justin de Haas, exemplar a fugir a Deniz Gül como quem foge de um tio chato na Consoada, trouxe a pior versão do FC Porto e um Famalicão com mais bola, ciente do aparente adormecimento do dragão. Um dragão que não demoraria a ser abanado pelo dinamarquês, de novo o dinamarquês, a ser o mais esclarecido numa jogada cheia de inestéticos ressaltos na área dos minhotos. Um primeiro remate de Gabri seria travado por Zlobin, mas a recarga, forte, colocada, indomável, colocou Froholdt na lista de marcadores.

Difícil encontrar momentos de interesse cénico na 2.ª parte até Francesco Farioli, envergando fato de treino e boné da cintura para cima, num pouco habitual desvio estético, fazer entrar Samu e Rodrigo Mora. Uma arrancada do espanhol, aos 77’, foi o momento de ignição de mais um jogador, afinal, com ganas. Poucos minutos depois, num canto de Mora, Samu entrou de rompante para fazer o 3-1 e já perto dos 90’ foi Pepê na recarga a terminar o que, novamente, a ligação Mora-Samu tinha começado.

Eles, frescos, deram forma à vitória do FC Porto, que assim marca encontro com o Benfica nos quartos de final da Taça. Mas nos descontos ainda andava por lá certo dinamarquês, qual cão pisteiro, inclinado para a frente a tentar fazer zoom a uma qualquer bola perdida. O FC Porto encontrou a nova dinamite dinamarquesa.

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