Crónica de Jogo

O Sporting regressou ao lugar da polémica e, contra o Santa Clara, sobreviveu com mais polémica

Uma das várias confusões entre jogadores que houve durante o jogo
Uma das várias confusões entre jogadores que houve durante o jogo
EDUARDO COSTA

Pouco mais de um mês depois, os leões regressaram aos Açores onde tinham vencido no campeonato com controvérsia, para a ressuscitarem. De novo já nos descontos, o Sporting marcou um golo, de penálti, após mais de 12 minutos de revisão no VAR, levou o encontro ao prolongamento e aí foi buscar a vitória (2-3) contra o Santa Clara que terminou com menos um jogador em campo. A recompensa de uma exibição volátil, com muitas falhas, foi a passagem aos quartos de final da Taça de Portugal

Fresca na memória, ainda com calor a emanar do fétido corpo, estava a polémica de há um mês, tamanho o salsifré que causou o canto que não o era, ainda para mais um canto que deu golo para o Sporting nos descontos, aos 94’, ainda por cima um golo da vitória para de lá virem, em força, os decalcados trejeitos do futebol português dos comunicados para criticarem a arbitragem humana à qual não se perdoa a evidência de errar ser humano. Na anterior visita à Ponta Delgada onde é menos uma hora do em Lisboa, foi hora para outra atenção depositado no árbitro.

Quem assistia à distância pôde ver, aos 12’, um pouco mais de perto como o gesto de fundição de João Simões com a bola, eles um só, ao receber de pé direito o cruzamento pelo ar de Iván Fresneda, manter o objeto de culto em suspensão, rodar para a baliza e rematar com o esquerdo, tudo isto a acontecer que nem passo de dança. A jogada germinou de uma triangulação entre Francisco Trincão, Maxi Araújo e o lateral espanhol na direita, o desfecho foi visto da perspetiva da câmara que João Pinheiro tinha agarrada ao peito: estando o homem do apito nas barbas da ação, vimos a sua perspetiva privilegiada do lance.

A novidade aplicada pelo Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol nos jogos dos oitavos de final da Taça de Portugal, a tresandar às fragrância há muito emanadas pelo râguebi, não foi a única a ir à relva nos Açores. Os leões lá chegaram com Maxi, lateral canhoto, a servir de extremo à direita, do outro lado esteva Alisson e, atrás do brasileiro, um Matheus Reis pouco brindado com minutos esta época. 

Notou-se distração num dos mais antigos membros do plantel do Sporting quando, logo no arranque, não acompanhou Lucas Soares na ida ao centro do lateral direito do Santa Clara para rematar às mãos de João Virgínia, outro brindado pela rotação de Rui Borges, pouco depois de Gabriel Silva inaugurar as transições rápidas dos açorianos com um disparo à baliza. Coeso a juntar peças a defender, fileiras cerradas perto da área, os anfitriões permitiam pouco aos detentores da Taça além de conviverem bastante com a bola, mas a custar-lhes demonstrar engenho, a ligar inspiração.

João Simões celebra o bonito golo que marcou na primeira parte
EDUARDO COSTA

A pouco mais do que tentar flanquear o Santa Clara, redundando em cruzamentos, se resumiu o jogo ofensivo do Sporting na primeira parte, órfão de alguém extra-Trincão, por vezes etéreo a esgueirar-se com a bola de entre pernas, rasteiras e corpos, que desse jogo interior à equipa. De um lado havia Alisson a dar inconsequência às jogadas, incapaz de ser um entreposto da bola ao invés de uma sepultura. Do outro, Maxi a jogar de pé trocado era despido de conforto para acelerar nas suas arrancadas habituais. Ao meio, encafuado nos três centrais açorianos, raros passes chegaram a Luis Suárez.

E quando a posse encravava de escapatórias nos pés leoninos, apareciam os práticos e simples dos açorianos. Sem mastigadelas excessivas, a toda a hora em busca de ser lesto a reciclar a bola nos primeiros passes mal a recuperava, procurando jogar no apoio frontal e deixar algum médio de frente para lançar, o Santa Clara ia contando ataques que alcançavam a área. 

A receita do empate jurou fidelidade a essa intenção enquanto se espreguiçou na passividade dos jogadores do Sporting a reagirem à perda: Djé Tavares desfrutou de espaço no hall de passividade de Hjulmand e Simões, colocou o passe longo em Lucas Soares que em contraciclo com Matheus Reis, enérgico a mudar de direção diante do peso dos rins do lateral saiu da finta para o centro, avançou no campo e foi buscar o golo (28’) ao mesmo pé esquerdo com o qual já ameaçara. O Sporting tinha a bola, o Santa Clara gozava das chegadas mais perigosas à área.

A interação entre as equipas pouco mudaria, nada de ventos novos a soprarem no regresso. Um quê de rapidez acrescida houve nos passes dos leões, João Simões a injetar algo da sua voltagem no jogo com bola e a tentar que houvesse contágio, sentiu-o Matheus Reis quando cavalgou sozinho pela esquerda, cruzou e Maxi Araújo, na sobra de uma escorregadela de Trincão, finalizou para obrigar Neneca, o guarda-redes, a esticar-se todo na baliza. O imutável Santa Clara mantinha as duas caras, calmo a defender-se num bloco recuado e frenético a querer atacar em qualquer bola recuperada.

O Sporting foi esbarrando na férrea muralha defensiva do Santa Clara erigido na elementar crença de as equipas se construírem de trás para a frente, Vasco Matos será dogmático a executar este futebolês, o treinador bem avisara que dos açorianos poderiam esperar força, faca nos dentes e jamais amainar nas disputas e os de vermelho, nunca débeis a jogar no seu reduto (apenas seis golos sofridos em casa, no campeonato), foram mantendo os bicampeões nacionais à margem. Só Suárez, a correr nas costas dos defesas e lançado à distância por Matheus Reis, recebeu um passe para fintar Neneca, mas não houve mais campo para ter ângulo de remate.

Maxi Araújo, habitualmente lateral esquerdo, jogou a extremo direito
EDUARDO COSTA

Muito campo vago, à direita da sua esburacada pressão alta para deixar MT com espaço para pensar o seu passe, depois ao centro para a bola entrar em Gabriel Silva, feito pivô de futsal, encostar as costas em Gonçalo Inácio, rodar com a uma receção penteada na bola, desviar o central com o gesto e rematar de pronto para ser feliz na tentativa, que desviou (86’) em Eduardo Quaresma e traiu Virgínia. Um coletivo enérgico, sem invenções de maior e com a sorte de um ressalto à mistura, ficava a ganhar contra um conjunto algo apático, longe de possuir o rasgo que o embalou em tantas noites desta época.

Na reação, Trincão ainda despertou o seu pé esquerdo para tentar um disparo, Neneca atentou, o jogo precipitou-se para os descontos, sentia-se a urgência no ar, o cheiro a Taça a acontecer, um nervosismo palpável em Ponta Delgada e na cor do cartão com que João Pinheiro expulsou Paulo Victor, ou PV, porque o Santa Clara é a equipa das siglas. 

E outro jogo, este sim atolado em vícios de futebol português, de repente começou.

Viu-se o número “6” na placa do quarto árbitro, ainda haveria tempo para mais, mas o que se jogou, de facto, foi menos do que o tempo gasto desde o primeiro minuto dos descontos, quando o VAR descortinou algo na maralha que disputou um cruzamento caído na área do Santa Clara. Foram mais de 12 minutos de espera até quem está na Cidade do Futebol, em Oeiras, rodeado de ecrãs, ver e rever o lance, decidir chamar João Pinheiro e o dono do apito anunciar um penálti para o Sporting. Já os descontos tinham duplicado o seu suposto tempo de vida. Um mês depois, qual morta, qual quê, a polémica ressuscitava no mesmo lugar.

O árbitro expulsou Paulo Victor, do Santa Clara, aos 89 minutos
EDUARDO COSTA

A ensanduichar o golo, aos 90+16’, de Luis Suárez, houve a expulsão de Frederico Venâncio e Lucas Soares, ambos já substituídos, mas desvairados, tomados pela contestação alastrada a quem era do Santa Clara por o árbitro ter considerado falta, após tanto tempo, a mão de Tiago Duarte na cara de Morten Hjulmand. Volvido um mês, a polémica ressuscitava e nas catacumbas, despertados de repente, os trejeitos do futebol português sobressaltaram-se, seguros de que teriam mais uma semana ou duas de falatório, dedos apontados e fogos postos. O primeiro ateado foi ainda o jogo vivia.

O resto da sua vida, no prolongamento, teve um Sporting mandão durante meia-hora contra só dez açorianos, de vez remetidos à defesa, a resistirem como podiam, encostados lá atrás, e já não porque queriam, contra uma equipa com Salvador Blopa a lateral e Flávio Gonçalves a extremo, adolescentes da equipa B a arcarem com as pressas para evitar um descalabro. Seria um seu oposto na confiança depositada na sua capacidade em chegar-se à frente nestes momentos a desatar o imbróglio.

Do pé calibrado de Francisco Trincão veio a bola cruzada para a área que Fotis Ioannidis emendou, aos 98’, para o golo definitivo. Restava ainda bastante no relógio em contraste com o pouco nas pernas, havia quem se arrastasse no campo, o jogo tinha fealdade, bem jogado já pouco era. O mesmo canhoto do bigode remataria de novo, num quase golo. Ele foi um farol, embora intermitente - não tanto quanto Eduardo Quaresma, o provável melhor da equipa nesta partida -, para um Sporting volátil, que esteve a ganhar, a empatar e a perder contra um organizado e perigoso Santa Clara que caiu na Taça de Portugal com brumas da anterior aparição dos leões nos Açores.

E pronto, já sabemos o que virá depois disto: muito de crítica, discussão, comentário, acusações, polémica e salganhada. De tudo menos de futebol.

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