Crónica de Jogo

Num Estádio de Alvalade que parecia o Estádio da Luz, Benfica e Sporting jogaram o dérbi do amanhã

Carolina Santiago ganhou a grande penalidade na origem do empate
Carolina Santiago ganhou a grande penalidade na origem do empate
ANTÓNIO PEDRO SANTOS

O Benfica podia ter acabado com as dúvidas nas muitas oportunidades que teve para marcar o segundo golo. No entanto, um Sporting sustentado na autossuficiência de Telma Encarnação continuou vivo e, aos 88 minutos, conseguiu o empate na oitava jornada do campeonato. As encarnadas continuam no topo da classificação com cinco pontos de vantagem

Carolina Santiago foi derrubada e nem se apercebeu que a queda podia dar origem a uma grande penalidade. Estava no chão e soltou um sorriso quando a árbitra apitou. Aos 19 anos, está a fazer a época de afirmação no Sporting. Nem 10 minutos depois de ter entrado, arrancou a grande penalidade que deu o empate às leoas no dérbi (1-1).

O detalhe da cobrança foi de Telma Encarnação. Na baliza do Benfica, estava Thaís Lima, que esteve 90 minutos envolvida no “Jogo do Sério”, tamanha a serenidade na expressão e nas ações. A julgar pela cara, parecia já ter dezenas de dérbis no currículo. Na realidade, aos 17 anos, fez o primeiro, tal como Carolina Tristão, outro rebento da geração de 2008.

A divisão de pontos mantém as encarnadas a cinco pontos de distância do segundo lugar. Fora estas contas, com a jovialidade em que apostaram, num momento em que o futebol feminino parece atravessar um período de estagnação, Benfica e Sporting jogaram o dérbi do amanhã.

Houve razões várias para o Sporting ter entrado em estado de alucinação. Alvalade recebeu a equipa feminina, um raro acontecimento. No entanto, os torniquetes não filtraram camisolas. Caso a comparência de adeptos do Benfica tivesse sido inexistente, o estádio estaria ainda mais vazio. A estranha sensação de ver a bancada tão pintalgada de encarnado pode ter sido perturbadora. E vá lá que, para evitar ainda mais confusões, Ana Borges e Diana Silva, as duas jogadoras com mais jogos na história do Sporting e que se transferiram para o Benfica, estiveram ausentes.

Durante certos momentos do encontro, o Sporting pareceu mais preocupado em resolver os paradoxos envolventes do que em ter a cabeça no mesmo sítio que os pés. O contexto fez o Benfica divertir-se a polvilhar caos no corredor direito pelo qual atacava. Quando as leoas prestavam atenção às subidas interiores de Catarina Amado, Chandra Davidson ficava sozinha. Quando a largura dada por Chandra Davidson era motivo de preocupação, Catarina Amado tinha caminho livre.

Chandra Davidson esteve em destaque nas encarnadas
ANTÓNIO PEDRO SANTOS

O ímpeto inicial da equipa de Ivan Baptista brotou desta combinação. Os cruzamentos gerados só não deram logo resultado, porque Lúcia Alves atingiu Nycole quando o que queria era acertar na baliza. Reforçar a zona com Érica Cancelinha não impediu as encarnadas de arejar os ataques por aquelas bandas. A insistência de Chandra Davidson chamou tanto a atenção que a bola sobrou para a finalização de Nycole. Anna Wellmann fez uma defesa intrépida.

A persistência é descendente da convicção e, se o Benfica não tivesse acreditado tanto, já teria ido bater a outras portas. Não o fez e chegou mesmo o momento em que Catarina Amado teve mais tempo para dar resposta ao pedido de Nycole do que o ChatGPT para fazer um plano de viagem. O cruzamento saiu e Ashley Barron tinha demasiadas pessoas à sua responsabilidade para conseguir impedir a brasileira de marcar.

A autossuficiência de Telma Encarnação deu ao Sporting os cheliques necessários para uma reação. A potência com que a bola saiu do seu pé esquerdo a tão longa distância da baliza assustou o Benfica. Thaís Lima, a render Lena Pauels, estreou-se como titular no campeonato e ergueu um muro entre os postes. As jogadoras de Micael Sequeira interessaram-se por passes para que as flanqueadoras, Jeneva Hernandez-Gray e Beatriz Fonseca, atacassem a profundidade. O recuo de Chandra Davidson e Lúcia Alves foi precioso nessa fase.  

Esta época, Telma Encarnação tem 11 golos em 9 jogos
ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Durante os 90 minutos da experiência imersiva, Thaís Lima fez amizade com Telma Encarnação, ponta de lança com quem voltou a interagir. Ao Sporting estava a faltar capitalizar. Carla Armengol fez um desvio não tão convicto quanto o passe de Jeneva. O Benfica, atento ao contra-ataque, aparentava ter sacudido o melhor momento do Sporting. Chandra Davidson e Caroline Møller podiam ter decidido o jogo, mas Anna Wellmann brilhou.

Ainda houve dúvidas quando Catarina Amado derrubou Carolina Santiago no controlo de fronteira entre a grande área e o território abrangente. A necessidade de cometer falta não era imensa dada a condução lateral que a jogadora do Sporting estava a fazer. Graças a esse lapso, o campeonato continua em aberto.

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