Crónica de Jogo

O paraquedas abriu e o FC Porto continua a voar para cada vez mais longe

Samu inaugurou o marcador numa jogada individual
Samu inaugurou o marcador numa jogada individual
NurPhoto

Em comparação com o Benfica, são já dez pontos de vantagem e o FC Porto voa, voa, voa no campeonato. O líder venceu o AFS (2-0) e continua a pairar no topo da I Liga. Samu bisou e a única má notícia foi a lesão de Diogo Costa

Uma realidade paralela igual àquela em que vivemos, mas maléfica. Uma dimensão aterradora que existe em espelho com aquela que pisamos, tal como se virar uma meia do avesso fosse trocar o bem pelo mal. Chama-se Upside Down e, felizmente, os criadores de "Stranger Things" já o puseram numa série.

O antagonismo não é só material de ficção. Na plataforma de streaming "Estádio do Dragão", o FC Porto representou a harmonia e o AFS as trevas. Se notarmos bem, após a 16ª jornada, os avenses sofrera 10,25 vezes mais golos que os azuis e brancos. O saldo de golos dos dragões é de +31, o dos opositores é de -30. Uns estão em primeiro lugar sem perder, os outros em último sem ganhar.

Este era um banho de contraste que era proveitoso tomar, pois, com esta vitória (2-0), a equipa do “paraquedista” Francesco Farioli voou para dez pontos de distância do Benfica e manteve os cinco que a separam do Sporting. Foi necessário superar a ansiedade do primeiro golo tardio, mas nada de surreal se passou.

Pepê esteve em destaque no ataque azul e branco
ESTELA SILVA

Os poucos ensaios impossibilitam manobras rebuscadas. João Henriques estreou-se como treinador do AFS em jogos do campeonato. É o terceiro técnico no corrupio que anda pela Vila das Aves e que José Mota e João Pedro Sousa também experienciaram. No primeiro pontapé de baliza, o guarda-redes Simão Bertelli analisou demoradamente se podia acionar os centrais com um passe curto. De forma sensata, devido às debilidades do plantel, antes de carregar no botão que acionaria a pressão do FC Porto, livrou-se do objeto diante de si.

A rarefação de jogadores do AFS estava nos corredores exteriores. Só que, com Rodrigo Mora em campo, nenhuma defesa se pode considerar suficientemente salvaguardada. O cabelo loiro, escurecido nas partes mais transpiradas, pelo miolo se infiltrou sem que o toque de pá que deu na bola se conectasse com as redes ou com um colega. Eram tentativas tímidas do mais saído da casca que, de fora da grande área, insistia.

Diogo Costa estava tão aborrecido que teve que fazer uma asneira para ser notado. O passe em profundidade de Diogo Spencer para Tomané custou-lhe a continuidade em campo. O problema físico resultante levou a que Cláudio Ramos entrasse ao intervalo.

A titularidade de Martim Fernandes esteve intimamente relacionada com a de William Gomes, extremo que aprecia uma prévia proximidade com a linha lateral antes de guinar para o meio. No entanto, era Pepê o mais acutilante dos brasileiros. Penalizando a ousadia de Diogo Spencer, tirou um cruzamento que deixou Victor Froholdt perto do golo.

Esgotados os métodos de ataque organizado, que começassem a ser servidas as bolas paradas. Bednarek e Kiwior têm pautado a parceria no centro da defesa pela coordenação, mas tivessem, num livre lateral, estado em melhor sintonia e não se teriam sobreposto no cabeceamento que acabou por se transformar num falhanço.

Victor Froholdt voltou a fazer parte do meio-campo azul e branco
ESTELA SILVA

Não era de substituir o guarda-redes que o FC Porto estava a precisar, mas o golo de Samu coincidiu com esse momento. Por vezes, o espanhol pode parecer demasiado bruto para o pouco espaço que os adversários lhe dão. Neste caso, lidou maravilhosamente com o confinamento: rodopiou, tirou adversários da frente e finalizou. O calmante do FC Porto brotou da agilidade do avançado dentro da grande área.

Consequentemente, o FC Porto passou a ter outra leveza. Rodrigo Mora, já se sabe, joga dessa forma independentemente das circunstâncias. Ainda assim, a roleta que antecedeu o remate ao lado de Pepê foi executada com mais frescura.

O 5X4X1 do AFS lá teve que se desmembrar. Pablo Rosario, numa exibição cirúrgica, operava recuperações meticulosas e a locomotiva Victor Froholdt intensificava o transporte de mercadorias da defesa para o ataque. Os avenses demonstravam porque é que, aos 42 anos, Nenê ainda consegue ser o melhor marcador da equipa no campeonato.

Gabri Veiga renovou as energias do meio-campo e importunou o alívio de Carlos Ponck, ganhando mesmo uma grande penalidade. Samu, de novo, confirmou o triunfo dos dragões. O jogo estava de feição para os espanhóis, mas não para todos. Ángel Alarcón esteve perto de se estrear a marcar ao serviço de um FC Porto que teve futebol que sobrou para o AFS.

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