A lotaria de Ano Novo saiu ao Gil Vicente e o Sporting não conseguiu cancelar os festejos
Tidjany Touré foi um dos maiores problemas para o Sporting
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Na reedição do jogo que foi chave para o título conquistado na época passada, o Sporting talvez tenha entregado ao FC Porto o campeonato deste ano. Os leões voltaram a sentir dificuldades contra o Gil Vicente e, ao contrário do que aconteceu em 2024/25, não as conseguiram superar (1-1). A equipa de Rui Borges pode ir para a segunda volta a sete pontos dos dragões
Saiu em Barcelos a lotaria de Ano Novo. Até há uns dias esteve no Gil Vicente um avançado chamado Pablo Felipe. Foi com essa cautela que o clube ganhou um prémio chorudo. O West Ham foi ao Minho deixar cerca de €20 milhões para levar o luso-brasileiro, filho de Pena, melhor marcador do campeonato em 2000/01 pelo FC Porto.
Em 2023, por exemplo, €20 milhões serviram para o Sporting convencer o Coventry a deixar Viktor Gyökeres rumar a Portugal. Nem todas as notas que o emblema da Premier League irá despojar se tornarão recheio para os cofres dos galos, cujo fabrico de ovos de ouro propõe à biologia que averigue o desenvolvimento de capacidades reprodutivas. A distribuição que os gilistas vão fazer da verba acaba por ser aliviada pelo benefício dos dez golos que o ponta de lança marcou em 13 jogos na I Liga.
O recorde de pontos (27) na primeira volta do campeonato não se conseguiu apenas à custa dos dois pés que se puseram a andar para Inglaterra, mas o Gil Vicente recebeu o Sporting em preparos um pouco mais desmazelados do que teria feito antes de se notarem na equipa de César Peixoto os efeitos do mercado de inverno.
No entanto, como se percebe, são tempos de fortuna em Barcelos. É o futebol que a equipa pratica, é a posição na tabela (quarto lugar), é o retorno financeiro e é a pontinha de sorte que o Gil Vicente precisou para chegar ao empate (1-1) contra o Sporting. O golo da igualdade, apontado aos 87 minutos, só por mera coincidência surgiu depois da expulsão de Gonçalo Inácio ou não tivessem os gilistas jogado como um grande.
É que o Gil Vicente pode ter perdido o abajur do ataque, mas não demorou a responder ao instinto de imediatamente voltar a arrumar a casa. A organização parecia obra de um portador de transtorno obsessivo-compulsivo. A simetria que Tidjany Touré e Murilo ofereciam às alas foi um dos sintomas da perfeição geométrica imposta.
O método da equipa de Barcelos fez o Sporting deambular pelo passado. O título da temporada anterior ficou associado a uma emotiva vitória contra o Gil Vicente, na 32ª jornada. Porém, mesmo nesse dia, os leões sentiram muitas dificuldades. A solução até parecia que se ia repetir. A preponderância de Eduardo Quaresma, que choramingou com o golo marcado na época passada a este adversário, voltou a estar presente.
Não foi dinamitando as redes, como em tempos. Desta feita, o central foi mais subtil, aguçando um passe para Luis Suárez. Entre o serviço meticuloso e a finalização do colombiano, a assistência levou mais pontos de dificuldade. No entanto, marcar apenas uma vez não foi suficiente.
Luis Suárez chegou aos 15 golos no campeonato e isolou-se na lista dos melhores marcadores
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Andrew teve uma primeira parte de tremeliques. Hesitou na saída aos pés do melhor marcador do campeonato e testou sem sucesso o uso do poder telepático no controlo de cruzamentos. Fotis Ioannidis colocou a mão acima da cabeça, marcando a altura que precisaria de ter para cabecear o passe de Iván Fresneda, cujo fulgor remeteu Francisco Trincão a uma exibição despercebida.
O extremo tão meigo nas carícias a que sujeita a bola teve as habilidades sorvidas. Procurando ajudar noutras áreas, amorteceu para Tidjany Touré um despejo largo do Gil que foi reciclado devido ao mau corte. Os jogadores de César Peixoto juntavam assim uma chance ao pontapé repentino de Gustavo Varela que Rui Silva resolveu.
A moldura das duas equipas era semelhante. As estruturas distinguiam-se através da biometria futebolística dos jogadores que ocupavam certas posições. O Sporting tinha Fotis Ioannidis aliado a Luis Suárez. O Gil Vicente arrastava os nervos de Santi García na pressão para o nariz da equipa, junto de Gustavo Varela.
A lesão de Facundo Cáseres levou César Peixoto a lançar o segundo Zé Carlos do seu baralho, este para o meio-campo. O homónimo, que foi titular como lateral-direito, fez por se distinguir com um cruzamento ao segundo poste. Tidjany Touré, sozinho, foi escandalosamente caridoso. Momentos antes, no vaivém em curso, Luis Suárez teve a mesma complacência. Fotis Ioannidis foi voraz a criar o espaço.
Foi a três minutos dos 90 que o Gil Vicente chegou ao empate
FERNANDO VELUDO
Rômulo estreou-se na equipa principal do Sporting numa altura em que, mais do que fundar Roma, era preciso manter o império de pé. Gonçalo Inácio foi surpreendido pelo passe longo de Andrew. Sem um colega que o compensasse, travou Gustavo Varela e foi expulso. Quase como se tivesse poder em relação a isso, o avançado castigou os jogadores do Sporting com vários cartões. No livre que se seguiu ao cartão vermelho, Murilo achou que tinha marcado. Ilusão de ótica.
Os festejos foram levados até ao fim quando Carlos Eduardo surgiu ao segundo poste a fazer o 1-1. O passe de Luís Esteves, tão natural a recorrer ao pé como ao direito, tocou na ferida defensiva do Sporting, uma zona explorada anteriormente. Iván Fresneda teve um lapso que tingiu o que fez no ataque. Também do lado do espanhol chegou a hipótese gorada de Joelson, formado em Alcochete, fazer a reviravolta.
Na curva do calendário, os leões podem ficar a sete pontos do FC Porto. Os dragões têm também para gerir, ao longo da segunda volta, pelo menos dez pontos face ao Benfica. Já foi mais arriscado apostar nos azuis e brancos para serem os próximos campeões.