Para o FC Porto, há muitas formas de fazer história. Contra o Santa Clara foi com um golpe de teatro
EDUARDO COSTA
Uma vitória nos Açores significava a melhor 1.ª volta da história da I Liga, mas a história foi difícil de agarrar: só um erro adversário permitiu ao FC Porto marcar frente ao Santa Clara (1-0). A equipa de Francesco Farioli distancia-se do Sporting, agora a 7 pontos, e o título já não é apenas uma ideia turva
A história escreve-se tantas vezes por linhas tortas e árduas, nem sempre os protagonistas brilham e o infortúnio alheio tem também o seu papel secundário. Os números, esses, desprovidos de narrativas como são, tendem a ser simples de entender. E os números são memoráveis para o FC Porto, que com a vitória frente ao Santa Clara, um 1-0 nascido do aproveitamento de um erro adversário, numa noite que foi sempre difícil, soma 49 pontos na 1.ª volta do campeonato, a 1.ª volta mais imponente de sempre de um clube português.
Emocionalmente, a viagem aos Açores era desafiante. Curioso que assim seja quando tudo corre bem, mas as ligações cerebrais têm as suas manigâncias. Com o Sporting a perder pontos e a forte possibilidade de assinar a melhor 1.ª volta de sempre na I Liga a pairar, o FC Porto passou toda a 1.ª parte num vazio de soluções, sem ritmo, perdido na teia do 5x4x1 do Santa Clara, que tornou a área dos açorianos uma fortaleza bem organizada por Vasco Matos.
EDUARDO COSTA
O primeiro sinal ofensivo apareceu já após o quarto de hora inicial, num remate em arco de William, a tentar de longe aquilo que, em ataque organizado, o FC Porto não estava a conseguir fazer. Insistindo demasiado pelo corredor central, os dragões embateram quase sempre numa parede. Quando se revelava uma nesga de espaço, Sidney Lima estava lá para limpar.
O jogo também não se colocou a jeito da verticalidade desejada pelo Santa Clara: tornou-se faltoso, lento, com demasiadas paragens, sem fio, dificultando até o futebol mais direto e menos dado a ardilezas. Antes do intervalo, seria em contra-ataque que o FC Porto conseguiria o seu lance mais perigoso, numa cavalgada de William Gomes após canto do Santa Clara. O brasileiro aguentou bem a oposição (branda, diga-se) de Paulo Victor e seguiu para o seu remate standard, que seria travado por Gabriel Batista.
Com Gabri Veiga em sub-rendimento, Samu voluntarioso mas perdido entre camisolas vermelhas e Victor Froholdt incapaz de colocar a intensidade habitual, Pablo Rosario, titular no lugar de Varela, era ainda assim o elemento mais elucidado, a arriscar com bola e, sem ela, sacrificando-se para criar espaços para os colegas. A 2.ª parte começaria com a mesma toada, até ao lance que seguramente entrará, mesmo estando nós em janeiro, para a galeria dos bloopers de 2026.
Sem qualquer tipo de pressão, Gabriel Batista viu a bola fugir-lhe mal da luva quando tentava a reposição. De forma conveniente para o FC Porto, em vez de ir parar a um jogador do Santa Clara, deslizou quase burlescamente para o pé de Samu, que só teve de encostar para a baliza. Há falta de outras soluções, foi o golpe de teatro que permitiu ao FC Porto chegar ao golo.
EDUARDO COSTA
O lance de golo seria uma espécie de intermezzo entre duas peças que, na sua essência, não foram assim tão distintas. O FC Porto depois do golo sentiria as mesmas dificuldades do pré-golo, lidando ainda assim com um Santa Clara com mais bola. Num dia desinspirado para boa parte dos jogadores do líder do campeonato, seria decisivo para a equipa de Francesco Farioli a tranquilidade da dupla polaca do eixo da defesa, Bednarek e Kiwior.
Os açorianos assustaram apenas em alguns remates de longe e, mesmo mais recuado, seria o FC Porto a criar mais perigo, primeiro por Samu, aos 66’, excelente a controlar de peito um cruzamento de Pepê, mas travado no timing certo por Sidney Lima, central do Santa Clara que fez um enorme jogo. Já perto do final, Borja Sainz, na meia distância, permitiu a Gabriel Batista alguma redenção depois do erro que seria crucial para a história do jogo.
Muito pode ainda acontecer, mas com a maior ameaça, o Sporting, já a 7 pontos, o FC Porto já vê no horizonte o regresso ao mais desejado dos títulos. E estas vitórias, difíceis, tiradas a ferros, são as que tendem a trazer consigo o cunho da estrelinha de campeão.