Alioune Ndoye, o herói tardio da crença do Vitória contra as fragilidades do Sporting
Ndoye teve uma noite épica
PAULO NOVAIS
Com um bis para lá dos 90 minutos, o senegalês colocou a equipa de Guimarães na final da Taça da Liga (2-1). Os leões marcaram primeiro, mas voltaram a sofrer com as lesões e permitiram o crescimento dos minhotos, que viram a audácia de Luís Pinto ser premiada
Alioune Ndoye tinha, até este dia de reis de 2026, dois golos apontados pelo Vitória Sport Clube. Vindo do Servette, da Suíça, no início da temporada, o senagalês aterrou em Portugal para continuar uma jornada que o levara do seu país natal até ao frio da Letónia. Uns meses passados da chegada a Guimarães, o avançado só festejara duas vezes.
Até hoje. Até esta noite. Até 6 de janeiro de 2026, o dia em que, aconteça o que acontecer no futuro, Alioune Ndoye entrou no grande e quente coração das gentes de Guimarães. Nasceu um herói, e isso, no D. Afonso Henriques, significa muito.
Até hoje, Ndoye só somava dois golos pelo Vitória. Foram, também, dois os golos que assinou para lá dos 90' na meia-final da Taça da Liga. Um aos 90+2' para o empate, outro aos 90+11' para o 2-1.
O bis do senegalês derrubou o Sporting. Após eliminar o FC Porto no Dragão, foi a vez de fazer cair os bicampeões nacionais. Se a época prenunciava dificuldades para o Vitória, que perdeu quase todas as referências do passado recente nos últimos mercados, a realidade tem sido de superação. Mérito para Luís Pinto, que voltou a apresentar uma equipa plena de intenções e convicções.
Para o Sporting, o empate em Barcelos é seguido por outro murro no estômago. Mais uma contrariedade, mais lesões, menos um objetivo.
Arrancou outra final four da Taça da Liga, mais uma edição da prova sempre em mutação do futebol nacional. Nascida para dar mais jogos a quem disputava menos, a competição centra-se hoje em dar mais encontros a quem disputa mais, espécie de Robin dos Bosques do calendário da bola ao contrário.
A felicidade do Vitória, a tristeza de Maxi
NurPhoto
Houve sempre um toque de maldição em torno do troféu. Ano após ano, a polémica pegava-se com íman à Taça da Liga, da mão de Pedro Silva ao goal average de Portimão, de amuos por causa da eliminações precoces em Penafiel às permanentes alterações de formato. Sem novidades quanto à prometida internacionalização, esta final a quatro regressa a Leiria, coincidente com uma semana em que se volta a falar de reformulação de quadros competitivos.
A noite fria de Leiria foi, além de palco do jogo, casa de acolhimento do show que a Liga pretende que gravite em torno desta final four. Há uma panóplia de iniciativas que excitam as gentes do marketing, do product placement e restante calão do universo influencer. Os adeptos sempre em primeiro lugar, claro!
Feito o 1-0, a realização televisiva, após o jogo já ter retomado, mostrou-nos uma mulher, com um ar muito sério, a levar a bola do golo pela mão. Colocou-a num púlpito, tudo isto enquanto a partida decorria e os telespectadores tinham de adivinhar o que estava a suceder no relvado, colocado em segundo plano face à importante missão de deixar a bola no pedestal. O futebol sempre em primeiro lugar, claro!
Ainda que o Sporting tenha marcado cedo, fruto de uma assistência em verso de Trincão para a tradicional finalização em prosa de Luis Suárez, que chegou aos 20 golos em 2025/26, o arranque do Vitória evidenciou a qualidade estratégica de Luís Pinto. Fazendo muito com pouco, com uma prestação na I Liga bem superior às expetativas (sexto, a três pontos do quarto), a equipa de Guimarães não teve receio em pressionar alto o bicampeão nacional, deixando a linha defensiva em igualdade numérica. A abordagem audaz criou, regularmente, problemas na saída de bola leonina.
Aos 24', Rui Borges juntou mais um nome à longa lista de lesionados e indisponíveis dos lisboetas. O plantel do Sporting parece empenhado em encher a enfermaria de Alcochete, qual centro de saúde sobrelotado. Fotis Ioannidis, reincidente nas lesões, deu lugar a Alisson, que parece jogar em cima de carris, ora para a frente, ora para trás, mas permanentemente em linha reta.
Quaresma saiu lesionado na segunda parte
PAULO CUNHA
Diogo Sousa, que formou uma jovem parelha de médios com Gonçalo Nogueira, assustou Rui Silva. Com o passar dos minutos, o Sporting controlou melhor o jogar do seu adversário, ficando perto do 2-0. Luis Suárez, num dos seus clássicos movimentos de dança com bola, forçou Charles a boa defesa, antes de Alisson se empenhar em fazer explodir a bola contra o corpo do guardião. Perto do descanso, Abascal tentou homenagear Pote, mas o remate antes do meio-campo foi travado por Rui Silva.
A segunda parte trouxe algumas reedições de tendências da etapa inicial. Houve Vitória a ameaçar, Sporting a desperdiçar e lesões. Os que equipavam de preto mantiveram a ameaça, alicerçada na organização e pressão. Parecia, ainda assim, faltar arte para criar ocasiões claras.
Oportunidades flagrantes era o que ia sobrando do lado oposto. Simões, Suárez, Trincão, Matheus Reis ou Morita foram desperdiçando, com Charles a assumir papel de destaque na baliza de quem viajou de Guimarães. Para Ndoye ser héroi, antes houve um brasileiro a mantar o Vitória vivo na eliminatória.
Entre CAN, castigos e lesões, o Sporting vai-se habituando à escassez de opções. Depois de Fotis, foi Quaresma a sair, no caso por um choque com Samu na área. Para formar uma inesperada dupla de centrais com Reis entrou Rômulo, jovem de 21 anos da equipa B, como da formação secundário veio Flávio Gonçalves, que debutou como titular.
O improviso da opção por Rômulo notou-se no pior momento. O Sporting não fechou a meia-final e lamentou-se a acabar. Ao segundo minuto de compensação, Arcanjo e Nogueira combinaram pela direita. O cruzamento encontrou Rômulo como um turista perdido pelas ruas e vielas do Bairro Alto, possivelmente após uma noite de copos, à procura do telefone para descobrir o caminho para o hotel. Ndoye trocou-lhe as voltas e marcou.
O Vitória não se conformou com o empate. Notou-se o otimismo que Luís Pinto injetou neste clube tão emocional, que vive e sofre por conta da paixão que vem de fora para dentro. Saviolo não desistiu de correr pela esquerda e teve prémio aos 90+11'. Ndoye voltou a bater Rui Silva, com direito a espera dramática pelo VAR. Golo. Um senegalês passou a ser amado em Guimarães. Rui Borges arranca 2026 cheio de dores de cabeça.