Crónica de Jogo

O Vitória é o campeão de inverno e Guimarães, afinal, tem dois novos heróis

O guarda-redes Charles, uma das figuras da final, com o troféu da Taça da Liga
O guarda-redes Charles, uma das figuras da final, com o troféu da Taça da Liga
PAULO NOVAIS

A final já tinha 100 minutos quando Charles, o guarda-redes que começou a época a titular, mas que perdeu o estatuto devido a erros na baliza, defendeu o penálti que selou a reviravolta, mais uma, começada por Alioune Ndoye, avançado que entrou outra vez para marcar. O Vitória ganhou (2-1) ao rival SC Braga, de forma épica, para conquistar a sua primeira Taça da Liga e o terceiro título nacional da sua história

O vício futebolístico é uma bocarra de dentes afiados a perseguir a própria cauda, ambas parte do mesmo corpo. Nesta viciada Taça, ao ter uma final sem os ditos grandes com os seus adeptos em grande número e habituados a grandes palcos, perder-se-ão audiências da TV, ora bolas. Perder-se-ão cliques nesta e noutras crónicas, não tão sexys sem Benfica, Sporting ou FC Porto. Porque menos gente, em teoria, estará a ver, perder-se-á o reach e a visibilidade das marcas, ou partners, no marketing, já sabemos como o inglês puxa à pompa. Mas, em bom português, marimbemos para isso.

Esta Taça diz-se da Liga e representa uma liga tramada de destrinçar com precisão. Pudera, face às sua asas restritas, abertas para abraçarem, neste último de vários formatos, apenas um terço das equipas do principal campeonato (seis) e 11,1111% das que atuam no secundário (duas), seletividade afinada para que uns certos e determinados clubes vissem a luz da final, mas que pariu um dérbi minhoto. Cedo as gentes do Sporting Clube de Braga e do Vitória Sport Clube, rivais separados por nem 25 quilómetros, esgotaram os bilhetes. Também cedo quem equipou de negro fez por esgotar os caminhos aos de vermelho.

Vivaços como frente ao Sporting, a pressionaram alto a saída de bola soltando um dos médios para fazer grupinho com Saviolo, Telmo Arcanjo e Nélson Oliveira, os de Guimarães chateavam logo os passes dos três defesas centrais, com especial atenção para os de fora. O SC Braga encravava, custava-lhe sair apoiado, Grillitsch e João Moutinho a sentirem as costas escaldadas a cada bola que lhes chegava. Quase nunca se viravam com ela e era preciso Pau Víctor, o avançado, recuar para lá da linha do meio-campo para se mostrar como um médio. A final arrancava incómoda para os bracarenses.

Seria o homem a quem se pede golo no Vitória, o primeiro a rematar na final. Pouco demorou Ricardo Horta, o senhor Braga, a ripostar na outra área, arrancando do guarda-redes Charles uma defesa instintiva após uma recuperação de bola não muito longe dali. Parecia um jogo de golpeio em que só valiam murros se as equipas roubassem a outra em pressão alta. As jogadas não se demoravam, iam logo para a baliza, o ritmo era acelerado e num desses ímpetos o lateral João Mendes agarrou um Rodrigo Zalazar que se pisgava para ir atrás de um passe.

O costa-marfinense Mario Dorgeles a celebrar o golo que marcou de livre direto
PAULO NOVAIS

Foi um erro transformado em falta que deu o livre direto para Mario Dorgeles exemplarmente converter, a sua batida esquerdina na bola, seca e tensa, a pregar Charles à relva movediça de Leiria. O golo (17’) abanou o jogo sem lhe mudar a natureza, em campo mantiveram-se duas equipas recusadas em conceder a iniciativa e decididas a fixar a pressão na área adversária, algo divertido de assistir, igualmente desafiante de lidar para quem andava lá dentro. Tão esticadas estavam as equipas que era inevitável não haver espaços por explorar.

Com eles atinou primeiro o SC Braga. Após o golo descortinou a forma de usar Pau Víctor e Dorgeles, ala que se mascarou de médio quando as jogadas principiavam, para ultrapassar o quarteto vimaranense que caía em cima dos primeiros passes. Os reis da posse de bola na I Liga começaram a tê-la, tentaram demorar-se com ela, abrandar um pouco o fôlego, ajeitar o ritmo aos seus médios, outra forma de constatar que se reuniram as condições para os calmos 39 anos de João Moutinho terem pé no jogo. Então Pau rematou, o brutal Zalazar teve as suas cavalgadas com a bola e a pressão dos treinador por Cales Vicens passou a ser a causadora de sofrimento.

Estancado o seu arranque com pata a fundo no travão, coube ao Vitória sofrer, sem que a opção por um jogo mais direto, à espreita por transições, provocasse grande cerimónia na equipa de Luís Pinto, jovem treinador que montou os seus jovens para correrem. Os que tinham a maioria ruidosa nas bancadas procuraram os galopes de Noah Saviolo, pela esquerda, lado por onde João Mendes disparou uma tentativa ameaçadora, de bem longe. O mesmo que deu o livre cruzado por Telmo Arcanjo e desviado, de cabeça, pelo central Miguel Nóbrega. Só assim, ou quando o SC Braga murchava um pouco a sua pressão, o Vitória chegava à baliza.

Mesmo sem jogadas de requinte técnico, pouco generosas em finesse ou duração, a final estava animada, com energia para dar, um contraste à pachorrenta cerimónia pré-jogo, demorada no espetáculo de percurssão com tambores e no hip-hop de Carlão para auto-promover um concerto num festival vindouro. Saiu-lhe um “vão com calma hoje, vamos curtir e aproveitar, sem stress” antes de fechar a atuação a um minuto da suposta hora de arranque do jogo, todo um aparato a atrasar-se. Talvez daí veio a pressa que embalou a partida.

O central Miguel Nóbrega a cabecear a bola na área do SC Braga
PAULO CUNHA

E o SC Braga, no retorno ao relvado, de imediato ligou um ataque rápido que encostou o Vitória atrás. Rematou uma vez, rematou outra após um canto e mostrou, ligado a uma alta voltagem, não querer esmorecer a sua rédea no encontro. Movido pela sua idade que equivale quase aos anos de vida somados de Gonçalo Nogueira e Diogo Sousa, os gaiatos médios que mais se tentavam antecipar, morder e chegar cedo para o chatear, João Moutinho transformava-os em atrasados - quem pensa antes, executará sempre antes. O quase quarentão, presente na final inaugural da Taça da Liga, em 2008, era quem mandava nas posses de bola. Durante uns 15 minutos não as largou e viu-se mais do SC Braga do costume.

Mas, caído do que é fortuito e casual, numa receção calhambeque de Nélson Oliveira na área a bola fugiu do seu joelho e tocou no braço esticado de Vítor Carvalho, lá veio o VAR, viria um penálti, veio também Samu, acabado de vir do banco para logo assumir a responsabilidade de empatar (59’) a final. Efervesceram as bancadas, mais tons de preto e branco a pintá-las, corpos aos pulos e gargantas afiadas contra o frio, a sinfonia do D. Afonso Henriques interpretada no Dr. Magalhães Pessoa. No 161º dérbi entre os rivais, o primeiro em campo neutro, um golo encafuou um pedaço de Guimarães no estádio de Leiria.

Estas exuberâncias tribais, tais comunhões de adeptos de onde o futebol vai buscar a sua alma, não se compram nem forçam com hashtags de #campeãodeinverno, muito menos com um artista pago para entrar em campo a dar toques na bola, caixas de pizza amontoadas no braço, e dar a bola de jogo (sim, estava lá dentro) ao árbitro. Contagiado pelo espírito vimaranense, o Vitória foi empurrado para a frente, houve uma corrida de Oumar Camara pela direita, um cruzamento rasteiro e o jeito da trivela de Nélson Oliveira, dócil a enviar a bola contra a barra. Tivesse entrado o gesto de requinto feito a bola entrar e Guimarães era refundada ali mesmo.

Samu fez o golo do empate do Vitória, de penálti, cinco minutos depois de entrar em campo
PAULO NOVAIS

Nunca será aferível o quanto os jogadores absorvem, no relvado, as vibrações da bancada, o quão permeável são ao contágio do ambiente, há uns que dizem ter ouvidos moucos devido à concentração, outros juram que sugam energia do ambiente. Nesta final, um caso poderá ser feito a favor da última hipótese. Embalado por tantos adeptos possuídos pelo fervor, o Vitória deu o seu grito no campo, foi mordiscar e engolir as trocas de bola do SC Braga, acreditou na mesma medida em que as bancadas mais ruídosas se puseram quando Alioune Ndoye saiu do banco, aos 78’.

Os fiéis nas bancadas gritaram, soava a um dos Beatles a passar diante da falange histérica, vinha aí o autor do par de golos que eliminaram o Sporting na meia-final. E dele, da sua cabeça, veio a apoteose. Ao primeiro cruzamento em que o serviram, num livro batido por Samu, obrigou Lukáš Horníček a voar, cheio de estilo, para salvar os arsenalistas apenas por um breve momento. No canto, logo a seguir, outra vez Ndoye saltou repleto de força, a sua testa imparável a desviar a bola (83’) feita cometa estatelado em Leiria: o estádio foi abaixo, imerso em festa.

Mas o tempo era inimigo do Vitória, faltava ainda um bocado e o SC Braga, esbofeteado pelo avançado senegalês de 24 anos, com golos para amostra só nos confins da Letónia, assaltou a área contrária. Não mais a bola se afastou de lá. Moutinho carregava nos passes, Gabriel Martínez forçava nos dribles pela esquerda, Zalazar depositava cruzamentos venenosos da direita. Um deles, rasteiro, encontrou Fran Navarro encostado à baliza para desviar nas barbas de Charles. Flagrante a oportunidade, gigante a parada salvadora e à queima-roupa do guarda-redes.

Após os dois golos ao Sporting na meia-final, Alioune Ndoye entrou para marcar outro contra o SC Braga
Gualter Fatia

Não tanto, porém, como a defesa que o cotovelo de João Mendes na cara de Victor Gómez o obrigou a ir buscar no penálti assinalado contra o Vitória, já a final ia no décimo minuto do tempo de compensação. Forte saiu a sapatada de Rodrigo Zalazar na bola, o remate era puxado, mas Charles teve molas nas pernas, leu a intenção, adivinhou o lado, voou para a sua direita, esticando os braços para mais uma erupção de alegria aos adeptos. Ainda o tempo tinha fôlego e o Vitória, com menos um jogador em campo, prosseguia no seu sofrimento, embora um mais feito de nervos e ânsias do que perigo real para a sua baliza e, por arrasto, a sua história.

Quando, com 106 minutos de final, se ouviu o apito último, terminaram as bolas despejadas na área, os chutões, os lançamentos laterais demorados a pedirem um cartão amarelo. Era campeão o Vitória, conquistador da sua primeira Taça da Liga e do terceiro título da sua história, este a juntar à Taça de Portugal de 2013 e à Supertaça de 1988. Houve jogadores a chorarem, outros a vestirem bandeiras como saiotes, viam-se cachecóis enrolados em cabeças, o angolano Beni Mukendi a rastejava de joelhos no relvado, a cumprir uma qualquer promessa.

A noite seria de farra no regresso a Guimarães, cidade-berço com estátua de D. Afonso Henriques e pouco descabido será esperar que venha a ter uma para Alioune Ndoye, e outra de certo para Charles. O avançado marcou três golos em 25 minutos espalhados por dois jogos desta final four, terá fama, abraços e sopa quente vitalícios na exigente cidade, feita por gentes na corda-bamba do amor e do fanatismo onde se forja o amor de uma terra pelo seu clube como não haverá em Portugal. O guarda-redes Charles terá a mesma honra: começou a época dono da baliza, somou erros, perdeu o estatuto e tê-lo-á recuperado nos dois jogos feitos em Leiria, heroico em ambos.

O Vitória de Luís Pinto que já ganhara quatro jogos de virada no campeonato superou agora dois à caça de uma desvantagem nesta Taça da Liga, vencida no estádio onde, há menos de um ano, o treinador fez do Tondela campeão da II Liga. Há alma, resiliência, muito crer no depósito desta equipa. E se é para encarar esta Taça a sério, a que a Liga baralha, altera e aplica esteróides diversos para a tentar colar ao carinho dos adeptos, que se aplique afeição a uma das suas invenções recentes, a de batizar como campeão invernal (sem hashtag) o vencedor de uma prova que lida com o pequeno pormenor de reúnir apenas os seis primeiros classificados da primeria divisão e os dois melhores segunda.

Mas, se tal vale para quem a Liga gostará de ver nestas finais e habitual é vermos o cognome ser aplicado, serve então para quem veio de Guimarães. O Vitória é novo campeão de inverno em Portugal.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: dpombo@expresso.impresa.pt